A Gruta do Lou

O caipira que vive em mim

Começa aqui uma nova rubrica denominada “Caipirices”.

Conforme havia prometido, pretendo contar algumas coisas sobre minhas origens. Antes de mais nada, uma grande revelação: Sou caipira de pai e mãe.

Embora tenha nascido na capital, assim sou, não por nascimento, mas por descendência. Durante os longos anos vividos ao lado do pai, ouvi muita história de caipira, fora os tempos passados na fonte, quando curtia as férias na casa dos parentes lá no interior. Mas isso não foi nada. Todo ano, nessa época, quando começam os festejos juninos, o pai tinha uma agenda pronta das festas que iríamos participar. Quadrilha, quentão, pipoca, fogueira, pau-de-sebo, biriba e muita pescaria.

Nós íamos todos a caráter, pois o pai obrigava. Saiamos de casa Ele, a mãe o Carlo e eu, quatro caipiras autênticos, pena não ter fotos. O Pai ensinou logo que caipira é um cabra alinhado. Esse negócio de calça remendada com pano colorido é coisa de viado, ele dizia. Cabra bom usa terno, calça pula-brejo, lenço, chapéu e butina. Menorzinho, o pai amarrava um lenço com um nó na ponta na cintura das minhas calças, pra mode quando os homi me perguntasse pra que servia aquilo eu dizê: é simpatia. Aí eles sempre perguntavam: Simpatia pra que? Pra mode num faze xixi na cama. E o cê, desse tamanho ainda faz xixi na cama? Eu faço na cama e o pai faiz na mãe.

Contei essa piada pra mais de mil vezes. O Pai sempre dizia que não há no mundo ninguém mais inteligente do que o caipira, nem o Einstein. Mas o caipira é matuto. Esconde o leite. Fica ali como quem não quer nada e na hora certa arreganha. “O caipira não faz graça, ele é engraçado”, o pai sempre dizia isso lá em casa.

Bom chega de conversa fiada, com o tempo contarei muitos casos pro ceis. Hoje eu deixo esse vídeo. Não é nada dessas coisas, mas é uma amostra e foi feito pelo grupo teatral Andaime da UNIMEP, para homenagear Cornélio Pires, um jornalista que fez muito em favor da preservação da cultura caipira e o pai sempre falava dele.

12 thoughts on “O caipira que vive em mim

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Eita Sô…o arraiá da Gruta já tá funcionando?Peraí…
    vou só desamarrotar a saia,por umas fita no cabelo,
    e queimá o chão…tô chegando!

  3. A Raquel, sempre entrando no clima…

    Eu não perco um Senhor Brasil. Mas eu tenho quase certeza de que você vai falar que não gosta dele…

    Talvez por eu ser sócio mais antigo, não estou obrigado a ver todos os programas. Especialmente quando há sambistas e o Chico Sá no pedaço, você não verá meu nome na lista dos 16 telespectadores assíduos. Mas quando o Rolando Boldrin se mantem fiel às raízes caipiras, sim eu assisto. Claro que, quando minha TV por assinatura está cortada por indelicadezas da empresa emissora do sinal, minha presença pode ser mais provável, menos nas exceções apontadas.

  4. Tá tudo bão gente!Eu também nasci em S.Paulo,nunca vivi no interiorzão.Já dancei muita quadría.Tive contato com a terra através da fazenda de meu avô que era imigrante libanês.Minha mãe,descendente de sírio-libaneses,tem muita história a contarrrr.
    Lembro-me que ela cantava uma modinha assim:

    Seu Nastácio chegô de viaje,
    Quem de nóis vai lá visitarr,
    quem de nóis é o mais curioso,
    Ele terá quarqué coisa a contarr…,
    quem de nóis é o mais curioso,
    Ele terá quarqué coisa a contarr…

    Ao chegá na estação avistei,
    uma luiz que acendeu sem paviu,
    uma gaiola chamada de bonde,
    que ia correndo por riba dos triu…

    No oter onde eu tava ranchado,
    tinha uma tirriça pintada na bera,
    aí os omi guspia lá drento,
    nunca vi tamanha poquera,
    aí os omi guspia lá drento,
    nunca vi tamanha porquera…

    Eita nóis!

  5. Uai Bete…eu quero é me diverti,num me importa se
    é com clima ou sem clima…eu num dispenso um arraiá,
    nem uma boa prosa.
    Ai ai,é tão bão,escrivinhá ansim,prá variá…

    Gruta é informação,cultura,desabafo,folclore,mais
    um montão de coisa boa..né não?

  6. Lou, essa é antiga mas é boa.

    O caipira chegou numa cidadezinha do interior com um burrico e tinha uma placa de “tô vendendo” no pescoço do bicho. O fazendeiro que morava na cidade e estava no bar tomando cerveja com uns amigos diz:
    – Tô mesmo precisando de um burro. Vou comprar desse caipira aí, mas eu vou comprar pela metade do preço, quer ver só? Eu vou encher a cara dele de cerveja e ele vai me vender pela metade de preço. Assim que o caipira entrou no bar o cara perguntou:
    – Tá vendendo o burro?
    – Tô sim sinhô.
    – E quanto você quer por ele?
    – Duzentos contos.
    – Tudo bem, depois a gente discute o preço. Aceita uma cerveja?
    – Aceito sim sinhô.
    E aí tomaram a primeira, depois o cara pergunta:
    – Mais uma?
    – Mais uma, sim sinhô.
    E assim tomaram a segunda, a terceira, até a décima. A certa altura o cara que queria comprar o burro cochichou no ouvido do amigo:
    – Tá na hora. Quer ver como eu compro o burro pela metade do preço? E aí se virou para o caipira e perguntou:
    – Por quanto mesmo você quer vender o burro?
    Mas pra surpresa geral ele diz:
    – Num quero mais vendê o burro não sinhô.
    – Por que não? Perguntaram todos espantados.
    – É que eu só queria vender o burro causa de que eu tava cum uma vontade danada de tomar umas cervejas!!!

    Muito boa! Tem gente achando que é uma piada, mas não é. Essa história é chamada nos meios caipiras de “caso”.

  7. Moro na cintura da Paraíba, numa aldeia pequenina, veredazinha dentro do Sertão Grande. Esses folclores não me agradam, senão se devidamente explicados como elementos pitorescos e não como atribuição cultural. Tipo, culturalmente o sertão onde vivo é mais verdadeiramente Elomar do que Tonico e Tinoco, é mais Guimarães Rosa do que Rolando Boldrin, embora não se excluam essas outras possibilidades, mas como folclore. Só tô falando das minhas identificações, muito minhas… Bobagens. Resumindo: gostei mais da piada do Djalmir.

    Você está certíssimo. O movimento caipira é absolutamente paulista. Claro que acabou sendo “exportado” para todo o país, particularmente as festas. Mas sofreu muitas modificações. Moro há dez anos em Sorocaba, berço da caipiragem e o único caipira que vi por aqui, durante todo esse tempo, foi no espelho. Uma festa chamada junina e que ocorre todos os anos em Votarantim, aqui ao lado, costuma ser abrilhantada pelo cantor Daniel, que nunca cantou música caipira e não tem nada de caipira. O que se destaca nesse movimento são os aspectos culturais como língua, vestuário, religião e música. O jeitão do caipira soava cômico ao cidadão urbano que o discriminava, de certo modo. Mas já era. A última dupla de música genuinamente caipira era a formada por Tonico e Tinoco. O caipira era campesino mas nunca viveu no sertão. Esteve sempre perto de muita água, no vale do Tiete. Veja mais aqui.

  8. Eu também, Rondinelly, gostei mais da piada do Djalmir. Muito legal!
    Lou, as histórias contadas pelos caipiras são por eles chamadas de “caso” ou de “causo”? uma vez, me parece que ouvi o Rolando Boldrin falando”causo”. É assim mesmo?

    O caipira falaria “caso”, mesmo porque, teria dificuldade em pronunciar causo. O Boldrin não é caipira. Nasceu em São Joaquim da Barra, a 400 kms da Capital e tem uma proposta mais voltada à música sertaneja misturada à música de raiz. Seu programa ainda mistura MPB, samba e chorinho. Ele gosta das coisas caipiras e alguns dos casos que ele chama de causos são caipiras, cita o Cornélio Pires e é bom no que faz.

  9. Ah, bem, aqui no nosso sertão, por exemplo, muito difundido é o folclore do “Matuto” que, pela sua explicação, tirando a geografia, funciona como o “caipira” de São Paulo, especialmente pela oposição ao “caiçara”, ao povo litorâneo ou da Capital…
    E eu sempre pensei, igual à Jacira, que era “causo” mesmo!

    Perfeito quando estamos falando de sertanejo. Mas o caipira em São Paulo tornou-se quase uma etnia, coisa para o Gilberto Freire estudar, pena que já foi. Foi isso que fizeram o Cornélio Pires e o Monteiro Lobato. Hoje caipira virou sinônimo para rural e antônimo para urbano.

  10. Voces todos me perdoem, mas não só tenho o livro “Patacoadas”, como também “Musa Caipira” e “As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho” – não vendo, não dou, nem empresto – e ainda por cima – pra inveja de todos – sou sobrinho neto de tio Cornélio….

    Eta mundo pequeno! Minha sogra esteve em casa no fim de semana e falavamos sobre o Cornélio. Ela foi a um sebo procurar livros dele e achou um, meio roto. Pediram R$ 60,00 por ele. Pode? Você tem um pequeno tesouro nas mãos, digo, prateleiras.

  11. Lou, aqui no Ceará, caipira é matuto. Cabra acanhado, tímido, desconfiado. Dado a matutar; cismático. Sujeito ignorante e ingênuo. Ele é o destaque das festas juninas, quando se reúnem toda a comunidade e muitos turistas, com fartura de comida, quadrilhas, casamento matuto e muito forró. É comum os partcipantes das festas se vestirem de matuto, os homens com camisa quadriculada, calça remendada com panos coloridos, e chapéu de palha, e as mulheres com vestido colorido de xita e chapéu de palha.

    A festa junina nordestina se tornou grande e adquiriu muito interesse e visibilidade. Alguns traços bem nordestinos foram incorporados, tanto aos personagens quanto ao enredo, como o forró, por exemplo. Em alguns lugares, há a queima de fogos típicos e em outros incorporam traços religiosos. É o caipira que ganhou o Brasil, quiçá o mundo.

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