A Gruta do Lou

Construtores de Deus

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, a imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”

Gênesis 1:27

Discute-se muito sobre “quem é Deus”. Ele é bom? Todo amor? Magnânimo? Perdoador? Pacificador? Longânimo? Fiel? Justo? e/ou Autoritário? Paternalista? Ciumento? E um cem números de outras questões sobre seus possíveis atributos. Muitas vezes, as religiões acabam vivendo quase única e exclusivamente para justificar o Deus por elas concebido.

Evidentemente, o Deus de cada religião é diferente em relação aos das outras. O Deus muçulmano difere do Deus cristão, tanto quanto o Deus cristão difere do Deus budista e assim por diante.

Se olharmos só para as diversas seitas cristãs, teremos aí uma grande variedade de concepções de Deus. O Deus de Lutero não era igual ao Deus de Calvino, nem o de Calvino igual ao de Wesley. Em alguns casos, podem até ser parecidos, mas apresentam suas diferenças. Isso refletiu-se e dissipou-se pelas igrejas que se seguiram a cada um desses pensadores e/ou teólogos.

A causa desse fenômeno é o fato de cada um, cada pessoa, conceber seu próprio Deus e por isso podemos afirmas sem medo de errar que não existe um deus único, mas bilhões em construção. Fora todos os que já se foram, eles também deram sua contribuição, sem terminar suas obras.

O já saudoso Brennan Maning gravou em vídeo uma de suas palestras onde ele diz, a certa altura: Blaise Pascal disse, certa vez: “Deus fez o homem à sua semelhança e o homem, em retribuição fez Deus à sua imagem, tornando-o, mesquinho, bitolado, rude, legalista, julgador, sem sentimentos, não perdoador, e tão odioso como somos todos nós. Fiz um vídeo com a versão em português dessa palestra do Manning, de desejar ver clique aqui. Você será mais um (a) além dos mais de mil e trezentos misericordiosos que já viram essa minha digressão, caso a veja também.

Em minha opinião o Pascal e depois o Manning, chegaram bem perto de descobrir um de veio de ouro. Se eles, e eu também, à época que gravei o meu vídeo, tivéssemos andando um pouco mais pelas sendas espirituais perceberíamos que estávamos certos, mas ainda não havíamos encontrado o tesouro escondido na Gruta com a solução de um dos maiores enigmas deixados por Deus para que pudéssemos reconhecê-lo. Ao invés disso, continuamos com nosso Deus pequeno demais.

Depois de muito tempo, dor e sofrimento, assolado por tantos fantasmas e um momento punk onde tudo a minha volta parece insinuar que em termos de vida é o fim da linha para mim, caminhei um pouco além dessa frase de Pascal, repetida por nós tantas vezes e percebi atrás dela uma entrada, escondida por uma pedra e resolvi entrar por ela.

“Lá dentro daquela Gruta,

Guardada em uma arca

Sob o manto sagrado,

As palavras iniciadas em Gênesis

Continuavam com uma imensa revelação;

Deus, fez sim o homem à sua imagem e semelhança,

Uma semelhança tão semelhante e imensa,

Capaz de fazer de nós, deuses.

Não deuses salvadores da humanidade,

Mas deuses capazes de criar Deus, o nosso Deus.

Um Deus construido sim,

Segundo o nosso coração e amor maior,

Para que pudéssemos nos orgulhar da nossa criação,

Tanto quanto ele se orgulha da dele,

Criada com seu amor imensurável.”

A poetiza Adélia Prado disse, recentemente, que uma obra só é literatura se possuir poesia. A obra de Deus é toda poética e como tal, precisa ser entendida com o coração, um coração cheio de amor. Prometo, solenemente, tentar ser mais poético em tudo que escrever ou falar, a partir de agora.

Todos esses possíveis deuses, provavelmente mais de sete bilhões nos dias de hoje, posto que cada um de nós concebe seu Deus, de tal forma que nenhum é igual a outro, ainda estão como obras inacabadas. Sim, somos construtores de Deus, mas à sugestão do excelente autor Umberto Eco, a obra de todos nós ainda é uma obra aberta. Quando todos nós a completarmos, descobriremos perplexos:

Nossa, nós tínhamos todos um só Deus, todo esse tempo e ele é perfeito como queríamos que fosse.

Todos nós estamos contribuindo para a construção de Deus. Todos os Papas, Cardeais, Bispos, Padres, Pastores, Rabinos, os sacerdotes da cada religião, os pajés, xamãs, Pascal, o Manning, Brabo, Rondinelli, D. Arlete, Tuco, Wilma, Roger, Alyson, Dauvani, Rubinho, Djalmir, Nelson Costa, e até eu, imagine, todos, mas também cada pessoa, você em sua busca espiritual que não passa além de estar envolvido na construção de seu Deus, até as pessoas que se dizem ateias, estão concebendo a Deus. Essa proposta de Deus aos homens nos torna seres inescapáveis da agenda divina. Tudo o que fazemos ou fizermos contribuirá para esse projeto.

Oh! Mas o livre arbítrio… E há liberdade maior do que sermos escravos da própria liberdade? A escravidão de Deus é libertadora, é ela que procuramos, desesperadamente, quando desejamos ser verdadeiramente livres.

Não há mal nenhum que cada um decida como quer andar ou praticar sua espiritualidade, sozinho ou em grupo, que pode ser uma religião e/ou igreja ou qualquer outra forma. Está tudo bem. Nós, seres humanos, temos crédito para errar e o faremos muito ainda. Por isso o perdão. Se ele ainda não faz parte de nós, quanto mais nos aproximarmos de Deus através da reconstrução dele, mais seremos como ele, inclusive para perdoar.

Jesus homem andou sobre esse planeta com o Deus pronto, o mesmo que estamos a construir, e nos encaminhou para a direção a seguir. Talvez, de tempos em tempos, Deus levante profetas para nos direcionar, por causa da nossa tendência em nos desviar do alvo e nos ocuparmos com outras tarefas que, em realidade, nos tiram da trilha.

Certamente, esse assunto não se esgota aqui. Não tive a menor pretensão em escrever algum tratado teológico, nem estou iniciando uma nova igreja ou seita. É só um post em um blog despretensioso, mas muito sincero.

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