A Gruta do Lou

Nem tudo é descartável na Teologia da Prosperidade

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Como mencionei anteriormente, estou tentando rabiscar algo relacionado ao que ouso chamar de economia bíblica, junto com outros caras que já pensaram no assunto. A série “Segredos do Pai Nosso” deverá caminhar nessa direção, pois é crença desse refúgio espiritual cibernético que Jesus tinha enormes preocupações com a situação financeira de seus discípulos e entendeu, quando lhe pediram para ensiná-los a orar, ser essa a urgência maior deles, naquele momento.

Parece que pouca coisa mudou, meros dois mil anos depois, se não me engano. De certa forma, creio poder afirmar que o Novo Testamento, sob total influência da encarnação, ministério e vitupério de Jesus Cristo, alerta para um dos mais graves problemas da raça humana, ou seja, nossa vida financeira. Nesses anos todos, sinto ter havido uma preocupação um tanto parcial com a situação financeira da igreja em detrimento da nossa, meras pessoas físicas. Pior, há uma boa chance de que Jesus estivesse cem por cento ligado na segunda opção, enquanto os pastores tenham se amancebado ao lado da primeira, a meu ver.

Assim como os jovens de hoje não conseguem incluir em suas cabecinhas ocas (há exceções, poucas, mas há) que o futebol não começou em 1982, muito menos em 2002, mas existe desde o século XIX, a denominada Teologia da Prosperidade não começou agora com a Bíblia do Malafaya, nem com o Kenneth Hagin ou Benny Him, Copland, M. Murdock, Morris Cerullo, e outros tantos. Sem dúvida, houve uma grande ênfase a ela no século passado, sobretudo a partir dos anos setenta e esses senhores aí despontaram. Mas essa história é muito mais antiga.

As primeiras conversas relatadas nos evangelhos, como aquele papo entre Jesus e o diabo, no deserto incluem significativas menções a ela. Diz o diabo: Por que não transformas aquelas pedras ali em pão? Nada mais peculiar à prosperidade. Aliás, o diabo nada criativo continua colocando essa mesma pergunta na boca de seus servidores obtusos até hoje. Toda hora alguém me provoca com a mesma pergunta, com pequenas variações, do tipo: Por que você não pede para o Deus em quem você acredita fazer um milagre e te livrar de todas essas dívidas? com aquele ar de desdém estampado no canto da boca, esboçando um sorriso maroto. Isso quando não sou eu mesmo a pensar porque não pego grana emprestada no mercado sob a crença de que depois Deus me dará o necessário para pagar. Isso é de uma burrice atroz, pois se Deus quisesse nos dar algo, não se daria ao trabalho de esperar que nós entortássemos tudo, e depois aparecer como o grande salvador da pátria para desentortar o que não precisava ser entortado. Pior é que já caí nessa, várias vezes.

Diria, sem medo de errar, que grande parte das frases e palavras de Jesus sobre a prosperidade ou a falta dela estão relacionadas à economia bíblica proposta lá no Antigo Testamento, onde também ouve uma série de escaramuças entre Deus e o diabo, como os conflitos financeiros da geração Adâmica, seguido dos que ocorreram com as gerações Abrâmica e a liderada pelo velho Mose, ou Moisés, como é vulgarmente conhecido. Sem falar no melhor de todos, o incomparável Jó. Seguiram todos pelas mesmas vias as sagas dos juízes, dos reis e dos profetas, todo mundo enrolado com grana, sexo e prazer desenfreado. Só o cenário mudou, os enredos continuam os mesmos, infelizmente.

Um ótimo escritor, que costumava ser meu amigo, inclusive, o Paulo Brabo, divulgou em seu blog (A Bacia das Almas), esses dias, um livro relacionado ao tema da Teologia da Prosperidade que data de 1836, cujo título traduzido seria O livro da prosperidade – em que fica demonstrado através da Bíblia que é dever de todo o homem ficar rico. O pessoal citado acima chupou boa parte de suas doutrinas de pensadores da prosperidade, bem mais antigos que eles, como Norman Vincent Peale, Joseph Murphy e vários outros dos séculos XIX e do começo do século XX. Ninguém deu mais força à prosperidade da Teologia com o mesmo nome do que o sul-coreano Paul Young Cho e sua igrejinha de mais de um milhão de membros, que faz questão de dar os louros a seu mentor norte americano Robert Schuller.

Como bem demonstrou Jesus, o problema é que toda teoria econômica humana ou humanista está fadada a levar as pessoas para onde ele foi, ou seja, a tal cruz no Calvário. As nossas economias são suicidas e não apenas matamos a nós mesmos como matamos os profetas e até o filho do Rei, se ele meter-se a bobo de tentar interferir nos nossos negócios tão lucrativos. Segundo os relatos mosaicos contidos nos livros do Pentateuco, a única economia capaz de não nos escravizar é a bíblica. Aquela que inclui, como modelo, a provisão desértica que Deus providenciou ao povo recém libertado das garras de Faraó e sua economia escravizadora, onde os mais tolos servem aos mais espertinhos. Em resumo, nessa economia Deus produz e distribui cabendo a nós, saborear. Nem armazenar as sobras é permitido, evidentemente.

Em minha leitura do Novo Testamento, sobretudo dos evangelhos, Jesus só fez exaltar a economia bíblica do Antigo Testamento, sem nunca ser cooperativo com as economias humanas vigentes. Negócio dele incluía o “shabat”, e aquelas insanidades de perdoar dívidas, devolver propriedades aos donos originais, deixar o povo da comunidade se abastecer das plantações à vontade, no ano sabático e no do jubileu, e confiar em Deus quanto a toda a provisão necessária. Fez mais que isso, tentou perdoar as dividas de toda a humanidade, pelo menos no que diz respeito à nossa possível morada eterna. Quanto aos processos mundanos relacionados às nossas finanças, há discussões se o perdão cristico tem ou não poder perdoador. Foi uma mãozinha do Cordeiro de Deus a aqueles que precisavam praticar o ato mais difícil dentre todos os possíveis, perdoar e perdoar dívidas financeiras. Talvez esse fosse o verdadeiro significado de “é melhor dar do que receber”, no sentido do valor implícito.

Pessoal se preocupa com matar, roubar, mentir, adulterar, excitar-se com a mulher do próximo, etc., mas o pecado mais rasteiro é o da cobiça, sem dúvida. Não que seja o pior, pois todos se equivalem e estão interligados, mas é danado, um verdadeiro malware do qual é muito difícil se livrar. Ainda hoje vemos milhares de pessoas subindo ao altar de suas igrejas, para buscar sua purificação, com seus coraçõezinhos repletos de devedores devidamente listados. Hipócritas, deixem suas ofertas ali e corram perdoar seus devedores, aí sim, se sentirão perdoados e estarão.

Nessa altura, me parece bastante claro por que chamei esse post de “nem tudo é descartável na Teologia da Prosperidade”. Mas para quem tem dificuldade em entender piadas, explico. Nem eu com todo o meu liberalismo conservador seria capaz de absorver completamente a Teologia da Prosperidade, tadinha. Para tornar-se rico, materialmente falando, dependemos do sistema econômico mundano, qualquer um deles, ocidental ou oriental, capitalista ou socialista, judaico-cristão ou muçulmano. O problema é que costuraram tão bem a coisa que dificilmente alguém escapa e consegue viver fora de um deles, independentemente. Desde que nascemos, nossos pais, irmãos, professores, psicólogos, pastores e políticos tratarão de nos encaminhar segundo a cartilha do sistema econômico vigente e, então, estaremos mortalmente fisgados, encarcerados e conquistados. Dirão que é impossível viver de qualquer outro modo e será ilegal, para todos os efeitos, fazê-lo.

Sendo assim, resta-nos o que? Obedecer ou desobedecer. Os obedientes servem e permanecem pobres, enquanto os desobedientes são servidos e enriquecem. Claro, saber fazer conta de mais e, melhor ainda, multiplicar, ajudará bem. Na falta desse conhecimento, será necessário saber operar um computador, mini ou max. A Teologia da Prosperidade é ideal aos desobedientes do sistema, ela estimula o indivíduo à iniciativa privada, a capitalização, ao investimento, a industrialização e o comércio, sempre com lucro palpável. Um bom filho da Teologia da Prosperidade não semeia, manda semear, não colhe, manda colher. No fim, embolsa 90% do total arrecadado, depois de ter gasto 10% pagando os trabalhadores (pobres de A a Z) da colheita que não acreditam na Teologia da Prosperidade.

Para terminar, não é necessário ser membro de uma igreja neopentecostal para ser adepto e seguidor da Teologia da Prosperidade. Certamente, todos os ricos, em especial os milionários a praticam. O melhor livro sobre a Teologia da Prosperidade, atualmente, não pertence a nenhuma igreja, denominação religiosa ou seita. O título dele é O Segredo.

Só não estão chafurdados nesse quesito finanças-cobiça aqueles que deixaram as redes e seguiram o Mestre. Não conheço ninguém que viva assim, nem eu fui capaz disso.

morcego-12

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