A Gruta do Lou

Nascer de novo não é opcional, mas essencial.

renascer
Obra de Salvador Dali

    Um dos relatos mais impressionantes da Bíblia, particularmente do novo testamento, é a conversa de Jesus com Nicodemos. Jesus de Nazaré tinha hábitos horríveis. Um deles era não responder as perguntas que lhe fazíamos, mas responder o que lhe desse na telha. Quando leio essa narrativa, vejo o Mestre brincando com as palavras e dando a esse mestre em Israel um banho de sujeitos e predicados de uma profundidade inigualável, com significados espirituais e psicológicos múltiplos.

    Entre tantos argumentos, sobre os quais poder-se-ia escrever muitas teses, o Galileu faz a leitura daquele coração e mente. Homem de idade avançada e posição social, trazia dúvidas e medos. Iniciou a conversa tentando bajular o senhor, embora fosse reto de sentimentos, mas foi surpreendido com uma resposta que transpassou-lhe a alma. Com uma frase, nosso senhor disse àquele ancião, membro do sinédrio, que sua vida não estava acabada ali. Faltava-lhe o essencial: conhecer o Reino de Deus. Disse isso ao mesmo tempo em que deixou claro a necessidade dele próprio morrer e nascer de novo, para ver o Reino, outra vez, pois essa era sua missão e propósito.

    Você já se deu conta que não chegou nem perto do fim, ainda? Tem a noção da necessidade de começar uma nova vida capaz de levar-lhe a conhecer o Reino de Deus? Pensa já ter alguma coisa? Talvez tenha tudo ou uma parte do que o presente mundo pode lhe dar, mas há em você a perspectiva do que virá? Não estará como Nicodemos, temendo sob a dúvida e a incerteza do que lhe aguarda?

    A isso, Jesus está dizendo, comece agora, morrendo para tudo isso que você pensa ter construído ou, como no meu caso, tudo que você pensa ter deixado de construir, e renascendo para seguir em direção ao Reino de Deus. Não é tarde e você nunca chegou nem perto do alvo verdadeiro. Não se atenha à frase: Importa-vos nascer de novo. Podemos recomeçar sempre. Se você tem trinta anos ou quase sessenta, como eu, ou mais, recomece. Deixe o passado entregue aos verdugos do passado. Comece outra vez.

    Como todo mundo, tenho dito muitas vezes que se eu tivesse a chance de viver outra vez, sabendo tudo que sei, então minha vida daria certo. Jesus respondeu isso a Nicodemos que devia estar falando ou pensando como eu. Então faça isso, agora, comece nessa vida. Se viver essa nova vida durante uma semana ou durante anos, não importa. Essa será a vida que contará. Só depois disso poderemos falar sobre coisas que virão. Quem não crê nas coisas terrenas, jamais crerá nas coisas celestiais.

    Baseado no texto bíblico do Evangelho de João, capítulo 3 e versos 1 a 12

    לּהּמּ

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17 thoughts on “Nascer de novo não é opcional, mas essencial.

  1. interessante texto.

    há quem diga que olhar para o passado é entender o futuro. pessoalmente tenho esta tendência: modificar minha vida por aquilo que já fiz. por isso a importância de sempre nos considerarmos miseráveis; estaremos em constante mudança, para melhor, enquanto durar nossa existência.

    abçs

  2. Filipe

    “por isso a importância de sempre nos considerarmos miseráveis; estaremos em constante mudança, para melhor, enquanto durar nossa existência.”

    Um constante renascer.

  3. Finalmente uma boa posta na Gruta (risos).
    Recomeçar é uma palavra fundamental para compreender o Evangelho.
    Há esperança, mesmo para velhos de barba branca e careca reluzente.
    🙂

    Abraço

  4. Jorge

    Até o anjo do departamento dos recomeços não aguenta mais ver minha cara. Ainda bem que ainda não estipularam uma cota máxima. 🙂

  5. Primeiro o Rubens fala que tudo se repete infinitamente, baseado em Einstein e agora você nos convida a recomeçar, baseado nas palavras do Galileu…
    Não sei não. E eu acreditando no nosso pregador de domingo passado que dizia que a vida era uma simples questão de estabelecer alvos, alcançá-los e correr para o abraço.

    E por falar nisso abraços,

    Roger

  6. Roger

    Não esqueça que o pregador de domingo é especialista em administrar o nosso tempo presente, enquanto o amigo do Nicodemus parece não se adaptar bem ao tempo presente. Inclusive, o martirizaram em uma cruz, só porque pensava diferente dos sacerdotes.

  7. Georgia

    Preciso apresentar você ao meu amigo Roger que comentou antes de você. Parece que as duas famílias tem muitas coisas em comum. 🙂

  8. Ale

    Preciso iluminar a verdade. Esse texto teve a participação de vários roteiristas famosos. Primeiro o Guilhermo Arriaga, autor do roteiro de Babel e autor de vários livros de sucesso. Ele me livrou de um grande peso que carregava comigo, pois me achava um ET por sentar diante desse inescrupuloso aprisionador de mentes com tendência a manias compulsivas sem qualquer plano definido, escrever a primeira palavra e não conseguir parar mais. Ele, ao ser perguntado em uma entrevista sobre como escrevia roteiros e textos tão bons, descreveu o meu jeito de fazer, sem nunca ter me conhecido ou mesmo saber que existo. O Outro é o Brabo que me convenceu, à primeira vista, da inevitável grandeza da narração, face aos outros métodos. Acho que só fiz digitar e mal, essas linhas pouco ambiciosas. Ah! As idéias me foram sopradas pelo Raniel.

  9. Luiz Henrique da glória!

    Até você tem o seu dia de “eis que faço novas todas as coisas”? Tocou-me o seu Magnificat. Cada narrativa aguarda a sua reviravolta.

  10. Paulo

    Obrigado pela ajuda. Te devo mais essa. Põe na conta. Magnificat, essa palavra não sai de minha cabeça, ultimamente. Aliás, a narrativa tem feito estragos maiores, a começar por mim mesmo. Ah! A minha esposa pediu para te avisar que sou Luiz Henrique da Dedé e agora quer saber quem é essa tal de Glória. Pô, precisava me entregar? 🙂

  11. Brilhante usar a pintura de Salvador Dali para ilustrar esse texto. Obrigado por já me considerar um escritor, o blog fez isso de mim =)

    Grandes Abraços
    DEUS Abençoe

  12. V. Carlos

    Pensei que a foto fosse passar batida. Você me salvou. Quanto ao status de escritor, é como você disse: o blog fez isso de você. Eu os outros apenas reconhecemos o pronunciamento merecido.

  13. Oi Lou
    Uma coisa que me atrai para a Gruta é justamente essa gangorra espiritual. Uma hora é um pessimismo lascado,em outra um mensagem que descortina um mundo novo.
    Acho que isso faz parte do renascimento expresso no texto.
    Um abração.

  14. Maurício

    Antes de mais nada, agradeço humildemente ter replicado o post em seu blog. A gangorra obviamente reflete o homem da pena. Uma neurocientista da moda anda pela TV alertando sobre a necessidade do pessimismo, pois o mundo seria horrível só com os otimistas. Pelo menos, não haveria tantos problemas teológicos, seria só a prosperidade e fim. 🙂 Mas meu personagem narrador pode ser definido como um pessimista esperançoso, o que permite-lhe viver os dois lados da mesma moeda, embora seja paradoxal, concordo. Credite isso na conta do Nietzsche, o maior culpado pelo pessímismo, mas com grande poder de me cativar. A esperança é culpa de Jesus, embora ele não fosse adepto da prosperidade, o que me espanta. Tenho a impressão de que o Mestre Galileu tinha outros mundos em mente, quando falava coisas como as bem aventuranças e outras excentricidades peculiares. Sou fã de carteirinha dele. 🙂

  15. Acabei de conhecer, gostamos muito (eu e meu marido). Parabéns

    Legal! Obrigado. Obrigado pela visita e comentário, também. Voltem sempre. Fiquei feliz.

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