A Gruta do Lou

Não é só a água que está acabando, a caridade também está indo para o ralo

No início da década de oitenta (século passado) fui empossado no cargo de diretor de desenvolvimento da Missão Portas Abertas – Brasil. Minha responsabilidade seria captar recursos (à época conhecido como levantar fundos) para os projetos da Missão, todos relacionados a causas envolvendo a falta de liberdade religiosa, todas acontecendo fora de nosso país, sobretudo na Cortina Ferro (URSS), na Ásia (China, Coréia do Norte, Vietnan, Laos, Cambodja, etc.) e na África (Angola e Moçambique).

Falando a verdade, naquele tempo eu nem acreditava que aquela tarefa era algo ético e espiritual. Foi preciso fazer um treinamento capitaneado pelo Dr. Dale W. Kietzman para mudar de opinião, ou seja, captar recursos para as causas missionarias era bíblico e ético, conclui.

Quando comecei, a Missão estava recebendo 50 doações por mês em média. O escritório era cem por cento sustentado pela Open Doors Internacional, então. Essas doações nacionais não pagavam nem o aluguel do escritório que ficava na Rua Manoel da Nobrega, bem perto da Av. Paulista, na confluência da Brigadeiro Luiz Antonio. A sala grande era dividida em salas menores, uma para o secretário executivo, uma anta naquele tempo, outra para reuniões, uma outra onde o Sipierski e eu fomos acomodados, A H.U.M.E., tocada pela D. Elmira Pasquini ocupava uma também, uma forma da Portas Abertas apoiar ministérios menores, e um espaço onde ficava a recepcionista. Todos esses espaços eram bem pequenos, onde só cabiam mesa e cadeira. Naquele tempo, não tínhamos computador, ainda. Era tudo planejado e calculado na mão.

Comecei meu trabalho levantando as origens geográficas das doações recebidas até então, bem como as principais fontes. Logo percebi uma discrepância interessante, ou seja, enquanto a Missão insistia em solicitar doações ao pessoal das igrejas chamadas históricas (batistas, presbiterianos e metodistas) a maioria das doações vinham de pentecostais, na maioria de crentes vinculados às Assembleias de Deus.

Decidi priorizar meu trabalho junto às Assembleias de Deus. Conheci o Pr. Eude Martins, secretário executivo da Casa Publicadora das A. D., na época, depois com longa passagem na gerência da Editora Vida e hoje na Sociedade Bíblica do Brasil, em cargo promocional, se não me engano. Todo ano apareço por lá uma ou duas vezes para filar a boia e bater um bom papo com ele. Atualmente, ele é meu único doador, em meu ministério à frente do Projeto Coração Valente, por enquanto, um site de informações.

Em pouco tempo, conseguimos um avanço surpreendente. Os pastores eram muito receptivos e montamos uma agenda polpuda de visitas às igrejas da A. D. ocasiões em que divulgávamos o ministério da Portas Abertas, colhíamos assinaturas grátis para a revista da Missão e ainda cuidávamos da pregação naqueles atos. As outras igrejas eram atendidas, também, mediante solicitações ou através de pessoas ligadas à missão que traziam os convites. Meu trabalho incluía ir aos campos missionários que pretendíamos apoiar, como Angola e Moçambique, Cortinas de Ferro e de Bambu, arriscando minha pobre e quase insignificante vida. Depois das campanhas realizadas, sempre através de mala direta, ao menos em 90% do total efetivado, a grana arrecadada era enviada para nosso escritório central destinar a esses objetivos. Depois era ficar de olho para ver se tudo estava caminhando como esperávamos e dar relatórios autênticos aos doadores.

Três anos depois, quando fui demitido sem justa causa, a Missão estava recebendo mil e quinhentas doações por mês e com o gráfico em franca ascendência. Provavelmente, a razão da minha demissão tenha sido excesso de competência, se não houver sido por calúnia. Havia um cara lá que morria de medo de perder o emprego e tratava de defendê-lo à custa da degola de outros, enquanto do Dale Kietzman, meu mentor, e a diretoria formada por vários amigos, diziam amem ao panaca.

Numa análise bem positiva, aqueles foram os anos dourados das doações e, a meu ver, a razão é que as pessoas ainda eram generosas, com destaque para os assembleianos, que além de generosos, estavam muito bem preparados para doar, tanto para suas Igrejas, como para os projetos relevantes, fossem eles em favor do avanço da evangelização, sociais ou educacionais.

Com a chegada de Fernando Henrique Cardoso à presidência da república, o primeiro presidente de esquerda da nossa história republicana, a generosidade do povo, inclusive dos assembleianos, começou a mudar e hoje ela tornou-se muito aquém daquela dos anos oitenta.

O presidente Fernando Henrique deu ouvidos a um ícone da propaganda chamado Alex Pericinotto que afirmava haver no Brasil um mercado de doações de mais de oitenta bilhões de dólares, por coincidência, do mesmo tamanho da divida externa do Brasil, naqueles dias. Então o Fernando entendeu o recado assim: Precisamos trazer esse dinheiro para o governo e pronto, pagaremos a divina externa.

Peculiar foi a forma encontrada por Fernando e a esposa dele, D. Ruth, assim como o governo marxista leninista da Albânia mostrou como a igreja iludia o povo com imagens que choravam sangue feito de suco de uva, milagres falsos e padres pedófilos, criando um  “Museu do Ateísmo” caso o povo desejasse ver essas obras por si  próprio. Eu mesmo estive nesse museu e as vi. Então, esse nosso governo foi à caça de organizações filantrópicas sem ética e pudor, principalmente no uso do produto de suas arrecadações para  arrefecer o ímpeto do dom de generosidade via doações do povo religioso. Salvo enganos.

Os crentes fecharam-se em copas tratando de segurar as doações do seu povo para uso estritamente doméstico, com a vantagem de melhorar muito suas próprias finanças (a da igreja e a do pastor) , enquanto o presidente cunhava o termo “Pilantropia” e a mulher dele criava as OCIPs e o certificado de Filantropia. Com isso eles começaram redirecionar o dinheiro das doações direto para os governos. Depois vieram os conselhos (dos direitos da criança e do adolescente, tutelar e vários outros) e com eles o tal fundo municipal, para onde as doações deveriam ser enviadas.

Para completar o quadro sinistro, milhares de desempregados dos outros setores, cheios de diplomas de todos os tipos e pouca qualidade, migraram para o terceiro setor (o da filantropia) com seus marketings inadequados, cheios de camisetas, padarias, e outras enganações tornando o promissor mercado de doações filantrópicas quase inviável.

A Missão Portas Abertas ainda existe, arrecada bem, mas tornou-se uma mera agência arrecadatória, dirigida por um profissional especializado em marketing e comércio exterior, outro oriundo dos outros setores, e de missão evangélica não tem mais nada ou tem muito pouco, talvez o suficiente para os ingleses verem. No momento eles apoiam a igreja cristã protestante e com pouca liberdade nos países do Oriente Médio, coincidentemente, o mesmo alvo da politica externa dos americanos do norte. O único que viaja lá, hoje, que se saiba, é o chefe, os outros são funcionários de uma firma como outra qualquer, se não me engano.

Se preferir, pode usar uma empresa arrecadadora secular para sua avaliação. Por exemplo, o Instituto Ayrton Senna. Essa organização começou com dinheiro da família Senna, boa parte originada pela herança deixada pelo Ayrton, suponho. Uma destinação muito meritória, sem dúvida que tem rendido muitos prêmios à irmã dele que preside a coisa. Mas o Instituto Ayrton Senna hoje, é uma empresa de arrecadação de doações, cujo objetivo declarado são os projetos dedicados à educação. Recebem dinheiro do governo e de empresas, substancialmente. Com isso, contribuem muito para arrefecer o ímpeto das organizações menores e dos doadores pessoas físicas, os melhores nos países do primeiro mundo. Ao lado deles há a Abrinq e a C&A, todas mega arrecadadoras de doações, isentas de impostos, acho.

Então não me surpreendo quando visito as contas destinadas à recolher doações em pró do Projeto Coração Valente e não encontro um único centavo, depois da morte de meu filho que era portador de uma cardiopatia congênita altamente complexa e que acabou graças à negligência e a ganância de certos profissionais médicos. Com ele vivo, ainda recebíamos algumas doações, certamente para apoiar o tratamento dele. Mas o projeto, que poderia fazer diferença para centenas, talvez milhares de pessoas com cardiopatias congênitas, crianças na maioria, não recebe doações há mais de um ano, salvo a do meu amigo Eude Martins da Silva.

Não tenho dúvida que as pessoas trocaram a generosidade e a caridade pela desconfiança e incerteza. Deve ser horroroso você descobrir que contribuiu para algum tipo de falácia ou golpe pilantrópico.

Então só me resta agradecer aos Ex presidentes Fernando Henrique Cardoso que começou o projeto Pilantropia, talvez o melhor de seu governo chinfrin, ao Lula que deu continuidade ao projeto Pilantropia em seus dois mandatos e à atual presidente Dilma que segue na mesma toada. O que eles não sabem é que Deus tem particular apreço pelos doadores de causas meritórias e costuma reservar bênçãos muito especiais a eles, não sem perseguição, claro.

Não aliviarei para os colegas pastores, que trataram de aproveitar para ficar com 100% da grana doada pelos membros de suas igrejas, inclusive desincentivando-os a doar para projetos fora do ceio de suas igrejas. Eles também esqueceram como Deus trata os doadores verdadeiros, palavra de pastor missionário, embora a Tia Noely insista em me negar o que a mim pertence por direito. Aliás, todo aquele alvoroço  no final e começo deste ano não passou de mais uma tentativa tosca de acobertar essa verdade inegável. Pior é que foi o Tio Cássio, falecido marido dela quem providenciou essa ordenação consagratória.

As represas da Cantareira e a da Generosidade estão funcionando com apenas 10% de sua capacidade, mas sua morte cerebral está sendo dada como certa para muito breve.

morcego-12OPS: Se bater algum arrependimento ou súbito recrudescimento de generosidade terminal, o endereço do site do Projeto Coração Valente continua o mesmo: http://coracaovalente.com

Beijo nas carecas e perucas

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