A Gruta do Lou

Missões Kamikases


Foto: Sebastião Salgado

Essa semana o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária católica Dorothy Stang , consumado por pistoleiros profissionais, com seis tiros à queima roupa, foi absolvido em segundo julgamento. Ele havia sido condenado no primeiro.

Nas palavras do bispo que designou-a à essa missão, ela queria dedicar a vida às famílias isoladas que estão na miséria, daí ele indicou a Transamazônica leste, o trecho entre Altamira e Marabá e ela foi para lá, em um lugar chamado Anapu, que significa “ruido forte” em tupi, com pouco mais de oito mil habitantes vivendo em uma área de cerca de doze mil quilômetros quadrados.

Quando comecei a lecionar em seminários, uma das primeiras matérias a que fui guindado foi Missões. Isso deu início a uma caminhada tortuosa pelos meandros pouco ortodoxos dos habitantes desse mundo tenebroso de portas abertas e fechadas. Uma de minhas colegas do curso dado aos professores de missões brasileiros, pela Dra. Louise Mackney, lá na Faculdade Batista Teológica de São Paulo, sentia-se chamada por Deus para ser missionária na Índia. Depois de alguns meses de ministério em terras do Mahatma Gandhi teve que ir ao Paquistão tratar uma úlcera contraída devido a exótica alimentação indiana. O quadro evoluiu para um câncer no estômago e ela faleceu. Entendeu porque não confio em Deus? A Neusa foi à Índia morrer de cancer e a Dorothy a Anapu para ser fusilada, devido a bobagens como a posse da terra.

Em meio a uma de minhas concorridas aulas lá no JV (dirigido por um cara que não se digna a me aceitar como seu amigo nem no Orkut) um aluno veio com essa lorota de que tinha chamado para ser missionário na Índia. Perguntei-lhe, educadamente, como esse chamado teria acontecido. Se viera um anjo ou ele apenas supunha o tal chamado? Se ele me dissesse que fora um anjo, não teria problemas para crer. Vivo conversando com o Raniel, anjo protetor do Thomas, há vinte anos. Mas não foi assim.

Sabe, em minha infinita e sabida ignorância, me perguntava: porque raios Deus não enviava os missionários aos lugares onde há bastante gente para ouvir e receber o evangelho, para plantar igrejas e propagar o amor de Cristo o mais rápido possível? Gente boa em televisão e internet, falando a mesma língua das pessoas e vivendo em suas próprias culturas, fariam um estrago nas linhas inimigas. Por que Deus tem que complicar tudo sempre? Tirar um baiano, que mal fala baianês, e mandá-lo a Calcutá ou Bombaim, onde os caras estão felizes com a religião pagã deles, não tem sentido algum. Não seria muito mais prático enviar esse baiano para ser missionário em Salvador onde ele poderia anunciar suas heresias ortodoxas ou heterodoxas em linguagem soteropolitana?

E a Dna. Dorothy? Deus vai de mal a pior. Anapu, caraca! Se a mulher queria dedicar sua vida às famílias pobres e falava inglês fluentemente, por que não a enviou para New Jersey a anunciar o evangelho às pessoas moradoras de rua daquela cidade, pobres como ela desejava? Por que enviar a velhinha de setenta e três anos ao interior do Pará? E para morrer baleada? Quantos cristãos autênticos ela fez lá? Provavelmente o próximo Spurgeon será Anapuense.

Olha, é muito difícil entender um Deus que manda dar dinheiro à Igrejas corrompidas e locupletadas em seus templos e riquezas faraônicas ao invés de socorrer às pessoas famintas, doentes e miseráveis, vivendo aos montes por todos os lados que conseguirmos olhar, sem ter que caminhar mais do que um mísero quilômetro.

Meu, eu peço a Ele, todos os dias, nos últimos quinze anos por trabalho capaz de ajudar meu filho e manter minha família e Ele não me dá a mínima. Mas faz essas insanidades, com as pobres e velhinhas missionárias o tempo todo.

Longe de mim imaginar que a história não seja bem essa e que por trás disso tudo estejam os tais lobos em batina, digo, pele de cordeiro usando esses inocentes para seus próprios propósitos mundanos, mantendo o Deus bonzinho sob o tapete, em silêncio obsequioso.

Outros casos como esse se sucederam e acabaram me dispensando da cátedra (sic), não só no JV, mas em outras tantas oportunidades. Minha carreira missionária também foi para o vinagre. Queria ser missionário em Wheaton, Illinóis, mas ninguém quis me enviar para lá. Não respeitaram meu chamado, nem jurando que fora o Raniel quem me trouxera o recado de Deus. Os caras não acreditam em anjos, acho.

Nem sei porque estou falando disso hoje. Não se fala mais tanto em missões. Deve ser porque o trabalho já foi concluído, Jesus voltou e nós ficamos para arder por aqui mesmo. Pode ser que a absolvição do abominável fazendeiro tenha me incomodado. Confesso que tenho maus pensamentos. Sabe o que andei pensando, ou talvez sonhando? Que a Dorothy tinha chifres e o Vitalmiro aureolas. Cada uma né?

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

9 thoughts on “Missões Kamikases

  1. Perto de casa há uma igreja que envia missionários pra China, Coréia, sei lá pra que raio de país. E no nosso bairro, jovens perambulam para lá e para cá, sem ter o que fazer, sem esporte, sem lazer, sem nenhuma instituição que os alcance, presas fáceis do crime organizado. Só este ano morreram dois rapazinhos vítimas de acertos de contas do tráfico. Passei um e.mail pra o pastor dessa igreja, falando do fato, ele replicou dizendo que eu estava a criticar “um ungido do Senhor”, e de quebra amaldiçoou minha vida.

  2. Bete

    O pessoal da Antiga ABU (Aliança Bíblica Universitária) tinha um projeto muito legal de ganhar os estrangeiros que estudavam nas universidades de São Paulo e depois enviá-los de volta a seus países como missionários. O Rubinho fez parte disso, se não me engano. O que você menciona é a regra. Lamentável né?

  3. Junior

    Nunca havia pensado, se quer, nessa possibilidade de palavras mais jovens. Gosto de assistir filmes antigos (aqueles em branco e preto) especialmente os do Frank Capra e uma das coisas que me chama a atenção é perceber aquelas pessoas falando igual as de hoje. O que aparece aos montes, em qualquer língua, são as gírias, mas elas vêm e vão rapidamente. Acho que você e eu teremos que nos contentar com as mesmas palavras de sempre.

  4. É importante observar que a idéia de expansão é o mesmo que a idéia de poder. Poder gritar a plenos pulmões que a igreja tem filiais em países ao redor do mundo é muito vantajoso (a vantagem entenda como quiser)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.