A Gruta do Lou

Missões e missionários tupiniquins

Ser descendente de libaneses, falar árabe e ter sido educado segundo os preceitos de uma cultura anti-cristã, ao mesmo tempo nunca ter conhecido outra religião que não fosse o cristianismo, devido ao fato de ter nascido no Brasil, quando meus pais já haviam primeiro convertido-se ao catolicismo e, mais tarde, através de um acontecimento inesperado e fortuito, abraçado a fé evangélica, fez de mim um ser quase único, capaz de sentir as dores tanto dos descendentes de Abraão quanto dos filhos de Ismael.

Cresci freqüentando a escola dominical da Igreja Batista e mais tarde, aos dezenove anos, conheci uma família que abriu sua casa para reuniões com jovens, onde Jesus Cristo era apresentado de forma muito contextualizada e havia grande adesão por parte dos meninos e meninas de minha idade. Dessa reunião nasceu uma igreja, onde conheci o Lou e nos tornamos muito amigos, na verdade ele sempre foi meu irmão, e nossa amizade grande demais para ser exprimida em poucas palavras. Nós dois seguimos o caminho de Missões, desde o começo meu coração foi invadido por um amor sobrenatural por Jerusalém e o povo desta cidade emblemática para todos nós, enquanto o Lou caminhou na direção da igreja sofredora, existente nos países das chamadas cortinas de ferro e bambu, naquela época. No início, tanto eu fui com o Lou aos cristãos da igreja sofredora no leste europeu, como ele veio comigo compartilhar nossa fé junto a esse povo todo misturado que vive na cidade eterna.

Lá pelo ano de 1977, fomos tomados por uma síndrome de consciência pela causa indígena. Um famoso pastor nos pegou no intervalo, entre uma viagem e outra, e nos convenceu, com grande astúcia, da necessidade de pregar antes à Judéia e, só depois, aos confins da terra. Segundo ele, nossa Judéia era formada pelos índios brasileiros. Lá fomos nós para o pantanal, Xingu e norte do Mato Grosso. Andamos centenas de quilômetros no meio do mato, comemos cobra e contraímos malária. Quando estivemos com os índios, tudo que conseguimos foi participar do grande conflito existente entre os missionários católicos, protestantes, estrangeiros e nacionais, sem falar na insuportável tormenta representada pela sensualidade das índias, sempre nos provocando.

Sem ter conseguido levar um mísero índio aos pés de Cristo, chegamos à conclusão que aquele excomungado estava errado e havíamos perdido quase um ano de nossos verdadeiros ministérios e voltamos para São Paulo, decididos a prosseguir de onde havíamos parado. Tivemos que nos empregar, pois estávamos sem dinheiro. Missões aos índios não é coisa para missionários brasileiros pobres, aliás, como o Lou sempre diz: missões não é privilégio brasilis, é apenas uma desculpa estrangeira para trazer a religião deles para cá. Isso me fez pensar profundamente no meu propósito missionário. A pergunta: Qual é o meu trabalho na obra do Senhor, de fato. Hoje, trabalhamos muito mais pela paz em Israel do que em proselitismo religioso.

Naqueles dias, meu pai me pediu para ir ao Líbano resolver uns negócios de família, foi nessa viagem que conheci a Laila e em pouco tempo nos casamos. Enquanto isso, o Lou conheceu a Dedé e casaram-se, tudo isso no mesmo ano. Mas, Laila e eu, não retornamos ao Brasil, por circunstâncias sobrenaturais fomos direto para Jerusalém. Nossa primeira viagem ao Brasil só aconteceu dez anos depois. Nesse tempo, o Lou nos visitou duas vezes, em meio a suas viagens missionárias ao leste da europa, sobretudo à Albânia. Em Israel, fomos contratados por uma missão inglesa, onde estamos ligados até hoje.

Aos poucos o Lou foi se afastando de missões. Isso não se deu devido a constituir família. Na verdade, foram os cuidados desse mundo que o enredaram. Sei que essa afirmação não é muito bem vinda no meio evangélico, por causa daquelas palavras imprudentes de Jesus, como o Lou costuma ensinar. Na verdade, ele não foi abençoado com uma missão inglesa como eu. É engraçado, o pessoal da missão me ouvia falar dele e quis conhecê-lo. Secretamente, acalentei a esperança de vê-lo contratado, também. O pessoal adorou meu irmão querido, o levaram a Londres para ensinar no treinamento para missões de verão e isso foi um sucesso sem precedentes, mas nunca o convidaram para fazer parte e, muito menos, me deram uma razão. Até hoje perguntam quando o Lou virá e enviam saudações sinceras. No Brasil, nos lugares evangélicos onde trabalhou, o Lou deu muito mais que recebeu porque não poderia ser diferente.

Agora, o blog é o púlpito desse missionário. Chorei, com grande aperto no coração, quando ele resolveu fazer a mudança de Gruta para Caverna, mas eu o entendo, como entendo. Não faz sentido para ninguém abrir mão de suas coisas em favor dos outros. Mas esse senhor fez isso a vida inteira e fará enquanto viver. A única coisa a fazer nesse caso é confiar nele. Seu discernimento espiritual caminha anos luz na frente da maioria de nós e, creia-me, essa foi uma decisão espiritual e ele deve ter sofrido grande prejuízo, como de costume. Queria estar no Brasil para abraçá-lo e confortá-lo. Nos últimos tempos, sua situação financeira piora a cada ano, agravado por outras preocupações imensas e não sei por que Deus permite tudo isso a alguém que tanto ama servi-lo. Eu daria tudo por meu amigo, mas quando o fiz, ao invés de ajudá-lo, tudo que consegui foi fazer mais um sofredor. Acabei acreditando no Lou quando ele me disse olhando bem nos meus olhos: “Khalil, essa luta com Deus é minha. Por enquanto o anjo tem prevalecido”.

Khalil

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5 thoughts on “Missões e missionários tupiniquins

  1. Pingback: Lou Mello
  2. E eu aqui na Escola dominical da igreja que frequento, tentando sortear o livro “chamado radical” da Braúlia Ribeiro para o pessoal conhecer sobre missões entre os índios no Brasil …

    E as indias tentando seduzir os rapazes hehehe .. cada uma rsss..

    Oh, o Khalil disse que a sensualidade delas era o problema, elas são muito inocentes e não tem consciência disso, a maioria delas, pelo menos aquela época. Não era pela falta de roupa, elas eram naturalmente sensuais e isso era algo difícil de lidar.

  3. Lou,
    tirando o elemento ficção, tudo o que você escreveu é verdade! 😉 principalmente os sentimentos por trás das palavras. Eu sei, pois essa é minha história também.
    Abrçs,
    Roer

    Claro, tudo que escrevo, digo escrevemos, é verdade. Bem, talvez nem tudo… quase tudo ou menos… 🙂

  4. Admiro o Khalil, mas as coisas que você fala, soam
    mais verdadeiras.

    O khalil e eu somos muito parecidos, ou almas gêmeas. Ele fica bravo porque as pessoas não parecem perceber minhas dores e, volta e meia, aparece e faz o trabalho por mim. De minha parte prefiro, não tenho a desenvoltura necessária para falar muito a meu próprio respeito. Mas concordo com você.

  5. Missionário. Taí um termo que precisa ser redefinido, tipo “substantivo masculino; cristão; pessoa que procura servir a Deus e ao próximo segundo os ensinos e vida de Jesus.”

    Sua definição está legal. Duro achar alguém assim, né?

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