A Gruta do Lou

Minha vida profética

Minha Vida Profética

Desconfio haver milhares, talvez milhões de pessoas sentindo as mesmas sensações, até dores, sentidas por mim e com certa ênfase no primeiro dia da semana. Não sei bem a razão, fico com a impressão de ter obrigações quanto à elucidação das coisas. Paradoxal, para não dizer triste, se tal se confirmar, afinal não vejo perspectivas nem mesmo para mim, quanto mais para toda essa gente em sofrimento.

Analisando a  minha vida profética, pergunto-me, a todo instante, como seria o começo da semana para os profetas do Antigo Testamento? Preocupavam-se só com as dores do povo, ou de suas próprias dores extraiam a necessidade dos outros sofredores? E Jesus, começava seus dias cantando e dançando, ou decaia-lhe o semblante ao olhar sua pasta sanfonada de contas a pagar lotada até a tampa? Como ele planejava suas ações? Hoje subirei ao monte e farei um sermão eterno, capaz de abalar os pilares do inferno e derrubar o templo. Mas aquele sermão tem cara de acaso, daquelas coisas feitas no instante, sem saber por que ou de onde.

De qualquer maneira, era fácil para nosso senhor esquecer a si mesmo e tratar das questões aflitivas do povo. Os profetas do Antigo Testamento iam surgindo, um após o outro. Pipocavam aqui e ali. De repente, chegava ao rei alguém dizendo: Tem um cara no alto da montanha falando um monte de coisas estranhas, desvendando sonhos, enchendo latas com azeite sem origem e muito menos nota fiscal, mas bom de comer. Pronto, lá estava um profeta.

Mas esses arautos de Deus não têm vídeos no YouTube explicando o que fazer com a própria vida. Os filhos de Samuel deram-lhe preocupações, mas não sabemos se o velhote os deserdou ou os vendeu à primeira caravana que por lá passou. Conhecendo Samuel como conheço, ele tratou deles e sofreu por eles. Mas manteve tudo isso em bom e arejado lugar secreto. Quando aparecia, não falava de suas dores, ainda que pelas feridas se lhe saíssem as entranhas, tratava de interceder pelos desvalidos junto a Deus e ao rei.

Tenho vontade de subir ao meu quarto, dobrar meus joelhos e interceder por todos os companheiros e companheiras em aflição; quem sabe ganhar as ruas e recolher os órfãos, consolar os endividados e curar os enfermos. Mas e a minha pasta sanfonada, como fica?

Com tanta gente boa e espiritual por aí, o senhor foi escolher logo a mim, o mais atrapalhado e desajustado dentre todos para essa função sem futuro e muito menos remuneração? Depois de subir os primeiros degraus, geralmente, volto e corro para meu próprio umbigo, às minhas próprias aflições. Dane-se o povo. Penso: talvez o Maioral se canse e passe meu cajado a algum pastor desses famosos e todo bem resolvido.

Entretanto, a semana começa e cá estou eu sentindo o peso da humanidade em minhas costas enquanto os tais pastores e sacerdotes pensam em festas e convenções e não há como pagar minhas contas.

Certa vez fui a uma dessas igrejas e adentrei o escritório pastoral. Para azar do servo de Deus, ele estava lá, sentado em seu trono, cercado de livros e badulaques por todos os lados, notebook a sua esquerda e, claro, o smartphone sobre sua carteira lotada de cartões bancários e um enorme talão de cheques. Convidou-me a sentar, depois de olhar o relógio duas vezes. Então como vai? Perguntou com cara de quem não quer ouvir a resposta. Não me lembro se respondi, fiquei olhando para ele em silêncio. Olhou de novo para o relógio e seu celular tocou. Era a esposa, provavelmente cobrando sua presença. Ele abriu a gaveta da mesa e tirou uma nota de R$ 50,00 de algum lugar lá e disse: Deus está me mandando dar-lhe essa nota. Tenho aqui uma reserva para ajudar irmãos em necessidade e sinto que você está precisando. Então me entregou a esmola. Em seguida levantou e fiz o mesmo. Caminhamos até a porta da sala e, depois de respirar fundo, me despedi dizendo-lhe: Só passei para ver como você estava. Bom, pelo menos, ganhei cinquenta inesperados nessa.

Comigo funciona diferente. Deus me faz viajar quilômetros para levar algo a algum irmão aflito, geralmente coisas de valor muito acima de R$ 50,00. Se bem que, faz algum tempo desde a última aventura desse tipo. Isso me dá medo, das duas uma, ou ele me colocou à margem ou está perto de aprontar das dele.

O fato é, hoje é segunda-feira e não sei para onde ir; para o quarto orar ou para a rua procurar algo para fazer, quem sabe, aventuras em favor dos combalidos em prisão.

Não se faz mais profetas como antigamente.

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7 thoughts on “Minha vida profética

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Seguinte. Texto desses a pessoa ou faz um terrível longo comentário, analisando o contexto, a estrutura textual e a psicologia do autor (tipo pra facilitar o trabalho dos futuros exegetas especialistas em profetas semito-brasileiros) ou então o cara põe a cara no chão do quarto e respeita o choro e ranger de dentes com que o infeliz autor arreganhou as portas de almas miseravelmente semelhantes.” Como eu não suportei o “no comments”, vim pela terceira via, isto é, explicar por que não se deve comentar um texto desses.

  3. Não se faz mais profetas como antigamente?Pode ser que não.Mas seguramente existem os profetas de agora.E seu trabalho na GRUTA?Aqui muitas vezes estão os combalidos em prisão,mesmo que não se apresentem.Através desse Blog,você tem a oportunidade de trazer paz aos aflitos,se fazer um com os sofredores,na sua dor, sentir a dor deles.Que Deus te ilumine a trazer refrigério a todos nós,grutenses e não grutenses,desprezados e deprimidos…
    Também oramos por você,de todo o coração,entendendo um pouquinho de sua dor.

  4. Aí meu brow, veja aí se esse não é você?

    O profeta
    O profeta, essa criatura tão… tão… que direi? Tão sem pé nem cabeça!
    O profeta, cuja arma não é a palavra, tão somente, mas sua presença, sempre instigadora, por vezes, muitas, indesejada.
    O profeta, jamais se adequando ao meio, parece estar sempre em devaneio, nem sempre falando coisa com coisa. Ele sabe que só se é aceito no meio quem ao meio se adéqua, mas ele não tem preço, vivendo do meio o avesso.
    De uma coisa ele não é adepto. Dessa filosofia antropológica pós-moderna do “deixa a vida me levar, vida leva eu” na versão zecapagodiana, ou do “vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser, seguir a direção de uma estrela qualquer” na versão samuelroseana dos Beatles. Oras! Já foi dito: “o acaso é a providência dos imbecis”.
    Num meio densamente mitômano ele é invariavelmente visto como o do contra, pois da farsa é inimigo, do embuste, opositor, da encenação, adversário, a hipocrisia causa-lhe horror.
    O profeta, sempre sozinho, um estranho no ninho, sabe não haver respaldo para suas questões. Desde tempos muito antigos vem pagando com a vida pela fidelidade à sua missão/vocação, aos seus senões, tombando, enfim ferido, mas não compactuando.
    Não é um especialista. Sabe de tudo um pouco, do trivial ao essencial. Ao ignorante ou ao intelectual, ao médico ou ao louco, ao fraco ou ao poderoso terá sempre uma sacada, às vezes até bem humorada, outras, francamente ousadas, sem jamais render-se à conveniência. Não é covarde a esse ponto, nem a ponto nenhum. Alguém aí conhece algum? Dê-me o seu celular, vou convidá-lo para jantar.
    O profeta, essa criatura tão intrigante, estará ainda presente entre nós? Pode ser, não será, contudo, encontrado engravatado, montado em bens advindos da teoria humanista da prosperidade, pois abdica de interesses pessoais em prol do bem comum. Sempre se oporá ao capital visto como fim, até que se entenda o dito cujo como meio para um objetivo maior, mais sublime e compartilhado, que partilhar é a essência de sua mensagem. 2008 o ajudará a convencer as pessoas a esse respeito.
    Imagino-o de compleição franzina, não podendo valer-se, portanto, disso para fazer valer seus valores. Vai no verbo ou não vai. Sua oração: “Pai, afasta de mim esse ‘cale-se’”. Sua maior virtude: enverga até quase não poder mais, mas não rompe.
    Wagner Coelho

    O que poderia dizer? Por um lado sinto-me lisonjeado. De outro não me sinto digno de tanto e em uma terceira versão, gostaria de correr dessa descrição, como fez Jonas em relação a Nínive, carregado daquele sentimento de inadequação. Mas agradeço muito a sua presença e comentário. Já pensou em tocar seu blog, também?

  5. Quanto ao blog, de fato tenho sido interpelado a respeito. Tenho outros textos, vários, nessa mesma linha, mas minha inclinação é por colocá-los em livro. Vamos ver.
    Quanto à presença e comentário, sou leitor diário dessa Gruta.
    Demais, meu caro, saiba: a considerar o estágio espiritual, somos quase univitelinos.
    Forte abraço.

    Minha experiência com o blog está mostrando que ele é um sério caminho em direção ao livro, com certas vantagens. Forte abraço igualmente.

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