A Gruta do Lou

Minha relação com a música

A primeira música a calar em meu peito foi Calú. Não me pergunte quem cantava. Mas, me lembro muito bem de minha mãe ralhando comigo: Para de cantarolar essa porcaria, menino!

Depois, virei apreciador da grande Inesita Barroso e o Conjunto Farropilha. Naquela época, eles já eram velhos e, nem eu e muito menos os outros, entendiamos minha preferência. Estava sempre cantarolando Lampião de Gás, Meu limão e Anália (ou Nália).

Qualquer coisa virava violão e mesa era piano. Tínhamos uma rádio-vitrola RCA legal p’ra cachorro. Meu pai trabalhava no rádio e trazia muitos discos de 78 rotações para casa. Evidentemente, escutei Calú até acabar. Uma gravação de “Mamãe” por Ângela Maria e João Dias me arrebatava. Não por me lembrar alguma mãe, mas, eu me sentia o João nos braços da Ângela. Nos tempos de técnico em computadores, Ângela Maria e seu marido Daniel tornaram-se meus clientes, uma coincidência macabra.

Sem entender direito, ouvia algumas coisas mais eruditas e maravilhava-me com os sons de instrumentos desconhecidos para mim. O primeiro Long-Play 33 rotações que meu pai trouxe foi uma festa. Imagine, 12 músicas em um só disco. Era um Frank Laine autêntico.

Aos 12 anos, mais ou menos, comecei a ter aulas de violão com Dona Olga Corsi. Meu irmão já tinha aulas com ela e me levou com ele, certo dia. Foi paixão a primeira vista. Ela era uma mulher rica, bonita e muito educada. Casada, com um casal de filhos que não ligavam a mínima para música. Ela me adotou. Todo mundo me gozava por eu ter virado o queridinho da Dona Olga. Mas, eu não tava nem ai. Os momentos a sós com ela, a pretexto de aprender violão, piano e canto, compensavam. A cada acerto ou desempenho acima da média ela me tascava um beijo ou um abraço ou os dois juntos. Antes de voltar para casa ela me dizia: Vá ao lavabo lavar o rosto e tirar essas marcas de baton do rosto.

Dona Olga costumava organizar audições musicais, anualmente. Era o acontecimento do bairro. Todos os anos, o Homero Silva (um conhecido locutor de rádio da época) amigo da família da professora vinha apresentar o programa. Eu sempre tinha algum papel destacado nestas ocasiões. Uma vez toquei “Pour Elise” no piano, aquela musiquinha do gás que todo mundo odeia. Mas, para quem não sabe, é uma obra de Beethoven. Outra vez, além de minha apresentação individual, Dona Olga organizou um conjunto de cordas populares e nós tocamos Jambalaya. Adivinhe quem tocou o banjo? Meu irmão nunca participou e morria de vergonha de minhas performances e aquela amizade suspeita com Dona Olga. No final do evento, nossa professora distribuía prêmios. Não houve uma em que eu não houvesse ganho uma medalha e alguma outra coisa, fora os beijos da Dona Olga, claro.

Lá pelo fim da adolescência, meus amigos e eu formamos uma banda de Rock. O Lélio (está entre meus amigos no Orkut) era melhor músico que eu e me carregava nas costas. Só que os ensaios eram em minha casa, o que me garantia no grupo. Eu tocava guitarra e quando dispúnhamos de um teclado, era comigo mesmo. Tocávamos Beatles, Rolling Stones, Bee Gees, Stephenwolf, Doors, etc… Aos poucos, o negócio foi ficando mais sério. Toda hora, tínhamos que viajar para tocar aqui e lá. Minha namorada ficava sozinha, aos sábados à noite, e não resistia o convite dos meus amigos para sair e me cornear, então acabei me afastando da banda. Engraçado é que não houve resistência em relação à minha saída.

Sair da banda e da música foi a mesma coisa para mim. Uma vez fui com um grupo da Igreja à casa de uma irmã que diziam ser uma profetisa. Ninguém na Igreja sabia dessa minha passagem musical, muito menos essa senhora que nunca havia me visto. Claro que eu era um low profile (acho que o cara do Tempora estava com a razão) no meio da turma. Mas, adivinhem, chegou lá e tome profecia pra cima de moi. A surpresa foi a frase: “Você tocou para o mundo e agora deve tocar para mim”. Até hoje, não obedeci. Continuo questionando quem estava falando ali.

Enfim, a música para mim, ficou no melhor lugar. Nos arquivos do meu PC, nos CDs, etc… Quando chegar lá, sei que me perguntarão por que não fui um Lionel Ritchie, mas paciência, nunca persisti em nada, mesmo. O Pedro anda pra lá e pra cá com a guitarra. Não tem muita sorte, pois, não encontra ninguém para tocar com ele. Na Igreja ele não quer nem pensar. Se ele fosse em frente poderia aliviar o meu lado, um pouco.

Enfim, seguirei cantarolando Calú, Calú… bem quietinho, cá comigo, exceto quando minha mãe aparecer (o que é raro), nessas ocasiões, eu canto alto p’ra encher o saco dela.

2 thoughts on “Minha relação com a música

  1. Lou, eu estudei piano no século passado, uns 4 ou 5 anos, amava, ainda amo, mas parei quando fiquei grávida, no lugar do piano veio um berço. Mas não tenho pique pra continuar não, meu consolo é ouvir, sou ouvinte assídua da Cultura FM, a programação deles é boa demais. De vez em quando praticava no órgão da igreja, isso antes de eu lá virar persona non grata. E a vida segue.

  2. Bete

    Engraçado, eu pensava que a Igreja era o único lugar onde a expressão “persona non grata” não tivesse ocasião. Sou mesmo um tolo.

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