A Gruta do Lou

Mercadores de vida


“Disse-lhes: Vão pelo mundo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; imporão as mãos sobre os doentes e estes ficarão curados”
Marcos 16: 15-18

Estamos em época de eleições e condenados a engolir o tal horário político eleitoral. Depois eles querem que todo mundo acredite que estamos em uma democracia. Claro, ainda dispomos da alternativa de desligar esses aparelhos durante o horário fatídico ou mudar para um canal pago que não transmita essa aberração. Entretanto, como a curiosidade costuma me vencer de braçadas, quando estou nesse estado, suporto assistir durante algum tempo. Interessante que tanto os candidatos daqui de Sorocaba, quanto os do resto do estado e do país, praticamente, só fazem prometer soluções construtivas. Calma, não se engane, estou me referindo ao ímpeto que todos eles demonstram em construir. Para educação, mais escolas (prédios cheios de coisas), para saúde, hospitais (mais prédios cheios de coisas) e vai por aí.

Posso estar enganado, mas essa síndrome construtiva, há muito pegou em pastores e clérigos, também. Quando Jesus olhou ternamente para seus discípulos, após pagar geral pela incredulidade e dureza de coração daqueles incrédulos seguidores incapazes de acreditar na ressurreição de seu Mestre, tinha em mente a visão deles caminhando pelas ruas da vida, em seus caminhos cotidianos e triviais, onde poderiam compartilhar o evangelho com graça e de graça, sem prédios, púlpitos e toda habitual parafernália de nossos dias. A ideia era os discípulos “irem”, mas eles mudaram para algo como “virem”.

Nessa pequena inversão do mandato cristico pode haver um ligeiro problema teológico. Caso o Espírito Santo seja mesmo o doador dos dons e talentos necessários à tarefa evangelística, pode ser que ele não tenha acompanhado o raciocínio inversivo dos senhores pastores, na qualidade de atuais seguidores de Cristo, e esteja aguardando os evangelistas aí pelas ruas para fazer o trabalho de evangelização. Sem falar, que do bom resultado desse trabalho, muitos (talvez uns bons milhares) estariam expulsando demônios aos milhares, poupando o árduo e inócuo trabalho de psicos alguma coisa; falando novas línguas; pegando em serpentes sem medo de venenos inoportunos; bebendo o que quer que fosse risco de ser envenenado (Napoleão, Stalin, Hitler, Peron, Getúlio, Chaves e Lula adorariam essa parte); e o melhor, esses milhares estariam impondo as mãos sobre os doentes, que com isso seriam curados, tornando-se eles também, disseminadores de tudo isso.

Alguma ideia?

Por que raios as pessoas precisam de igrejas prédios? Ou escolas prédios? Ou hospitais prédios? Etc. Calma, ainda não acabei, depois você fala. Quando um burro fala o outro abaixa as orelhas (meu pai adorava esse velho clichê). Igreja, em qualquer sentido bíblico seria uma reunião de pessoas, apenas e isso pode acontecer em qualquer lugar público ou em residências, por exemplo. Mas o trabalho de evangelização, libertação e curas foi imaginado para acontecer enquanto vivemos nossas vidas bem normais e, surgindo a oportunidade, fora com a demoniada, doenças, etc. Alguns até poderiam dedicar-se em tempo integral, caso tivessem como sustentar-se sem onerar ou ser pesado a ninguém.

Por que não poderíamos fazer algo parecido com relação aos médicos e pessoal de saúde? Levá-los de volta para às ruas, no máximo aquele consultório que eles mantinham em casa, mesmo. Nesse caso, hospitais serviriam para os procedimentos inevitáveis (cirurgias, grandes exames, etc.) até quando isso fosse necessário. Afinal, se os evangelistas fizerem o trabalho cotidiano deles, logo tudo isso seria desnecessário.

O mesmo poderia ser feito com a educação (ensino seria mais adequado), né não? Minha amiga Nina Michaelis casou e foi morar no mato, como ele costuma dizer. Vieram os filhos, eles cresceram e não havia escolas por perto. Ela percebeu que os vizinhos tinham o mesmo problema. Não teve dúvidas, reuniu todo mundo e começaram a ensinar as crianças, elas próprias, as mães. Veja post sobre a Escola da Árvore. Essas crianças, hoje são adultos e, boa parte, já passou por cursos superiores. Meu filho Thomas, por razões de impedimento sobejamente conhecidas só frequentou escola prédio na idade pré-escolar e depois durante um ano e meio. Na metade do segundo ano fundamental fomos obrigados a desistir de mantê-lo nessas espeluncas preconceituosas e elitistas, no melhor estilo darwiniano. Ele está com 24 anos e em relação às outras pessoas da mesma idade, caso fosse feita uma avaliação escolar, ele seria classificado acima da média, não tenho dúvidas. Foi ensinado em casa mesmo, pela mãe, pelos irmãos, pelo pai e agregados.

Pena Jesus não ter explicado melhor o mandato dele. Aos meus olhos, ele incluía tudo, ou seja, além do evangelho, ensino, cura, cuidado e tudo que era necessário aos seres humanos.

Posso estar enganado, mas a grande maioria dos senhores e senhoras candidatos, seja aos cargos eletivos ou ministeriais, das duas uma, ou estão completamente despreparados ou não estão bem intencionados para o que se propõem.

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

4 thoughts on “Mercadores de vida

  1. Fora o fato que o sistema atual não ajuda em nada qualquer santo bem intencionado. Ele será infalivelmente eliminado ou absorvido pela máquina inexorável do sistema. É ou não é?

  2. Fora o fato que o sistema atual não ajuda em nada qualquer santo bem intencionado. Ele será infalivelmente eliminado ou absorvido pela máquina inexorável do sistema. É ou não é?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.