A Gruta do Lou

Marta, Marta, tu te inquietas com muitas coisas


Hilary Duff

No Oriente, os bens de Deus estão ali, e não pertencem a ninguém. O proprietário tem apenas um magro privilégio; a natureza é patrimônio de todos.

O cristianismo nascente, de resto, nesse caso, apenas seguia a trilha das seitas judaicas que praticavam a vida cenobítica. Um princípio comunista era a alma dessas seitas (essênios , terapeutas), igualmente mal vistas pelos fariseus e saduceus. O messianismo, exclusivamente político para os judeus ortodoxos, tornava-se para eles exclusivamente social. Por meio de uma existência doce, regrada, contemplativa, deixando espaço à liberdade do indivíduo, essas pequenas igrejas, onde se supôs, com certa razão, talvez, alguma imitação dos institutos neopitagóricos, acreditavam inaugurar sobre a terra o reino celeste. Utopias de vida bem-aventurada, baseadas na fraternidade dos homens e no culto puro do verdadeiro Deus, preocupavam as almas elevadas e produziam por toda parte experiências audaciosas, sinceras, mas pouco promissoras.

Jesus, cujas ralações com os essênios são muito difíceis de determinar (as semelhanças, em história, nem sempre implicam relações), era, nesse ponto, seu irmão. A comunidade de bens foi, durante algum tempo, regra na nova sociedade. A avareza era o pecado capital; logo, é preciso notar que o pecado de “avareza”, contra o qual a moral cristã foi tão severa, era então o simples apego à propriedade. A primeira condição para ser discípulo perfeito de Jesus era realizar a sua fortuna e doar o apurado aos pobres. Os que recuavam diante desse extremismo não entravam para a comunidade.

Jesus repetia constantemente que aquele que encontrou o reino do céu deve adquiri-lo ao preço de todos os seus bens, e que, com isso, ainda faz um negócio vantajoso. “O homem que descobriu a existência de um tesouro num campo”, dizia ele, “sem perda de tempo vende o que possui e compra o campo. O joalheiro que achou uma pérola inestimável transforma tudo em dinheiro e compra a pérola.” *² Mas, ah!, os inconvenientes desse regime não tardaram a se fazer sentir. Era necessário um tesoureiro. Escolheram para isso Judas de Cariote. Com ou sem razão, acusaram-no de roubar a bolsa comum *³, uma enorme carga de antipatias se acumulou contra ele.

Algumas vezes, o mestre, mais versado nas coisas do céu do que nas da terra, ensinou uma economia política ainda mais singular. Numa parábola esquisita, um administrador é louvado por ter angariado amigos entre os pobres à custa de seu senhor, para que os pobres , por sua vez, o introduzissem no reino dos céus. Os pobres de fato, devendo ser os usufruidores desse reino, só receberão nele aqueles que os tiverem favorecido. Um homem sensato, que pensa no futuro, deve, então, procurar conquistá-los. “Os fariseus, que eram avaros”, diz o evangelista, “ouviam isso e caçoavam dele.” *¹² Teriam ouvido também a terrível parábola que segue? ” Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino, e que todos os dias se alimentava bem. Havia também um pobre, chamado Lázaro, que estava deitado à sua porta, coberto de feridas, ansioso por se saciar com as migalhas que caíam da mesa do rico. E os cães vinham lamber suas feridas. Ora, aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão. O rico morreu também e foi enterrado. *¹³ E, do fundo do inferno, enquanto estava em tormento, ele ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão, e Lázaro junto dele. Gritando, ele disse “Pai Abraão, tenha piedade de mim, e manda Lázaro, para que ferva na água a ponta de seu dedo e me refresque a língua, pois eu sofro cruelmente nestas chamas”. Mas Abraão lhe disse: “Meu filho, lembra-te que tivestes tua porção de bem durante a vida, e Lázaro sua porção de mal. Agora ele se consola e tu te atormentas” *²¹. Há algo mais justo? Mais tarde, chamou-se esta parábola do “mau rico”. Ele está no inferno porque é rico, porque ele não doa seus bens aos pobres, porque ele come bem, ao passo que outros, à sua porta, comem mal. Finalmente, num momento menos exagerado, Jesus só apresenta a obrigação de vender seus bens e de doar seu valor aos pobres como um conselho de perfeição. Ele faz ainda esta terrível declaração: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus”. *²²

Um sentimento de admirável profundidade dominou Jesus em tudo isso, tanto quanto o bando de alegres crianças que o acompanhava e fez dele, pela eternidade, o verdadeiro criador da paz de espírito, o grande consolador da vida. Despojando o homem do que ele chama “apelos desse mundo”, Jesus pôde ir ao extremo e atentar às condições essenciais da sociedade humana. Mas ele fundou esse alto espiritualismo que, durante séculos, encheu as almas de alegria neste vale de lágrimas. Ele detectou com exatidão que a desatenção do homem, sua falta de filosofia e moralidade, se originam muito freqüentemente das distrações às quais ele se entrega, das preocupações que o assediam e que a civilização multiplica demasiadamente *²³. O Evangelho, dessa forma, foi o supremo remédio para os aborrecimentos da vida vulgar, um perpétuo sursum corda, uma potente distração das miseráveis preocupações da terra, um doce apelo como o de Jesus no ouvido de Marta: “Marta, Marta, tu te inquietas com muitas coisas; ora, uma única é necessária”.

Graças a Jesus, a existência mais terna, a mais absorvida por tristes e humilhantes afazeres, teve seu escape num canto do céu. Em nossas civilizações ocupadas, a lembrança da vida livre na Galiléia foi como o perfume de um outro mundo, como um “orvalho do Hermon” *³¹ que impediu que a secura e a vulgaridade invadissem inteiramente o campo de Deus.

Ernest Renan

*¹: Mat. 13:22; Luc. 12:15 e seg.

*² Mat. 19:21; Marc. 10:21 e seg; 29 – 30; Luc. 18:22, 23, 28

*³ Mat. 13: 44 – 46

*¹² João 12:6

*¹³ Luc. 16: 1 – 14

*21 Ver o texto grego

*²² Luc. 16:19 – 25

*²³ Mat. 13:22

*³¹ Salmo 83:3

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5 thoughts on “Marta, Marta, tu te inquietas com muitas coisas

  1. Ô Lou, vê se põe mais fotos de mulheres morenas! A Gruta é frequentada por muitas mulheres,de vez em quando uma foto de um “carinha” bonito,vai bem…

    Sei que recebemos mais visitas femininas por aqui. Mas a Gruta, como a Bíblia, é um blog essencialmente machista. Se Deus quisesse algo diferente, convocaria um bambi para pilotá-la. 🙂 Fotos de homens, essas figuras horrorosas, por aqui, só em homenagens como a dos comediantes ou algo assim. Nossa missão fundamental é enaltecer a mulher. Deus caprichou na vez delas, não poderíamos fazer menos e nem pretendemos.

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