A Gruta do Lou

Mães Latinas

A Deusa Mãe

 

Somos um bando de latinos. Nossa cultura descende de nossos ancestrais portugueses, espanhóis e italianos, povos cultivadores dos hábitos e costumes próprios dessa cultura meio pizzarella meio calabresa. Os descendentes de outros povos, entre nós, estão, completamente, latinizados, com raríssimas exceções, não se preocupem.

Uma das principais características herdadas dessa cultura quase sempre bizarra é a maelatria (o culto à deusa mãe). A Igreja católica, nosso principal culto a Deus, só obteve resultados concretos quando passou a exaltar divinamente a mãe. Não se sabe ao certo qual foi o Papa, mas certamente era alguém bastante astuto, e lá pelas tantas, enquanto ouvia um de seus eunucos recitar partes do evangelho, cheio de problemas para resolver, ouviu a parte onde se menciona uma tal de Maria, provavelmente a mulher cuja missão teria sido criar Jesus. Então teria convocado um concílio, evidentemente com pompa e circunstância, para “atualização dos textos sagrados”, com objetivo de rescrever essa parte dos textos, de forma tal, fosse exaltado o papel da tal Maria, a patamar quase divino, sem perder a ternura maternal jamais. Dizem as más línguas ter sido modelo para o novo texto a própria mãezinha dele. Daí teria surgido a conhecida expressão “filho de uma puta”. Parece ter havido grande semelhança entre Jezabel e Jorão, o filhinho gay dela, e esse Papa e sua mãezinha querida, segundo dizem pela cidade. Isso é apenas um exercício de imaginação premiada, obvio, mas “Se non è vero, è ben trovato.”

Entretanto, meu objetivo aqui não tem nada antropológico. Todo o mundo sem pedigree anglo saxão está careca de saber e praticar o respeito à santidade da mãe. Toda mãe é santa, dizemos. O velho e falecido político Adhemar de Barros, cujo affair com a secretária e outras meninas jovens e eroticamente atraentes era de conhecimento público, exaltava sua esposa em entrevista pública, certa vez, quando lhe foi perguntado se esse proceder não lhe soava paradoxal, ou seja, falar tão bem da esposa enquanto lhe era totalmente infiel. A resposta não poderia ter sido menos espantosa, pois disse o malandro matuto: “Essa é a sua visão, mas para mim não. Minha esposa é uma santa e eu não faço sexo com santas, pois isso seria um sacrilégio”. Creio não ter havido melhor caracterização sobre a questão. Latinos são infiéis com suas mulheres e essa história de idolatrar suas mães, tem muito a ver com subterfúgios favoráveis ao adultério ou pederastia própria de nossa cultura, se não me engano.

Logicamente, adultério, promiscuidade e esbórnia não são privilégios latinos. Mas nossa igreja resolveu ser prática nessa questão e santificou a mãe, a partir de Nossa Senhora. Não sei se a intenção daquele Papa citado era melhorar as finanças da igreja com essa mudança, mas o fato principal é o resultado financeiro obtido com ela. Segundo meus pares marqueteiros, não houve na história nada parecido em termos de propaganda eficaz com resultados tão expressivos. Até hoje a formula persiste e continua muito eficaz. Se as finanças vão mal, exalte a Mãe, e pronto, choverá grana nos nossos gazofilácios, dizem as línguas afiadas eclesiásticas.

Se o Papa e o resto dos latinos idolatram suas mãezinhas queridas, o mesmo não se dá pelos lados da minha vida. Minha mãe não foi uma Jezabel, dessas com mania de incentivar relações incestuosas com seus filhos a ponto de mudar-lhes o gênero natural. Na verdade, ela foi do tipo “mulher moderna”, abandonando-me à própria sorte, seja em casa com empregadas um tanto marotas ou em escolas com professores mais estranhos ainda. Logicamente, vivi muitos dias pelas ruas e só não me transformei em uma pessoa pior por razão desconhecida. Minha mãe foi uma mulher cujo comportamento me daria o direito de nominá-la uma mulher do balacubaco. Ela praticou muitas maldades, em nome da tal “liberação feminina”, sem qualquer noção do movimento corrente em paralelo, e a maioria delas me afetou profundamente. Isso me obrigou a desenvolver um sofisticado método de sobrevivência em terras latinas. Não é nada fácil não gostar da própria mãe em um mundo onde elas são consideradas deusas, mesmo quando são tremendamente déspotas. Jocasta nunca foi uma filha da puta, ela era a própria.

Nas voltas dadas pelo mundo, embora quem dê voltas sejam os planetas, como o nosso, minha mãe voltou para casa. Senil, surda e esquecida. Se já não bastassem todas as minhas desgraças, agora tenho diante de mim o desafio de cuidar da minha Jezabel, embora não tenha amor por ela, salvo aquele sentimento baixo, o pior a meu ver, denominado pelos cristãos católicos (não importa se frequentem igrejas católicas ou protestantes) de compaixão, bem como o resto dos sentimentos menores. Odeio sentir compaixão das pessoas e até dos animais. Fizemos a mudança dela para nossa casa, ontem, meu irmão (só por parte de pai) e eu. Na verdade ele nem apareceu, pois o carro quebrou de novo. Eita carro ruim sô!

Deve ser algum tipo de punição divinamente católica por eu não ter adorado minha mãe, durante a vida, como é próprio aos adoradores da deusa mãe. Um irmão (ou vários) da igreja protestante chegou a me exortar no sentido de purgar esse “pecado” a fim de voltar a ser abençoado por Deus. Agora estou obrigado a cuidar dela, das coisas às maiores até às menores, sob o olhar judicioso e pouco indulgente da comunidade latina e católica à minha volta. Ela, sem saber, nos ajudará em alguma porcentagem menor, pois se soubesse, certamente usaria como instrumento de chantagem, se não cancelasse o benefício de todo.

Tá bom ou quer mais?

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.