A Gruta do Lou

Lutando com o coração

Lutando com o coração
Lutando com o coração

Quando resolvemos iniciar o Projeto Coração Valente, tínhamos em mente as dificuldades e necessidades de nosso filho e as situações presenciadas enquanto cuidávamos dele.

Ontem, cumprimos mais um dia em nossa luta particular, como já havíamos previsto. Montamos nossa habitual operação de guerra particular e cumprimos mais essa etapa. Em dias de desemprego, pressões financeiras de todos os lados, falta de oportunidades, segregações múltiplas, etc., qualquer movimentação desse tipo vira uma batalha de Waterloo (ou WaterLou, se preferir), e foi assim. Mas Deus nos deu graça e saiu tudo bem, apesar de uma escaramuça aqui e outra acolá.

Sabe, depois de vinte e dois anos de lutas, aprendemos e constatamos várias coisas. Em um país subdesenvolvido, como o nosso (apesar de todo esforço de Marketing e Propaganda de Lula e seus colegas políticos tentando convencer o mundo de que assim não seja), o maior obstáculo para mudarmos nossa condição de maltrapilhos para algo um pouco melhor é o povo, lógico.

No INCOR, onde estivemos ontem, há um Pronto Socorro infame, daqueles que costumamos ver todos os dias em nossas televisões e ficamos a perguntar se aquilo existe de fato. Macas com cardiopatas em cima amontoadas, velhos e crianças misturados entre si, em meio a dejetos humanos de todas as naturezas, que as infelizes atendentes não vencem, apesar do esforço que possam dedicar, se bem que, a maioria já não demonstra tanta dedicação assim, a essa altura do campeonato. Acompanhantes invariavelmente em pé ao lado de seus queridos, sem um banheiro com um mínimo de decência onde possam desapertar, de vez em quando e muita, mas muita impaciência e alguns espasmos de complacência, misericórdia ou generosidade. Embora o principal tratamento de nosso filho (vários cateterismos e duas cirurgias de tórax) tenha acontecido na UNIFESP (Hospital São Paulo), a matrícula dele no INCOR deu-se desde seus primeiros meses de vida e, já naquela época, o Pronto Socorro era assim e não evoluiu.

A impressão que se tem é que impera uma espécie de teologia secreta nesses lugares. A todo instante ouvimos, de todos os lados, que é necessário enfrentar aquele calvário se quisermos obter o tratamento almejado. Claro que ninguém encara assim, ou admite essa hipótese, mas essa é a nossa constatação, depois de todos esses anos. Acho que você e eu sabemos de onde vem esse tipo de crença que envolve penitências e sacrifícios para se obter graça, perdão e saúde, no caso. Isso traz à baila nossas próprias crenças pagãs, a grande verdade sobre nossa teologia terceiro mundista e lança luz às nossas indagações a respeito de nossa condição de povo. Somos um povo pagão e cagão, pois somos tratados com dor e, se reclamarmos, custará ainda mais caro, como ensina a velha piada.

O fato é que o Pronto Socorro do INCOR, como no resto de nosso serviço nacional de saúde, está lá, como um purgatório ansioso, aguardando por todos os ingênuos cardiopatas que possa tragar, onde se destacam os congênitos que já nasceram classificados como pecadores merecedores da intransigência divina, devida a alguma transgressão que só poderia ter acontecido em alguma outra vida anterior, já que não tiveram nem a oportunidade de ofender aos ditames dos senhores sacerdotes e pastores, em nome de Deus. Isso nos leva a entender porque nunca muda nada naquele lugar, é como se fosse proibido melhorar, sem perder seu caráter de senzala, especialmente em termos de alguma evolução sustentável, de humanizá-lo, dando aos pacientes e a seus acompanhantes alguma condição mínima ao ser humano.

Não posso deixar de citar, em um texto como esse, que os senhores e senhoras militantes políticos, quando são hospedados nesse hospital público, construído com os impostos advindos de nosso suado trabalho, são tratados como se fossem reis e rainhas, em suítes com sala de imprensa e o escambau. Enquanto isso, alguns andares abaixo, corpos são removidos em sacos negros de lixo, quando não resistem às exigências purgatoriais do PS. Bom, mas esses privilegiados não pecam e nunca pecaram e não mereceriam tal condição. Há também os detentores de convênios médicos em situação mais abastada, os queridinhos de Deus e seus discípulos do Morumbi e da zona Oeste que têm emprego, trabalho e essas insignificâncias neoliberais, você sabe, que embora não sejam tratados nas suítes presidenciais, também estão isentos dos horrores do PS, afinal se Deus lhes deu grana é porque merecem mais consideração de todos nós e do Criador nada justo.

Não há dúvida que muitos saem dali para uma recuperação ou cura, só não conhecemos quais são as estatísticas em termos de quantos sobrevivem e quantos saem via necrotério, imagino que o saldo seja positivo e que os países mais desenvolvidos sejam exigentes demais quando buscam tolerâncias zero para esses serviços menos importantes. Afinal, a maioria das vítimas dessas aberrações beira a indigência ou fazem parte dela, aparentem ou não e não farão falta ao sistema de saúde, a menina dos olhos de Lula/Dilma, Serra e Cia.

Pior é que, praticamente, essa é a melhor opção para nosso filho, acredite, e durma-se com um barulho desses. O Dr. Arlindo Riso me ligou hoje cedo, gente boa e irmão em cristo, o primeiro médico paulistano, em vinte e dois anos, a fazer uma ligação para nossa casa e, ainda por cima, demonstrando real preocupação, apesar de ser cirurgião assistente do papa na área da cirurgia de cardiopatias congênitas no INCOR, tentando nos convencer que a via Pronto Socorro do INCOR, apesar desses pesares, ainda seria o caminho a seguir, agora, devido a urgência e necessidade de nosso filho, em relação às nossas condições.

Sem grana para enfrentar as despesas que o caso requer, sem plano de saúde, sem condições de arcar com tudo isso enquanto mantemos a vida (casa, família, etc,) funcionando, sem perspectivas de trabalho digno a curto prazo, a impressão ou conclusão única é que devamos mesmo sucumbir. Tomara que eles não leiam esse texto, pois se está ruim com eles, será muito pior sem eles, em termos de perspectivas para nosso filho, infelizmente. Claro que sempre há a opção de imigrar para os EUA e solicitar asilo por motivos humanitários.

Mas, depois de viver uma vida cujo currículo contém uma história de várias lutas por motivos menores,  essa causa me puxa com a força de um trator para batalhar, não apenas por nosso filho, mas por todos os cardiopatas congênitos existentes. Em nosso país, seguramente, eles passam de dois milhões. Outro dia, o ministro da saúde dizia que qualquer doença com mais de mil casos registrados deve ser considerada como epidemia. As cardiopatias congênitas não são transmissíveis pelo ar, mas já está provada sua transmissão genética, portanto assume ares de epidemia, sem falar no aumento gradativo do número de casos a cada mil nascimentos (hoje na casa de dez), cada vez mais significativo. Nossa primeira proposta é produzir uma cartilha informativa na tentativa de melhorar o desempenho das vítimas diretas e indiretas desse mal, durante seus dias, mas confesso, guerrilheiro que sou, minhas mais secretas ambições no sentido de combater por mudar essas mentalidades pagãs, cuja existência mantêm e nutre esses horrores que fariam Hitler e Menguele parecerem amadores na arte de torturar sob a desculpa dos merecimentos e do valor.

Sei que não posso ficar solicitando esmolas ou quase nada mais além de umas ligeiras orações básicas. Sinto-me completamente impotente diante do que está posto à minha frente. Resmungo o tempo todo que até aceito a missão que me foi delegada, mas poderia vir com alguns recursos mínimos, ao menos. Mandar o problema sem nada, nem um elementar e confuso manual de instruções junto é jogo duro. Mas sou um baita cabeça dura e não vou dar chances ao inimigo, e desistir da luta. Ele precisará me vencer se quiser me tirar do jogo. Pior ainda, sou muito grato a todos (uns dois ou três) que tem se permitido sensibilizar-se com nossa causa.

Não deixem de suportar as igrejas das elites que vocês frequentam e seus projetos ecológicos, mas quando der, deixem-nos apanhar umas migalhas que caírem de vossas mesas. Seremos gratos por isso e prometo, fazendo figa nas costas, que não ambicionaremos chegar a ser um projeto do tipo Bolsa Família, Fome Zero, Portas Abertas ou Visão Mundial. Trataremos de nos manter em nosso cantinho subdesenvolvido, mesmo.

Ops: Estou saindo para conseguir oxigênio e para tentar reativar o plano de saúde do Thomas.

Conheça o Projeto Coração Valente

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2 thoughts on “Lutando com o coração

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