A Gruta do Lou

Libelo do trabalho

trabalhadores braçaisTrabalhadores Braçais

O libelo do trabalho inclui o fato que, há dois anos, conforme o post de 1º de maio de 2006, eu estava na Gruta em oração por trabalho. Mas não se assuste, essa batalha espiritual começou muito antes disso. Na verdade, nem me lembro mais quando foi. Talvez tenha começado no céu, antes dessa minha missão atual na terra.

Provavelmente briguei com anjos e arcanjos sobre objetivos, métodos e recursos da missão. Jamais teria escolhido vir ao Brasil, mesmo sob pretextos manipulativos. Certamente foi preciso muito mais do que algum tipo de promessa ou vantagem espiritual para me convencerem. Com toda certeza, apelaram para meus sentimentos. Sou um incorrigível ser passional e aqueles burocratas celestiais bem o sabem.

Se não era minha vontade, o mal está feito e, há mais de cinquenta anos, desse tempo humano mais que humano, luto contra minha mais completa falta de adaptação a essa vida e campo ministerial. Ainda guardo comigo a regra dada a todo missionário enviado à terra: encarnar-se. Mas eles não sabem o tamanho dessa tarefa aqui. Pior do que viver no Brasil, é morar em Sorocaba.

Talvez você esteja imaginando algo muito diferente da realidade, se estiver acompanhando minhas palavras, até aqui. A pedido do Jorge , não posso me alongar, pois ele aprecia posts curtos. Então, estou sempre tentando ser breve, em homenagem a ele. Vamos lá:

As dificuldades de adaptação no Brasil são de ordem completamente inversa às conhecidas. Para você ter uma ideia, tudo por aqui é bonito e as riquezas estão por todo lado. Um relevo maravilhoso; a maior reserva de água (na superfície e sob o solo); a maior reserva de petróleo (no mar e na terra); o maior espaço cultivável; grande reserva de ouro e pedras preciosas; praias deslumbrantes; as mulheres são lindas (inclusive tratei de conquistar a minha); a sensualidade está em tudo à nossa volta; há uma permissividade marota; até nossas igrejas são mais ou menos marotas; faz muito sol e os dias são mais longos que as noites; a comida é ótima e a bebida idem; a cerveja se não é a melhor, é aceitável; o vinho é fraquinho ainda, mas é barato; enfim, tudo contribui para desfazer qualquer tipo de santidade e seriedade. Completa-se o quadro com a possibilidade de tudo isso não ser verdade, mas um golpe ou um 171, como se diz por aqui.

Como um missionário a serviço de sua santidade, não a de Roma, mas a do céu, deparei com a necessidade de vencer as belezas e facilidades locais, antes de qualquer ação missionária. Para tanto precisaria assumir os mesmos modos, hábitos e crenças do povo dessa terra. A isso eles não fazem concessão qualquer. Se você quiser ser um dos nossos, a condição “sine qua non” é abdicar de suas crenças testamentarias, estabelecidas por aquele monstro conhecido pelo nome de Irineu. Você pode até se dar bem dirigindo uma igreja, grande ou pequena, pregando suas bobagens, cantando e enganando os trouxas, mas tem que amancebar-se.

Por outro lado, se não rezar em nossa cartilha, dizem, sua sorte estará selada e viverá errante, sem trabalho, sem dinheiro, sem sorte e sem amor, ainda por cima, sob a humilhação geral, mendigando o pão de cada dia.

Apesar de toda oposição, macumbas e perseguição, consegui salvar algo de bom, talvez o melhor: o amor. Mas no quesito trabalho e, consequentemente, dinheiro, a coisa vai de mal a pior e faz muito mais tempo do que meros dois anos que não o vejo. Todo mundo pensa que oração é uma espécie de ligação iphone de resultado esperado.

Enganam-se, a oração é a maior embromação que a igreja inventou. Para mim, o rei da verdadeira oração foi Jonas. Ele sentou-se e ficou ali sentado com cara de aborrecido, sem nada dizer. O Rei dos céus não suporta essa atitude. Elias fez algo parecido, mas de minha preferência, entrou na gruta e ficou lá, p… da vida. Percebem, o segredo está em quanto conseguimos nos indignar, não tanto com os acontecimentos terráqueos, mas com a missão que o maioral houver nos dado.

Sei que ainda não consegui chegar ao ponto certo de minha indignação. Há, em mim, uma desconfortável esperança e uma inexplicável confiança, beirando mesmo a fé, dando conta de uma mudança fantástica e inimaginável prestes a acontecer. Mesmo ao longo de todos esses anos de espera, penúria e desajustes, tem sido assim e não consigo me livrar dessa infeliz autoconfiança.

O dia do trabalho foi cuidadosamente cunhado nas oficinas do inferno, creia-me.

*libelo= Segundo o magistério de Leão Vieira Starling o libelo ‘é a exposição escrita e articulada do fato criminoso das suas circunstâncias agravantes.

Capricornio PB

4 thoughts on “Libelo do trabalho

  1. Bete

    Acredito em mudar nossa maneira de pensar, nossas crenças e convicções. A vida profissional, em última análise, também é uma forma de pensar, um conjunto de convicções e crenças.

  2. Eu gostaria muito de saber falar essas coisas aí pro Sibelius, ele tá super encalacrado numa atividade profissional errada, que não o deixa estudar, que consome todo o seu tempo, ele tá super infeliz, e eu também.

  3. Bete

    Estude a Mais Valia com o Sibelius. Pelo jeito, esse é o probleminha que ele está vivendo. Ele e mais uns cinqüenta milhões de felizardos que têm emprego, por aqui, claro. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *