A Gruta do Lou

Pr. Jonas

Pr. Jonas

Pr. Jonas

Nos tempos de Jorge Tadeu e Igreja Maná, onde eu trabalhava processando dados e cuidando das coisas da informática em geral, área em que o apóstolo dá a maior atenção, havia essa figura ímpar, o Pastor Jonas. Em toda minha vida, raramente me senti mais desorientado, ao ver um cara como esse ser elevado ao ministério pastoral e olha que não dou muita bola para isso.

Meu local de trabalho era a administração das igrejas Maná, no Brasil. Não era nenhum super emprego. Ganhava mal, não dava nem para alugar uma casa decente. Nessa época morávamos todos apertados no apartamento de minha mãe e não tínhamos carro. Mas o Jonas não via as coisas assim.

Belo dia, entrei em minha sala e lá estava ele sentado. É um cara grandão e obeso. Comia sempre mais do que devia. Tinha hábitos de higiene indescritíveis. Para dizer o mínimo, ele usava o banheiro contíguo à minha sala, após o almoço, e, durante uma hora, eu era obrigado a ficar no outro andar da casa, pois era impossível ficar ali, aquela hora, devido ao perfume.

Então, iniciei meu trabalho ligando os computadores. Como ele me olhava, insistentemente, perguntei se podia ajudar em alguma coisa. Sua resposta foi um pouco inesperada. Tirou um disquete (era o tempo deles) do bolso e perguntou qual computador poderia usar para trabalhar. Nisso, entrou na sala o Pr.Nieto (Filho de um dos Pastores da Igreja Maná no Brasil e responsável pela administração, naquele tempo) e me comunicou que o Jonas iria começar a trabalhar conosco, voluntariamente, na minha área. Deveria designar uma máquina para o filhote de hipopótamo, recém chegado.

Olhei em volta e vislumbrei o 386 que ninguém mais usava e disse ao balofo pastor: pode usar aquele ali e dei as costas. Com o canto do olho, vi o cara procurando algo na CPU. Mexia no disquete, aquela altura dentro do driver, apertava várias teclas do teclado e olhava em minha direção.

Continuei fazendo de conta que não estava vendo, até que ele me chamou, dizendo: Lou, tem algum problema com esse computador. Virei e fui até ele. Olhei o monitor (Écran ou vídeo) e havia uma mensagem de erro. Resolvi tirar o disquete que ele inserira e, para minha surpresa, ele estava encalacrado no driver. Percebi que se forçasse poderia quebrar tudo ali. Tive que desmontar, primeiro a CPU e depois o driver, para conseguir, finalmente, libertar o indefeso disquete. O animal do Jonas havia colocado o disquete ao contrário e de ponta-cabeça. Montei tudo de novo, pacientemente.

Depois olhei para o Jonas e perguntei: Você já trabalhou com computador, alguma vez? Resposta desnecessária. Nem ouvi o que ele respondeu. Pequei o disquete e rompi na sala do Pr. Nieto, adentro, falando alto e claro o que o Jonas acabara de fazer, nos primeiros cinco minutos de “trabalho” em nosso CPD.

O Pr. Nieto me convenceu (sic) a deixar o Jonas por ali, mesmo que não fizesse nada muito produtivo, em nome dos pais dele (que eram pastores de uma das igrejas). Perguntei quem iria supervisioná-lo e ele disse que qualquer coisa, enviasse o Jonas para ele. Deixei claro que não iria cuidar dele e muito menos ensinar o cara de graça. Mas, evidentemente, a responsabilidade pelos computadores e andamento do serviço era minha e eu já podia prever muitos problemas. Certamente não imaginei, quanto.

Tive que mostrar a ele como colocar o disquete corretamente na máquina e deixei bem claro que ele andaria por conta própria e, se quebrasse o computador, seria dispensado sumariamente, ou eu cairia fora. Aquele computador não tinha Windows. Estava equipado com DOS e Word 5.0, enquanto nas outras já usávamos Windows 3.11. Alguém deve ter mostrado a ele como dar os primeiros passos nos dois programas, pois percebi que ele digitava alguma coisa durante os dias seguintes. Continuei meu trabalho e não dei mais atenção ao que o Jonas fazia.

Certo dia, o Pr. Nieto veio a mim e perguntou se não era possível instalar o Windows 3.11 na máquina usada pelo Jonas. Respondi que era possível, mas lembrei que ali havia arquivos pertencentes ao Pr. Tadeu e que seria melhor consultá-lo, antes da mudança. A confirmação veio depois do almoço. Passado o tempo do descanso compulsório no andar de baixo, instalei o Windows na máquina do Jonas, com ele do meu lado e olhando tudo que eu fazia.

O Pr. Nieto entrou na sala, acompanhado do Pr. Jorge Tadeu e outros caras, quando acabei a instalação. O Jonas virou para ele e disse: “Pastor Nieto, o Lou não instalou direito o Windows na minha máquina”. Olhamos todos para ele com caras de idiotas. Então perguntei: “Com base em que você está fazendo essa afirmação ridícula?” Ele então respondeu, candidamente: “você não usou todos os discos do programa, na instalação”. No tempo em que os programas vinham em disquetes, isso era comum, pois para conter todos os drivers de impressoras eram necessários dois ou três disquetes, mas só um era necessário na instalação, ou seja, aquele que correspondia a sua impressora. Então brinquei dizendo a ele: “Você é iniciante e é melhor não lhe dar muitos palitos de fósforos, pois você poderia causar um grande incêndio aqui”. (Risada geral)

O Jonas aproveitou a presença do Pr. Nieto (e do Jorge Tadeu, obviamente) para fazer uma grave reclamação contra mim. Disse ele que eu o estava impedindo de trabalhar, uma vez que não lhe ensinava nada, nem sobre computadores e muito menos sobre o nosso serviço.

Então, falei em alto e bom som para todos ouvirem: “Meu caro Jonas: você chega aqui com essa cara-de-pau, se oferecendo para trabalhar de graça. Vem da Mooca (um bairro da zona leste de São Paulo) até aqui em seu Del Rey do ano (era uma tipo de carro de luxo, naquela época). Além disso, come aqui e traz o lanchinho que a mamãe, carinhosamente, lhe prepara. Passa o dia todo conosco e só sai quando eu saio. Não lhe parece estranho tudo isso? Eu acho que você quer aprender comigo tudo que eu sei e depois ficar no meu lugar, afinal o argumento do “de graça” é muito forte. Meu caro, posso não ser uma grande sumidade, mas sei identificar um oportunista de longe. No que depender de mim, você nunca saberá nada sobre computadores e menos ainda, sobre as rotinas desse departamento”.

O Jonas continuou lá, por um bom tempo. Ele tinha costas largas (papai era um dos pastores), assim como o Nieto e os outros. O único que não tinha padrinho era eu. Ele era persistente e, do jeito dele, aprendeu a mexer no Word 2 para Windows. Conseguiu ficar com a produção de apostilas. Eu continuei tratando-o a pão e água. Nesse tempo, o escritório mudara para as salas do andar superior na igreja do Tio Cássio.

Belo dia, fui informado que deveria ir a Portugal, para trabalhar um tempo com o apóstolo Jorge Tadeu. Fiquei na nave mãe um mês e meio. Quando voltei, em meu primeiro dia, pós Portugal, fui informado pela esposa do Pr. Nieto que o Jonas havia se apoderado do computador que eu utilizava, normalmente (o melhor do departamento, obviamente) e da minha mesa, cadeira, canetas, etc… Segundo ela, todo o serviço estava atrasado, pois ninguém conseguia remover o Pastor Jonas do meu posto, nem o Pr. Nieto.

Fui para a sala onde estavam as máquinas e lá estava o Jonas, calmamente em meu lugar. Olhei diretamente para ele e disse com voz de barítono: “Saia daí agora ou vou tirá-lo na porrada”. Disse isso caminhando na direção dele. Ele levantou correndo e foi para a mesa onde estava a velha máquina dele, e o lixo habitual em volta. Então continuei: “Tem mais, você não vai mais largar aquele chiqueiro de papéis e restos de comida que você costuma deixar em seu local de trabalho, todos os dias. Está proibido de usar o banheiro aqui em cima, especialmente após o almoço e nunca mais toque em qualquer outra máquina daqui, que não seja essa aí. Se insistir, transferirei você lá para o porão, em um quartinho de despejo que tem lá, cheio de tralhas. Uma a mais não fará diferença lá”.

Daria para escrever um livro sobre essa peça rara. O que aconteceu depois é que ele tornou-se bispo da Igreja Maná em um país da África, depois de um tempo em Portugal, e dizem que andou aprontando outras por lá, mas é melhor não dar crédito. Pessoal de igreja costuma ser um tanto fofoqueiro. Enquanto isso,  fui dispensado devido à revelação de uma de nossas profetizas. Deus teria mostrado a ela que o insucesso da Igreja Maná no Brasil devia-se à minha presença na administração, uma pessoa que não estava na mesma visão. Coincidentemente, algum tempo antes, o marido dela, um tapeceiro, recapeou nosso sofá da sala e demorei um pouco para pagá-lo e tivemos uma ligeira discussão, antes do acerto final.Talvez esse fato, tenha aguçado mais o dom profético da mulher.

A propósito, se não me engano, a profetiza acertou na profecia, de fato eu não estava nem um pouquinho na visão da Igreja Maná e nunca estive na da Maná ou de outra qualquer. Nem precisava ser profeta ou profetizar para descobrir isso. Estava na cara.

Capricornio PB

8 thoughts on “Pr. Jonas

  1. Lou, passei por aqui, estou construindo minha ponte de sentimentos… Uma vez li algo, nem pergunte onde e nem tão pouco o autor da pérola… foi mais ou menos assim: “Os prazeres pertencem à mocidade, as alegrias à meia-idade e a bem-aventurança, à velhice. Meu caro, com disse o Join Canto “bolei” de rir com essa figuraça. Ler este texto foi semelhante beber um bom vinho…São personagens que marcam nossas vidas. Tb tive os meus. valeu mesmo!! Um cheiro.

  2. Francisco
    Esse aí fez história. Talvez eu conte um outro capítulo dele passado em Portugal, tão bom ou mais. Legal é poder contar com eles para escrever a nossa sinfonia, digo, biografia.

  3. Wander

    Eu também sou um gordo. Uma mulher ficou brava comigo no supermercado e desancou a gritar: Sai da frente gordo. Mas concordo, independentemente de serem gordas ou magras, certas pessoas são indescritivelmente porcalhonas. O Jonas faz parte dessa comunidade.

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