A Gruta do Lou

John Stott e eu

john stott

Sir John Stott


Amy Winehouse

Amy Winehouse

Amy Winehouse faleceu no dia 23 desse mês e logo se esgotaram todas as vias possíveis de conseguir suas músicas. No dia 27, foi a vez de John Robert Walmsley Stott
(escolhi
o link para a Wikipedia em inglês, porque o link em português está abaixo da crítica)
faleceu em um asilo para clérigos aposentados, ao lado de amigos e ao som de Aleluia de Handel. Espero fazer meu rito de passagem ao som da mesma música. Tomara que seus livros estejam sendo esgotados, em todas as possibilidades de obtê-los, igualmente. Afinal, os dois, Amy e John tinham, pelo menos, duas coisas em comum, eram ingleses e viviam na mesma cidade. Uma pena que nunca tenham se encontrado, suponho.

Comecei a notar e seguir o Stott em 1976, logo depois de minha conversão (sem piadas, sim?) através das notícias sobre a Conferência de Lausanne 1974, a mesma que redundou no famoso Pacto de Lausanne, que não canso de citar, para todos os lados que vou proclamando a mensagem do evangelho e desafiando as pessoas, mormente os mais jovens, a fazerem parte da “Missão Cristã Hoje”, outra grande ideia do Stott.

Em Lausanne, Stott conduziu os presentes a pensar e planejar o novo século (XXI) que se avizinhava, pois vivíamos o último quarto do século XX, em termos da continuidade da Missão Cristã. Temo que esse plano, abençoado por Deus, tenha sido engavetado pelo clero cristão evangélico, como o fez a ABU, editora do Pacto em Português. Pelo menos não ouço menção a respeito, tirando meus próprios parcos esforços. Quem sabe a morte de John Stott tenha um benefício a mais, além de dar-lhe o merecido descanso dos nobres e leva-lo para sua morada eterna, certamente, bem melhor do que sua última por aqui. Falo da necessidade de trazer a comunidade cristã de volta aos trilhos, recuperando os pressupostos do Pacto de Lausanne, por exemplo.

Outro detalhe incluso nessa morte tão relevante para a comunidade de Cristo, embora os mais jovens não tenham a menor ideia do que estou a dizer, imagino, é a importância do livro “Christian Mission in the Modern World“, em português A Missão Cristã no Mundo Moderno. Fui à estante, aqui ao lado para dar uma olhada no meu exemplar, que é a versão hispânica dele, da Ediciones Certeza, Buenos Aires, Argentina. Na estante, descobri duas coisas: Primeiro, tenho guardado por longos anos, não um, mas dois exemplares e mais, nenhum dos dois me pertence. Um tem uma etiqueta toda bonitinha com os nomes de Guilherme e Sandra Kerr e o outro, mais surrado, um carimbo onde se lê, “Pertence a Paulo D. Siepierski“, velhos amigos que devem ter cometido a imprudência de me emprestar o livro e nunca mais reclamá-lo. Talvez, não o tenham feito com o intuito de garantir a minha leitura e transformação para algo melhor, ou para se livrar do livro e do compromisso missionário a “La Stott”, coisa que não acredito. Assim, quando chegarem no céu e forem questionados sobre por que deixaram a boa causa, eles dirão: “A culpa é do Lou Mello que ficou com nosso livro e nos privou do mapa da mina”.

Claro que você verá um milhão de referências ao livro mais celebrado do Stott, Cristianismo Básico, tradução de Jorge Camargo e edição Ed. Ultimato. Eu li a segunda Edição da Ed. Vida Nova (1973) e, embora ele ainda esteja aqui na minha estante, não convidaria nenhum dos meus filhos a lê-lo. É um livro chato pra chuchu (isso deveria ser escrito com x e não com ch), embora cheio de conteúdo relevante. Não sei se foi problema de tradução, talvez a edição mais moderna, da editora mineira, tenha resolvido isso com uma nova tradução. Agora, a relevância de “A Missão Cristã no Mundo Moderno”, faz dele um livro profético e indispensável a todos os que sonham em ser alguma coisa na comunidade cristã, mesmo que seja só um mero participante e, sobretudo aos que almejam o pastorado e/ou alguma liderança.

Não tenho dúvida que esse pessoal da tal Missão na Integra ou Integral ainda não teve essa oportunidade. Aliás, o Stott cita, no livro, o pessoal da Teologia da Libertação, a missão integral no original, sem as afetações comunistas que os colegas atuais querem sugerir. Há até a citação do conhecido aforisma de Marx: “Os filósofos limitam-se a interpretar o mundo… a questão é, sem embargo, muda-lo”. Seria ótimo se essa rapaziada incorporasse esse aforismo marxista, e parasse com as frescuras hipócritas de querer bancar socialistas, quando não passam de burguezinhos consumistas, como todos nós.

Em 1979, passei uma semana com o Stott. Não chegamos a nos conhecer pessoalmente. No máximo, estive entre 5 e 20 metros ou mais dele, salvo um ou outro Good Afternoon e Good evening, nos dois períodos daqueles dias. Ocorreu na ocasião em que ele esteve na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e expôs, brilhantemente suas ideias. O Tio Cássio, à época, compareceu uma noite conosco, para dizer, no final, que o Homem era bom, mas não tinha o Espírito Santo. Houve espanto geral de todos os presentes na Kombi que nos levou de volta à igreja, brilhantemente dirigida pelo irretocável José Augusto. Foram dois temas, o primeiro relacionado à Missão Cristã no Mundo Moderno, sobretudo a evangelização e o segundo, a Pregação Expositiva. Essa experiência mexeu demais comigo.

Não sei se a presença do Stott na FTBSP, naquela semana, teve algo a ver com o Geração 79, evento de magnitude jamais vista de novo por aqui, levado a cabo no Palácio de Exposições do Anhembi, pela MPC com grana da Fundação Billy Graham e que teve a participação de pesos pesados, entre eles o próprio Billy Graham, mais Luis Palau e os da casa, Russel P. Shedd e Nilson Fanini. Ali foram revelados para a comunidade alguns dos nomes que despontaram na comunidade no final daquele século, como Volney Faustini, Paulo Moreira Filho, Tio Cássio, Eros Pasquini, Ari Velloso e muitos outros, inclusive o Caio Fábio, que hoje mais parece um Zumbi dos Planaltos, mas liderou a comunidade nos últimos anos do século passado, antes de se exilar. Também estiveram presentes, embora mais anonimamente, gente como o Paulo Brabo, Rubens Osório (se não me engano), Nelson Bomilcar, Guilherme Kerr e eu, o menor de todos. Pensando bem, acho que foi só uma coincidência.

Mas era isso, precisava fazer algum tipo de tributo a quem tanto me ajudou a crescer, se bem que isso não tenha redundado em quase nada, por culpa minha, lógico. Sem falar que o Stott não fez a mínima idéia a respeito e eu fui só mais um dos frutos nas milhares de caixas que ele produziu. Não fiz antes porque, por alguma razão maluca, só fiquei sabendo da morte do Stott, hoje, quando entrei no Google Reader e vi a postagem do Roger Brand, lá. Mais um que abandonou a Gruta atrás dos raios solares.

morcego-12

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9 thoughts on “John Stott e eu

    1. Ele escreveu alguns comentários, como esse, entre as muitas obras, a maioria não traduzida para português. Quem sabe agora, o façam. Quanto a ABU se ainda existir, deve estar agonizando. 🙂

  1. Meu caro, fui intérprete de J. Stott em algumas das palestras que ele proferiu em Sampa, glória das glórias. Estive no Geração, sim, como co-coordenador de um grupo de discussão sobre Política, junto com Jorge Barrientos, e chegamos a ser hostilizados por nossas propostas “esquerdistas”. A ABU existe e resiste, muito bem em alguns lugares; não sei se tão benéfica quanto nos anos 70… Ocupo o mesmo cantinho escuro onde está o Roger, e não pretendo sair tão cedo, ok?
    Quanto a afirmação do Tio Cássio, se Stott não tinha o E. S., ninguém teve ou tem.

    1. É verdade, você traduziu ele, inclusive em estava em uma reunião na ABU quando isso aconteceu, se bem me lembro. A rigor, não tenho nada contra a ABU, tirando esse problema divulgado pelo Brabo recentemente sobre os capítulos não divulgados do livro Culpa e Graça, na edição da Editora ABU e divulgado na Gruta, também, noutros tempos. O Tio Cássio me ensinou muitas coisas, entre elas, a ser condescendente… com ele, claro. E vê se para com esse negócio de ficar no canto escuro com o Roger, pois queremos vê-los, também. 🙂

  2. A primeira vez que ouvi falar no Stott, faz uns 5 anos, foi pela boca de um católico (como eu) ortodoxo (aí é demais) e generoso (chego nem perto), que quis elogiá-lo, dizendo: “Ele é muito perspicaz e muito fiel. Também é bem considerado no meio evangélico. É como o papa deles…” Eu fiquei —> [o.O]

    1. Só posso acrescentar que ele era anglicano. Portanto, não se sentia evangélico, assim como os evangélicos não consideram os anglicanos exatamente evangélicos, se não me engano.

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