A Gruta do Lou

Jesus, por uma outra escravidão

Escravidão

Os evangelhos, particularmente os sinóticos, oferecem quantidade surpreendente de uma pródiga vida desapegada, absolutamente coerente com a pregação e ensinos de Jesus. Não se trata da opção monástica de João Batista ou dos padres do deserto e seus mosteiros sagrados que se seguiram, ao longo da história da igreja. Mas é altamente incomoda a politicamente incorreta atitude do Mestre em relação a um aceitável e mínimo comportamento responsável exigido pela sociedade da época ou atual.

Embora Jesus apareça naquelas páginas munido de um invejável currículo de “Filho do Carpinteiro de Nazaré” que, não sei se você sabe, estava longe de significar pouco, ele jamais prevaleceu-se desse handicap e, nenhuma vez sequer, citou esse detalhe enquanto durou sua missão salvifica na terra. Fez mais, embora tenha proferido longos discursos, ensinado seus discípulos e conversado muito durante três anos, usando todo tipo de metáforas e exemplos de fundo comercial, muitas vezes envolvendo profissões e serviços da época, ele nunca contou casos oriundos da profissão de seu papai e que teólogos e comentaristas, todos estudantes compenetrados e detalhistas das escrituras neotestamentárias seriam capazes de jurar que, como seu pai, ele dominaria todos os meandros do martelo, serrote e formões, quase sugerindo alguma atividade remunerada secreta consertando portas e janelas ou construindo estruturas de telhados. Entretanto, ele nunca tocou nesse assunto. e, em nenhum momento, seus biógrafos deixam escapar qualquer informação nesse sentido. Não lhe parece estranho?

Ao contrário, além de andar de lá para cá, fazendo longas viagens com sua troupe, nada econômica e relativamente numerosa, que por pelo menos duas vezes chegou aos milhares de pessoas, Jesus em todas essas ocasiões inovou e em todas elas lançou mão de expedientes heterodoxos, como os casos dos milhares que foram alimentados a partir de alguns pedaços de pão e peixinhos, ao invés de orientar a todos no sentido de procurarem um posto do ministério do trabalho, em alguma estação do metrô a fim de ocuparem uma das milhares vagas oferecidas por Cesar e o PT Romano ou quando instruiu seus parceiros a irem pescar, quando deveriam tratar de trabalhar, já que eram pescadores profissionais, e quando pegassem um único peixe com uma prazerosa vara de pescar ou uma singela linhada, encontrariam dentro do bicho a grana necessária para saldar seus débitos fiscais. Sem falar no excelente vinho que apurou a partir de jarros d’água em uma simples festa de casamento.

Durante todo esse tempo, Jesus jamais pegou no pesado, exceto no último dia de vida, quando transportou pesada cruz morro acima, no braço e/ou costas, embora esse trampo não tenha sido devidamente remunerado. Tampouco solicitou empréstimos ou esmolas, vivendo sempre como se nada lhe faltasse. O pessoal que conviveu com ele naqueles dias veiculava uma fofoca maldosa dando conta de que Jesus comia e tomava muito vinho, habitualmente. Além disso, ele descansava bastante, bastando para isso, estar cansado. As condições pouco importavam, ele dormia sob tempestades, em barcos que balançavam um bocado, no deserto, em casas de amigos, e muitos outros lugares pouco usuais. Como ele sustentava esse modo de vida excêntrico?

Jesus declarou solenemente não possuir casa própria e, certamente, não tinha propriedades e muito menos carro ou moto. Também não era adepto de investimentos em ações ou quaisquer outros tipos de títulos, nominais ou ao portador. Se ele vivesse em nossos dias, acho que o chamaríamos de folgado ou um bom malandro, quem sabe um play boy, filhinho de papai. Alguns poderiam exagerar e tratá-lo por vagabundo, mesmo.

Para tapar a boca dessa gente maldosa, certa vez, resolveu envolver-se em uma pesca profissional. Esperou a ocasião certa e ela se ofereceu a ele. Um dia, seus amigos pescadores retornaram de uma jornada em alto mar com seus barcos vazios, pois a pesca fora péssima. Então ele subiu em um dos barcos e ordenou-lhes que dessem meia volta e retomassem à pescaria. Os caras tinham trabalhado o dia todo, suponho que algo em torno de umas doze ou quatorze horas. Irônicos, disseram-lhe com desdém: trabalhamos o dia todo e não pescamos nada, mas sob tua palavra lançaremos as redes, outra vez. Ninguém poderia supor que aquilo pudesse dar certo, afinal, estava tudo fora do padrão e das regras da boa pescaria. Jesus era filho de carpinteiro e não de pescador, lembram? O local não era o melhor, a hora estava errada, o modo era errado, a disposição e motivações completamente equivocadas e mais um monte de senões errados, e quando puxaram as redes elas vieram repletas, era tanto peixe que não conseguiram nem dar conta deles sozinhos. Foi preciso a ajuda de todos os barcos nas imediações.

Quem era esse homem que até os ventos e tempestades se lhe obedeciam, que não respeitava o manual do bom pescador, não tinha emprego certo, nem residência fixa ou carteira de trabalho? No entanto, vivia feliz a distribuir conselhos teológicos de graça. Os mais bem humorados diziam pela cidade que ele era assim porque não tinha sogra. Mas suponho que o motivo fosse outro, ou seja, ele não gastou seu tempo atrás de dinheiro e, paradoxalmente, nunca pareceu precisar disso.

De outra forma, Jesus ainda disse para quem quisesse ouvir: “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. Mateus 6: 31 a 34.

Minha impressão é que Jesus não estava interessado em uma subversão anti capitalista ou anti comunista. Parecia mais interessado em uma subversão ao engano diabólico praticado contra a criação que deveria ser livre, mas continuava insistindo em viver escravizada e compulsiva em busca de dinheiro, quando poderia optar por um modo de vida muito menos sufocante. Bastaria apenas alinhar-se com o Criador, confiando nele para o suprimento necessário como Jesus fez quando viveu como um reles mortal.

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