A Gruta do Lou

Jesus não é mais aquele

Jesus Cristo Super Star

Minha esposa me interroga constantemente sobre a desigualdade entre os cristãos. Ela (como eu) recebeu parte significativa do ensino religioso dela em escolas católicas, com ênfase na teologia das obras. Esse tipo de coisa costuma enraizar, e mesmo depois de conhecer outra forma teológica de adoração como a graça, por exemplo, somos conduzidos pelas nossas aprendizagens primárias.

Entretanto, sou obrigado a reconhecer que a preocupação dela procede, e muito. Digo isso porque enxergo na pergunta dela, conhecendo-a como conheço e vivenciando a maior parte da história dela, a preocupação em relação às dramáticas diferenças existentes entre as pessoas, até mesmo dentro de uma mesma família. Especialmente se considerarmos o fato de alguns passarem pela vida sem grandes sobressaltos, enquanto outros sofrem imensos contratempos em suas caminhadas, às vezes envolvendo doenças, escassez e morte.

Inevitavelmente ponho-me a refletir sobre tudo isso e sou capaz de jurar meu mais completo desanimo em relação à inconstância, ou poderíamos dizer, a falta de critérios do pessoal lá do céu. Veja bem, antes nós conhecíamos um Jesus tipo “toma lá dá cá”, lembra do versículo? “Daí e ser-vos-á dado”. Aí o pessoal representante das empresas celestiais (igrejas, missões, etc.) passou a ensinar um outro lado do Filho de Deus, ou seja, dar sem esperar recompensas. No caso da minha esposa, eles passaram a orientar com aquele versículo “Tome a sua cruz e siga a minha.”

Os teólogos cristãos pós modernos resolveram desespiritualizar Jesus, na opinião deles muito romântico e cheio de santidade. Como disse o John Stott em 1979 nas palestras que fez ao pessoal da Faculdade Teológica Batista no auditório da Igreja Batista de Perdizes, ao lado, comigo incluso: Esse era o Jesus de Godspel, cantando, dançando, cheio de abraços e beijos, com jeitão até meio gay. Depois veio o Jesus guerrilheiro, com cara de Che Guevara e depois inventaram o Jesus Cristo Super Star, de novo, com jeitão mais feminino. Agora voltaram a descrever Jesus do jeito mais guerrilheiro.

Acabo de ler no livro “Zelota” de Reza Aslan, um das doze melhores edições de 2013, segundo o Ricardo Quadros Gouvêa (nem me pergunte quem nomeou esse cara para tanto) o seguinte:

‘A designação dos doze (discípulos) era, se não uma chamada para a guerra, uma admissão de sua inevitabilidade, e é por isso que Jesus advertiu-os expressamente do que estava por vir: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me – Mc 8:34″‘

Evidentemente isso ficou muito diferente em relação às nossas crenças prosaicas e cheias de romantismo missionário. Agora eles querem guerra, de novo. Mas esse ainda não é ponto onde quero chegar. Olhando para tudo quanto tem acontecido em nossas vidas, nem esse Jesus nem os outros chegam para nós. Por que raios tudo dá errado para uns, apesar de todo esforço, zelo, cuidado, medo, etc., e para outros, sem muito esforço, e até uns senões, a vida é bela?

Já sei, você me dirá agora: Boa pergunta. “C’est la vie, tree bien.”

E mais, por que tudo parecia funcionar bem durante um tempo e depois parou, como se Jesus tivesse retirado a Igreja dele da Terra, como sugeriu o excelente Karl Barth. Sabe quando a gente ora e quanto mais ora, mais assombração lhe aparece? Então, ultimamente tem sido assim. Meu, já experimentei verdadeiros milagres. Vi coisas grandiosas acontecerem, sem a menor chance de não ter sido Deus. Mas se Jesus voltou a ser guerrilheiro, ele deve estar muito ocupado, pois o que tem de guerrilha por esse mundo de hoje a fora, não é brincadeira, inclusive aqui, embora a chamem de vandalismo, por enquanto.

Bom, só posso dizer mais uma coisa, Jesus não parece ser mais o mesmo.

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.