A Gruta do Lou

Jesus épico ou lírico, salvador ou gay?

Nosso propósito aqui é refletir sobre o caráter épico imprimido a Jesus de Nazaré pelos evangelistas preferidos por Irineu. Tal ênfase deu ao nosso amigo Süskind o ensejo de tomar nosso mestre como um salvador épico. Não reprovo o Suskind, totalmente, de fato há esse teor nas palavras evangélicas. Como cristão formado em tradicionais princípios baticostais,  incomoda-me ver meu Mestre rebaixado ao nível de Orfeu e sua Eurídice e, pior, sendo considerado menos que o protagonista do belo conto ou mito orfeônico. Particularmente, me encanto com o amor de Orfeu por Eurídice, apesar do nome dela. Além disso, concordo de novo com o Suspiro, digo, Suskind, Orfeu era lírico até a raiz dos cabelos, natural que a Eurídice  tenha partido dessa para uma melhor e não condeno a descrição épica de Jesus, completamente.

Apesar de todo o esforço de Irineu, talvez dos próprios evangelistas, em dar um caráter épico a Jesus Nazareno, ainda assim sobraram muitos fragmentos do que penso tenha sido o Jesus verdadeiro, nos próprios textos canônicos dos evangelhos. Se esse foi o Cristo real , colocaria o lírico Orfeu e sua amada no chinelo. Refiro-me ao comportamento lírico e constante de Jesus em noventa ou mais por cento de seus poucos dias sobre a Terra. A começar do seu mandamento único (amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo), que de épico não tem nada, mas tudo de lírico. Na maioria das vezes, o comportamento de Jesus foi lírico, cheio de poesia e sentimento. Sentou-se, apanhou água e uma toalha e lavou os pés dos discípulos, dizendo: “Quem desejar ser o maior, sirva aos outros”. Essa afirmação jogou por terra todas as hierarquias, a meu ver. Noutra ocasião, ele disse: “Se alguém bater em sua face, ofereça-lhe a outra”. Onde estaria o Salvador Épico nessas atitudes.

Não me surpreendem as conclusões do Suskind, permito-me apenas, desconfiar que ele possa estar sendo ligeiramente sacana em sua comparação, com essa picaretagem de matar dois coelhos com uma só cajadada, seja lá o que isso (um cajado) for. Ao evidenciar o lado épico de Jesus, portanto autoritário e mandão, em contraposição ao belo e até meio viado do lírico Orfeu, estaria sendo preconceituoso e heterofóbico. Nem todo gay é lírico, embora a maioria procure representar esse papel, como nem todo heterossexual é épico, a começar por mim. Segundo os padres, Jesus não se definiu sexualmente e qualquer aposta é mera suposição, seja para o lado que for. Não me surpreenderá se aparecer um Jesus gay por aí, pelo menos em ser completamente lírico. Aquele do Godspel tinha algum problema nesse sentido e até o John Stott notou. Acho que Jesus só poderia ser lírico, apesar da forçação de barra para transformá-lo em um ícone épico, independente da opção sexual. Gente interessada em provar que ele era macho já vimos aos montes por aí e, mesmo sendo lírico, isso não comprometeria esse lado, imagino.

Nada contra, mas meu ponto aqui é que, para mim, o Cristo dos evangelhos era todo lírico e os teólogos, a começar de Irineu, trataram de lhe dar um caráter mais épico, a partir de certa época. Era preciso criar um salvador épico para toda a humanidade, que desse a própria vida por todos nós, sofredor e morrendo em nosso lugar, pelo nossos pecados. Estranho é que, a bem dizer, Jesus teria falhado nesse intento, pois, até onde sei, esse ato não livrou ninguém da própria morte, inclusive nós. Até cãezinhos inocentes, sem pecado algum, mesmo tendo sofrido molestações impensadas de gente maldosa ao extremo, continuam morrendo, até hoje. Eu que o diga. Segundo os teólogos criadores desses dogmas, a morte é a consequência maior do pecado. Se ele houvesse nos livrado, a morte já era. Certo? Para nós e para os animais. Infelizmente, essa história não é verdadeira.

Do ponto de vista do marketing, tiro o chapéu para os caras, começando do apóstolo Paulo. O cristianismo cresceu e está durando, deixando outras religiões milenares com a pulga atrás da orelha. Mas tudo isso é bastante obvio, na verdade, o Suskind, tanto quanto muitos outros ateus, tomam por base textos contaminados pela audácia de amanuenses, tradutores e gente da banda podre da teologia e embarcam com eles em uma hermenêutica furada e despropositada, ou com propósitos espúrios. Aliás, esse negócio de propósitos está acabando com os poucos cabelos que me restam.

Gente lírica mais recente, também acabou transformada em épica, casos de Gandhi, Martin Luther King e Madre Tereza. Parece que a raça humana carece desses personagens, enquanto o lirismo fica relegado aos gays e aos heteros românticos. Não sei se estou enganado, mas o Suskind e a turma dele querem me levar a acreditar que o politicamente correto é ser mais lírico que épico, mais gay também, se possível. Não preciso ser lírico nem épico para ignorar hierarquias, autoritarismos e totalitarismos, muito comuns em nossos meios políticos e religiosos. Temo apenas, estar perdendo alguma coisa nos passos de Jesus, enquanto acalentamos essas bobagens épicas a ele atribuídas.Também não preciso ser gay para ser feliz ou viver em rede. Se eles querem ser respeitados e livres para ser como preferem, então me respeitem do mesmo modo e com os mesmos direitos.

OPS: Para entrar no clima desse post, insisto na leitura dos dois posts anteriores, sob o rico de pagar mico para mim, depois, a saber:

Épica e Lírica

Épica e Lírica, tradução em parte

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2 thoughts on “Jesus épico ou lírico, salvador ou gay?

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