A [inaudível] guinada para a direita dos evangélicos

O autor

Paulo Brabo  digo  Paulo Purim

O movimento evangélico é já resultado de uma privatização

Circulou há algumas semanas uma entrevista em que o sociólogo Roberto Dutra analisa o impacto político do crescimento da população evangélica no Brasil. Seu alerta mais ressonante é o de que haveria “uma cegueira da esquerda em compreender essa nova classe trabalhadora”:

O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo antiindividualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo, a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo acusatório: “É a pregação do individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”.

diversas camadas nesse raciocínio. Politicamente, ele sugere a possibilidade (ou a necessidade) do surgimento de uma esquerda de alguma forma conciliada com o individualismo. Num nível mais profundo, seu argumento é de que se os evangélicos conciliaram cristianismo com individualismo, o PT (ou algum seu sucessor mais iluminado) poderia muito bem estar aprendendo a conciliar individualismo com a esquerda:

De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos EUA, por exemplo. É um liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.

Confesso que não entendo o que acabei de ler. O autor parece não encontrar qualquer dificuldade de conciliação entre as prioridades sociais da esquerda e as ênfases individualistas de uma novo liberalismo popular (que teria, magicamente, semelhanças com o dos EUA sem ser necessariamente conservador). Dutra dá a entender que o social é muito incompetente por deixar de cooptar em seu favor o individual, porém não dá qualquer indicação de como isso poderia ser feito.

A quem se interessa pelas contradições inerentes à questão, recomendo fortemente o quarto e último capítulo do documentário O século do eu, de Adam Curtis. Esse episódio (assista clicando aqui: o vídeo Oito pessoas bebendo vinho é o último, está mais ou menos no meio da página) relata as tentativas de partidos progressistas na Inglaterra e dos Estados Unidos (via Tony Blair e Bill Clinton) de reverter em favor das causas sociais as ênfases individualistas das populações desses países. Posso adiantar que é mais difícil do que parece, e as consequências podem ser ao mesmo tempo ridículas e desastrosas; é um relato de interesse ainda porque fala de concessões que num cenário diferente o PT também fez.

Se Roberto Dutra pede que ignoremos as contradições inerentes entre os valores coletivos da esquerda e os valores individualistas dos neoconservadores talvez seja porque os evangélicos fazem algo semelhante, escolhendo ignorar eles mesmos as contradições entre a sua pregação individualista e a ênfase dos evangelhos e do Novo Testamento no social e no comunitário.

A priorização do coletivo é um dos muitos sentidos em que os católicos estão mais próximos do ~evangelho~ do que os evangélicos (ah, a doce cooptação das palavras). Nesse sentido, há muito mais consequências políticas no fato de a nova classe trabalhadora estar escolhendo se distanciar do catolicismo pela filiação evangélica do que no fato de que sua formação está deixando de ser sindical.

O relevante é que a ênfase individualista do movimento evangélico – “a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade” – não é uma novidade no movimento com a qual a esquerda brasileira deveria estar se atualizando, mas define desde a sua origem a herança protestante. A novidade é a penetração da ideia país afora pela expansão do movimento evangélico: a noção em si tem pelo menos 500 anos.

Pouco a pouco vamos nos dando conta de que Weber não foi longe o bastante quando sugeriu que a ascensão do capitalismo deve muito à propagação da ética de trabalho protestante. A Reforma representou a privatização – a palavra é essa mesmo, com todas as suas ressonâncias – efetiva e sem precedentes de esferas inteiras da experiência. Os reformistas invocaram mundo adentro nada menos do que uma nova leitura e representação da realidade.

Em linhas gerais, no mundo caótico e sem privacidade da idade medieval tardia o católico encontrava na missa o silêncio e a pausa possíveis para uma reflexão individual. O encontro do adorador com o individual acontecia dentro da igreja: do lado de fora das portas reinavam a esfera do público e do comunal. A herança católica era portanto e permanece um diálogo perene com a sociedade: um cristianismo exercido fundamentalmente quotidiano adentro, fora das portas.

A privatização proposta e efetuada pela Reforma Protestante reverteu esse cenário. Para o protestante e seus descendentes evangélicos, a esfera pública está essencialmente restrita ao que acontece dentro do templo: são os cultos, as reuniões, os louvores, as vigílias, a Escola Dominical. São encontros ricos, intensos, calorosos e emocionalmente compensadores, em tudo estudados para antagonizarem e anularem o recato da missa. Em retribuição, e ao contrário do católico, o evangélico acredita que fora da igreja é o terreno em que vem exercidas a individualidade e a privacidade. Dito de outro modo, o evangélico sente ou tende a sentir que fora da igreja não é responsável por ninguém além de si mesmo: seu diálogo com a sociedade e sua noção de responsabilidade social simplesmente não existem.

Não é a hora nem o lugar para lembrar o quanto essa disposição contradiz a disposição de Jesus e do Novo Testamento. Bastará entender o quanto a ênfase do movimento evangélico no individualismo em detrimento do coletivo se alinha às necessidades do capitalismo. Não é absolutamente à toa que os Estados Unidos e a Inglaterra do capitalismo são países de herança protestante.

Através do movimento evangélico, e não só: ele está no meio de nós.

 

OPS: Esse post é originário do Blog Bacia das Almas   e não pedi licença para postar aqui.

Author: Lou Mello

Olha só, pessoal assíduo na Gruta (carinhosamente grutenses) já está careca de saber quais são as minhas graduações e tentativas de pós, etc.

Pessoalmente, dou pouco valor a tudo isso. Escolas e Universidades praticam o monopólio dos diplomas e a ajuda é sempre muito relativa. Estudei a Bíblia e ainda o faço, dei aulas em várias escolas teológicas, até o pessoal encerrar minha carreira, nessa área. Acho que não me achavam adequado, sei lá.

Valorizo muito mais os meus mentores, tais como Dr. Russel P. Shedd, Dr. Zenon Lotufo Jr. e Dr. Dale W. Kietzman.

Meu espírito é missionário. Plagiando o Amir Klink, “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para desejar estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. Eu viajei e ainda pretendo viajar.

Atualmente, continuo acalentando o Projeto Corações Valentes, embora ele não tenha vingado ainda. Talvez sinta falta do Thomas, tanto quanto eu sinto.

Além de lecionar (Ef. Física e Teologia), ensinei organizações não lucrativas a fazer amigos para ter sustento e, também, tentei ajudar as pessoas a crescerem através da mudança comportamental. Sonho em treinar professores em prática de ensino, quem sabe…

A Gruta surgiu como a forma ideal para a prática de algo que sempre gostei muito de fazer, ou seja, escrever e me livrar dessa coisa interior que pressiona meu peito com potencial para me matar. Tenho alguns projetos de livros em andamento, quem sabe ainda edito um ou alguns deles, antes de fazer a travessia.

Gosto música, literatura em geral, educação, astronomia (minha segunda paixão secreta, Ih falei).

Sou o principal leitor de tudo que escrevo. Ter leitores sempre foi algo inimaginável para mim, e ainda me surpreendo com as pessoas lendo meus escritos, comentando, enfim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *