A Gruta do Lou

Idéias que condenam à mendicância eterna


Você pode pensar que estou brincando com crenças alheias, mas não é verdade. Daqui a poucos dias, acho que entrarei de vez na tal terceira idade. Não precisarei mais pagar ônibus, metrô, terei acento reservado nesses meios de transporte, passagem mais barata para o interior, vagas privilegiadas em estacionamentos e mais um monte de benesses, cuja finalidade sempre foi cooptar o meu voto, quando chegasse a esse porto, ponto da vida. Mas pretendo desfrutar de tudo isso e no dia da eleição votarei apertando a tecla branca para não desagradar ninguém, coitadinhos.

Essa verdade, se não me traz boas perspectivas futuras, ao menos, me deu alguma capacidade para avaliar a vida com mais abrangência, pois agora já sei o que realmente conta e no que gastei a maior parte da vida desnecessariamente. Você não faz idéia como me sinto bem em constatar essas verdades, nessa altura. Já pensou nisso? Descobrir o quanto você poderia ter aproveitado melhor seu tempo quando não existe a menor possibilidade de voltar atrás. Uma delícia.

Por exemplo:

… os anos, meses, semanas, horas, minutos, segundos… (aos milhares) gastos com a bunda grudada em bancos ou cadeiras de mal fadadas igrejas, católicas ou evangélicas. Isso não dá dinheiro e ainda leva o pouco que você possa ter, se tiver, pior, você descobrirá que contribuiu com causas nada nobres, na maioria das vezes, ou seja, manter vagabundos a pão de ló.

Outro tempo perdidamente perdido foi o que deixei nos bancos escolares de todos os níveis. Na vida, não poderá haver tempo mais mal gasto do que esse. Você descobrirá com o tempo, se ainda não fez não perca as esperanças, pois uma hora todo mundo se dá conta das burrices, que escolas só servem para mantê-lo fora do mercado, sem ameaçar aqueles que estão se beneficiando dele. Há os tais “professores”, segundo os psicólogos, um bando de sociopatas frustrados cuja intenção é submeter os imbecis necessários (expressão cunhada por Nelson Rodrigues) a torturas intermináveis, pois é assim que chegam ao orgasmo. Sem falar, que a maioria de nós nessa condição ainda paga por esses serviços inestimáveis. Você chegou a reparar como escolas são muito parecidas com prisões, em muitos sentidos? Pior, isso não dá dinheiro..

Outro evento permanente em nossas vidas que não redundará em porcaria nenhuma é o tal do emprego, pelo qual todos nós lutamos com todas as nossas forças, dedicamos o nosso melhor, até quando não reunimos saúde para tanto, deixando de lado criaturas insignificantes como nossos filhos e cônjuges, entregando (como quem entrega a alma ao diabo) a melhor parte do nosso tempo diário de vida à gestão de crápulas honoráveis, capazes de puni-lo simplesmente por você ter gasto tempo demais no banheiro ou ter usado todo o seu tempo de almoço, almoçando. Por mais paradoxal que pareça, isso também não dá dinheiro.

Depois vem outras perdas irreparáveis menos importantes, mas se somadas podem igualar-se ao trio principal acima, se não ultrapassar. Comigo foi o tempo gasto na Rua Augusta, junto com um bando de caras inconsistentes, ouvindo histórias mentirosas sobre conquistas amorosas ou brigas que jamais ocorreram, embora eu tenha sido o primeiro do meu grupo a me tocar da imbecilidade do evento. Para minha imensa vergonha, depositei boa parte da minha vida em festinhas de aniversário; casamentos; enterros; bodas disso e daquilo; bailinhos, bailes de formatura, reuniões de condomínio; shows de artistas brasileiros e internacionais que não valeram nada; peças de teatro sofríveis; conselhos comunitários decadentes; seminários, palestras e workshops totalmente desnecessários; conversas fiadas com vizinhos e gente que nunca havia visto mais gorda; namoros ocos e desprezíveis; amizades desprovidas de um mínimo de razão de ser; e um interminável tempo tentando falar com Deus, sem qualquer recíproca. De novo, um monte de atividades sem qualquer retorno financeiro que redundasse.

Depois de tudo isso, cá estou à vésperas de mais um natal, e como já disse, próximo de uma das mais tristes comemorações da minha vida, ou seja, mais uma ano gasto por nada, após outros cinquenta e nove nada melhores. O pouco dinheiro que tinha a receber, não foi pago. Todos prometem e ninguém cumpre, nem os que se comprometeram a emprestar.

Trabalhei 9 semanas e meia em uma empresa, nos últimos meses, na base de nove horas de trabalho diário, todos os dias da semana útil, e no início do ultimo mês do ano, tive meus serviços fixos cancelados, sob elogios pelo meu excelente trabalho, devido a causas de corte de gastos. Ah, eles não tiveram a menor consideração em relação a algum tipo de indenização, já que seria impensável repor essa perda nesse ano e sabe-se lá quando será.

Passei vinte e sete anos morando com meus pais, se aquilo pode ser chamado de algo paterno ou materno. Pior, sai de lá sem um puto.

O banco onde tenho conta poupança, a Caixa Econômica Federal, permitiu que minha conta fosse invadida e uma quantia considerável (pelo menos para mim) fosse roubada e, até agora, treze dias depois do fato ocorrido, não devolveu meu dinheiro e nem me deu qualquer satisfação.

Estava implementando um plano de saúde com cobertura ao INCOR para meu filho, junto à Cia. Sul América. Com a inesperada perda de receitas, tive que interromper o processo e estou esperando, até agora, a reposição da taxa de inscrição que havia feito previamente.

Nada disso serve para nada, não dá dinheiro e lhe rouba a vida. Sem falar que enquanto você se desgasta nessas atividades todas, o diabo rola de rir por ter feito você de otário, mantendo-o bem longe da vida que Jesus Cristo havia conquistado para você, em uma terra onde mana leite e mel.

Sei que você não acredita nisso e prefere fazer como eu e Adão, cumprindo a sina do pecador não perdoado, ou seja, trabalhar todos os dias de sua vida com o suor de seu rosto, fora que o texto bíblico omite tratar-se de trabalho escravo, onde a primeira providência é evitar que o escravo ganhe dinheiro, apenas o soldo capaz de mantê-lo vivo, somado à pena imposta à sua mulher, ou seja, dar a luz sob as fortes dores do parto, outra constrangimento desnecessário, segundo a nossa nova teologia, cunhada há mais de oito mil anos.

Meu, seja objetivo e faça as melhores opções. Pelo menos gaste seu tempo em algo que dê dinheiro, ou você acha que é por acaso que os judeus pensam e vivem assim? Eles sabem quanto custa o reino de Deus e/ou a vida eterna.

As idéias acima são capazes de mantê-lo na mendicância por toda a sua vida, como fizeram comigo. A opção de continuar a saboreá-las é toda sua. Espero que você não precise chegar à minha idade para perceber qual era a verdadeira verdade. Afinal sou um grande burro, e isso não dá e nunca deu dinheiro e não caia na tentação de acreditar que embora não tenha dinheiro, valeu pelo carnaval, cerveja e sexo. Nada poderia ser mais enganoso e perverso que isso.


4 thoughts on “Idéias que condenam à mendicância eterna

  1. Lou…a única coisa,concreta que você pode contar logo que entra na “feliz idade”(ainda mato o desgraçado que criou esse título),é poder “passear de ônibus”,gratuitamente…para o metrô,continue separando um trocadinho…só após 65…
    Pra economizar, eu tenho circulado por São Paulo de ônibus…tem dia que eu saio logo cedo,levo lanche,água,livro,radinho…e vou indo…de um ônibus pra outro,até chegar no meu destino….mas,eu mereço…acho que mereço…

    Sem qualquer intuito de ofensa, estou feliz porque a Dilma pretende (entre outros grandiosos projetos) elevar a idade da aposentadoria, ou seja, ela decretará que ainda somos meninos, aos sessenta anos, que os mais de quarenta anos de trabalho ainda são poucos e que precisamos “contribuir” um tantinho mais, antes do descanso eterno. Então, precisarei guardar meus trocados mais tempo, pois o Metrô não deixará de acompanhar uma decisão dessas de nossa presidente.

  2. …não entendi por que me sentiria ofendida…
    mas vamos la: falta muito,muito ainda,para que aposentados,os “felizes da terceira idade”,tenham uma contrapartida justa,merecida,pela contribuição que deram à sociedade e aos país.Ainda estamos longe de um padrão “sueco”…recebemos muito pouco.Mas,bem ou mal,temos um
    Estatuto do Idoso (Projeto-Paulo Pain/PT),sancionado pelo Sr. Luis/PT.http://www.assistenciasocial.al.gov.br/legislacao/legislacao-federal/est.%20de%20idoso.pdf
    A decisão da faixa etária 60-65,fica,conforme o estatuto,à critério da legislação local,para o exercício da gratuidade nos meios de transporte.
    Quanto a eu reclamar…que tenho que tomar vários ônibus,faz parte da minha situação de idosa ranzinza,e petista…sempre querendo mais.

    A introdução foi só em respeito à sua opção partidária. Quanto aos feitos petistas, pefelistas ou qualquer outro partido acho que sempre estarão aquém das necessidades do povo, idoso ou jovem, e da proporção mais justa para cada caso.

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