A Gruta do Lou

Herança paterna

081212_1738_Heranasdeum1

Esse cara aí, um vigilante rodoviário sentado e amparado por outros dois, entre eles o Vigilante Carlos e seu cão fiel, o Lobo, foi meu pai. Como bem disse o Fábio Adiron, pai ensina muito mais pelo que é do que pelo que diz.

O meu foi sempre um artista, malabarista e trapezista nos palcos, entre eles, o da vida. Era inteligente, mas matuto, suas infinitas habilidades não lhe deram chances de ir muito longe nos estudos. Artista de circo, rádio, TV e cinema, dominava o desenho e a pintura, cantava e representava. Sonhou a vida toda com um grande papel que nunca veio, mas venceu como coadjuvante. Na minha vida ele foi protagonista, para mal ou bem.

Acompanhei-o em muitas aventuras. Geralmente ele me chamava para sairmos e nunca anunciava nosso destino. Isso me levou ao circo e ser obrigado a subir na plataforma e ser balançado pelos trapezistas, antes de ser arremessado em uma rede rústica. Sossegue, foi de pouca altura, só uns cinco ou seis metros.

Outra vez ele me levou ao clube dos mágicos e lá, fiquei sabendo que herdara o título de sócio de meu avô. Cabia a mim aprender os “truques”, mas eles enrolaram e não me ensinaram nada, ou melhor, aprendi a mágica de aprender sem ser ensinado.

Também estive com ele, muitas vezes, na TV, especialmente na Excelsior lá na Rua Nestor Pestana, quase em frente à ACM, onde aprendi a nadar e nadei muito. Ia com ele às filmagens do Vigilante Rodoviário e até cheguei a participar de uma ou outra cena.

Mas o lugar exótico onde mais vivenciei meu pai foi na Rádio América, que ficava na esquina da Consolação com a São Luiz, na frente do Jornal O Estado de São Paulo. Meu pai me deu a oportunidade de aprender tudo ali, da discoteca ao auditório, passando pela locução e técnica.

Descobri um segredo do velho, ele desejava que seu filho aprendesse o máximo de tudo aquilo, pois poderia ser-me útil, algum dia. Eu nunca trabalhei em rádio, nem em qualquer dessas outras áreas. Nunca tive os talentos dele.

Era legal ficar doente, pois ele vinha para o lado da minha cama com uma revista e uma tesoura e começava a fazer coisas incríveis e inimagináveis, borboletas, pássaros, automóveis, wharevis. Não havia doença que durasse. Ele também era incrível com artes a partir de cascas de frutas, como carros de boi, presépios e picadeiros com cascas de melancias.

Quando a mocidade começou a deixá-lo, garantiu-lhe o sustento (e o nosso também) as artes da pintura na propaganda. Outdoors, Silk-Screen, vitrines, decoração de ruas para as grandes festas (natal, carnaval, juninas, etc.).

Durante vários anos ele foi o responsável pela construção do grande presépio que era erigido na Praça da Sé, por ocasião do Natal. Ele ganhou muita grana com esses serviços, que possibilitou-nos viver experiências de abundância, muitas vezes. Tínhamos dois, às vezes três carros, casas (sendo uma na praia), frequentávamos os melhores restaurantes e nos vestíamos bem. Isso tudo oscilava com momentos de dureza, principalmente quando a propaganda política de rua com faixas e cartazes foi proibida, certa ocasião.

Ele precisou dar uma guinada para outro nicho de clientes e isso demorou a engrenar. Nesses tempos, ele pegava a maleta de pintura e eu para irmos ao Anhembi. Lá sempre havia muito trabalho para nós, durante a montagem das feiras.

Meu pai tornou-se no melhor letrista que eu já vi, escrevia pintando de trás para frente, de cabeça para baixo, quando necessário, e o resultado era perfeito e inacreditável. Meu trabalho era, digamos, secretaria-lo. Nunca pintei como ele, no máximo, adquiri uma máquina (plotter) de recortar letras, mas fiquei pouco tempo com ela. Não deu em nada.

Nós convivemos até quando eu tinha 23 anos, então ele resolveu ir embora para viver outra vida lá pros lados de Ponta Grossa, no Paraná. Minha profissão aprendida na escola (Educação Física) nos separou definitivamente. Depois disso, nossos encontros tornaram-se ocasionais e cada vez mais raros.

Quando ele faleceu, fazia alguns anos que não o via. Ele não me deixou bens, pois tratou de se desfazer de todos antes de partir. Também não aproveitei seus ensinamentos, acho. Talvez ainda tenha algo do artista circense dentro de mim, afinal a vida exige malabarismos, mágica e até certos exercícios no trapézio. Mas não sei usá-los, como meu pai sabia, quando necessário.

Meus filhos devem estar aprendendo algumas coisas com o que sou e faço que poderão manter-lhes íntegros: minha devoção cristã a partir do estudo bíblico constante, a leitura compulsiva, o uso do computador um pouco acima da média, minha insistência em escrever do jeito que der e alguma generosidade. Essas coisas, não aprendi com meu pai. Na verdade, gostaria muito se eles se tornassem muito mais generosos que eu, aliás, que eles sejam muito mais que eu em tudo. Acho que meu pai também apreciaria isso.

lousign

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.