A Gruta do Lou

O último dia de vida

Thomas Henrique Velloso Mello


Ninguém poderia presumir que aquele era o último dia de vida dele, de fato. Levamos nosso filho Thomas para São Paulo, com o objetivo de interná-lo no hospital Beneficência Portuguesa. No dia seguinte ele seria submetido à uma cirurgia (a terceira) no aparelho circulatório. Fizemos isso de livre espontânea vontade, usamos nosso próprio automóvel, conduzido por mim e com minha esposa a meu lado. Acima de tudo, nosso filho estava disposto a submeter-se a aquilo.

Depois dos ajustes burocráticos, tivemos uma reunião da qual participaram o cirurgião e dois de seus auxiliares de um lado e o Thomas e eu de outro. O médico, considerado o “Number One do Brasil” na especialidade, com direito à capa de revista famosa e tudo. Ele explicou o que pretendia fazer na operação: Reparar a válvula Pulmonar utilizando um implante de ser humano tratada adequadamente para tanto, em substituição à original e mais alguns ajustes circunstanciais. A cirurgia não deveria ultrapassar o tempo de quatro horas.

O Thomas foi encaminhado para um apartamento e nós seguimos com ele, onde permanecemos até o dia seguinte, quando o acompanhamos até a porta de entrada para o Centro Cirúrgico.

O Thomas tinha enorme esperança naquele procedimento. Sonhava com a possibilidade de, finalmente, poder levar uma vida normal, igual a de qualquer jovem de sua idade (24 anos, 11 meses e 19 dias). Evidentemente, havia algum temor nele, mas muito menos do que o esperado. O doutor, estranhamente, estava prometendo até mais do que o esperado, segundo ele, nosso filho ainda jogaria muito basquete. Embora o doutor não confirmasse, havia em todo o pessoal da equipe e em nós também, a desconfiança de que ele fizesse uma cirurgia maior, dependendo das circunstâncias encontradas, ou seja, desconstruir a cirurgia anterior e fazer uma correção total do problema, colocando tudo no lugar original. Segundo os entendidos, se havia alguém com a capacidade de fazer uma cirurgia desse tipo (pouco provável e recomendável para os outros profissionais do bisturi na área) esse alguém era o tal doutor.

No quarto havia a cama hospitalar do paciente, um sofá e uma cadeira daquelas super confortáveis com mecanismos especiais e outros móveis necessários. O Thomas foi alojado na cama, a Dedé acomodou-se no sofá, então eu fui para a poltrona, a única opção restante.

Depois que minha sogra saiu, a única e última visita naquele dia, não aconteceu nada incomum, mas não dormi, exceto uma ou outra pescada, sobretudo, percebi que Deus não visitou o Thomas, pelo menos não de forma aparente, que eu tenha visto.

Até hoje lembro daquela noite e não me conformo por não ter pego meu filho em meus braços e junto com a Dedé, sequestrado ele dali. Infelizmente, essa ideia não me passou pela cabeça, nem por uma fração de segundo, a não ser depois de tê-lo perdido.

Todos nós queríamos ele sarado, talvez até Deus, mas antes de tudo, nós o queríamos vivo.

Após a cirurgia ele ficou dez dias na UTI entre a vida e morte, finalmente a morte venceu.

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