A Gruta do Lou

Gilgamesh, Atra-Hasis, Marduc, Enkidu e Astarte

Mentalidade do povo bíblico

Em um sábado espremido por um feriado de quinta-feira, freqüência abaixo da linha da miséria e frio, nada como postar algo coerente com esse pano de fundo, ou seja, bem chato e relevante, talvez.

Ao longo de sua história, Israel, sempre em contato com os povos vizinhos, conheceu as obras primas da literatura. Tentaremos situar essas grandes civilizações.

A mentalidade egípcia

Foi moldada pelo país. O egípcio vivia numa região luminosa; se sentia alguma angústia por ver o Sol desaparecer à noite, a experiência lhe ensinara que ele reapareceria na manhã seguinte, vencedor das potencias da noite. Divinizado sob diferentes nomes, o Sol era o primeiro entre os deuses, aquele que gerara os outros deuses e os homens. O salmo 104, possivelmente, foi inspirado em passagens do grande hino ao deus Sol, composto em torno de 1350 aC pelo faraó Akenaton.

O Nilo estava sujeito a enchentes, mas elas chegavam em tempos certos e traziam o limo fértil e a água necessária à vida.

Por isso, o temperamento egípcio era naturalmente otimista; seus deuses  eram bons e velavam pelos homens. Depois da morte, o fiel esperava uma vida nova e resplandecente, mesmo que a vida presente tivesse sido pouco pessoal.

A mentalidade mesopotâmica

Em seu conjunto, ao contrário, era pessimista, fundamentalmente. O  habitante dessas regiões vivia num vale no qual as enchentes eram imprevisíveis e provocavam, às vezes, verdadeiros “dilúvios”, dos quais as escavações arqueológicas encontraram vários vestígios. Eram freqüentes as invasões de nômades procedentes do deserto da Arábia ou dos planaltos do Irã.

Por isso os deuses mesopotâmicos eram, em geral, caprichosos e viviam em constantes lutas entre si; o homem aparecia como o mortal atemorizado procurando defender-se dos contragolpes de sua cólera. Os deuses lhe deram em partilha, a morte (epopéia de Gilgamesh) e o modelaram da mentira. O reino do após morte era triste: as sombras dos mortos eram ali reunidas para um destino sem alegria.

Eis alguns dos grandes mitos:

  • A epopéia de Atra-Hasis (o “muito inteligente”) chegou ao nosso conhecimento uma cópia encontrada em Babilônia, datando de 1600 aC. Neste longo poema de 1.645 linhas, os deuses, fatigados pelas corvéias a que estavam sujeitos, decidiram criar o homem para que ele fizesse o trabalho; modelaram-no em argila misturada com o sangue de um deus degolado. Mas a humanidade proliferou, fez muito barulho e cansou os deuses, que lhe enviaram várias calamidades e, depois delas, o dilúvio. Mas o deus Ea avisou um homem (Gilgamesh), o qual construiu um barco e fez entrar nele a sua família e um casal de todos os animais.
  • O poema Enuma Elish (“Quando lá no alto…”) é também muito antigo; em sua forma atual, ele deve ter sido escrito por volta de 1100 a.C.. No começo de tudo, havia dois princípios sexuados, Apsu, as águas doces, e Tiamat (o tehom – “abismo” – de Gênesis 1:2), as águas salgadas do mar. Importunada por eles, Tiamat resolveu matá-los, mas Marduc a venceu, separou-a em duas como uma ostra e fez dela a abóbada celeste. Em seguida criou o homem do sangue de um deus revoltado…
  • A epopéia de Gilgamesh é, sem dúvida, a mais célebre das obras da Mesopotâmia antiga. Originária da Suméria, ela se desenvolveu durante mais de um milênio na Assíria e em Babilônia, e foi conhecida e copiada na Palestina e entre os hititas. Em sua forma atual, ela se compõe de doze cantos. Herói da Suméria, Gilgamesh, por seu orgulho, tornou-se insuportável aos deuses, que lhe suscitaram um rival na pessoa de Enkidu, monstro que vivia com as feras. Humanizado por uma mulher, ele se tornou amigo de Gilgamesh, e os dois, juntos, realizaram proezas. Mas, um dia Enkidu morreu; Gilgamesh descobriu então a atrocidade da morte e partiu à procura da imortalidade. O herói do dilúvio lhe comunicou o segredo da planta da vida. Gilgamesh conseguiu a planta, mas uma serpente a roubou, e Gilgamesh teve de se conformar com a morte.

O Pensamento Cananeu

Tornou-se mais conhecido depois que se descobriu, a partir de 1929, a biblioteca da cidade de Ugarit, a atual Ras Shamra, na Síria. O ápice da civilização de Ugarit situa-se em torno do ano 1500 aC, época dos patriarcas.

O Deus principal chamava-se El e era representado muitas vezes pela figura  de um touro. (Um dos nomes de Deus, na Bíblia, é Elohim, plural majestático de El). Esta religião prestava culto às forças da natureza divinizadas: Baal, deus da tempestade e da chuva, chamado às vezes de “o cavaleiro das nuvens” (como Deus no Salmo 68:5), e Anat, sua irmã, chamada mais tarde Astarte; era a deusa da guerra, do amor e da fecundidade.

Israel – de modo especial o reino de Samaria – sentiu-se atraído por essa religião Cananéia, por seus cultos sexuais à deusa nua, nos lugares altos, e por seus ritos destinados à obtenção da fecundidade do solo e dos rebanhos.

Adaptação desautorizada de texto do livro “Para ler o Antigo Testamento” de Etienne Charpentier – Eds. Paulinas.

4 thoughts on “Gilgamesh, Atra-Hasis, Marduc, Enkidu e Astarte

  1. Pingback: Lou Mello
  2. O uso da palavra plural Elohim, não denota uma pluralidade de pessoas, mas é uma maneira característica para expressar a grandeza OU majestade na linguagem hebraica.

    O Logos (Verbo) não é uma pessoa separada, mas a mente, pensamento, plano, atividade ou expressão do Pai; Jesus é o nome de Deus revelado no Novo Testamento.

    Creio que o Chearpentier utilizou a figura “plural majestático” da mesma forma que o pessoal anti-trindade utiliza. Aqui há um artigo sobre o assunto. Pessoalmente, creio ser isso mesmo: dar idéia de grandeza e majestade.

  3. Samaria, era extensamente cultivada, talvez isso explique o culto a algumas divindades canaanitas ligadas a fertilidade do solo. Mas, os samaritanos se consideravam Judeus, e Javé era seu deus.
    Humm! Legal.

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