A Gruta do Lou

Feliz Ano Novo, sinceramente.

Pensando aqui com meus botões sobre o que fazer com mais um ano novo, ocorreu-me ligar para o Khalil. Na verdade, todos os primeiros dias do ano, há tempos, converso com ele.

Geralmente, nosso papo nesse dia caminha na direção dos cumprimentos, notícias do pessoal e abençoar-nos mutuamente.

Este ano resolvi incluir na pauta de nosso contato algumas dicas para o novo ano. Afinal o Khalil é muito próximo do Senhor de Nazaré. De repente, ele teria uma profeciazinha maneira.

Quando liguei, hoje bem cedo, porque ele cultiva o hábito de levantar com as galinhas, levei um susto logo nas suas primeiras palavras. Assim disse ele: Quem foi chamado a viver para o evangelho tem o direito a viver do evangelho, mas não deve ser pesado a ninguém.

Como Paulo, muitas vezes, será necessário fabricar tendas ou realizar qualquer outro trabalho rentável para obter seu sustento e dos outros envolvidos, sem que isso prejudique o alvo principal: o evangelho.

Esse conflito tem estado presente em minha vida. Se me envolvo com o evangelho, abandono o suprimento. Se me concentro em trabalho rentável, não sobra tempo para o evangelho. Além disso, a motivação diminui, às vezes a zero.

Houve um tempo que conseguir o sustento era o lado mais problemático. Na ponta do evangelho havia grande facilidade. Qualquer reuniãozinha lotava. As pessoas estavam interessadas na mensagem.

Agora a perspectiva mudou. Continua difícil organizar o sustento e a propagação do evangelho ficou complicada, também. Reuniões esvaziam-se antes mesmo de acontecerem. Os espaços se restringiram e o interesse diminuiu.

Paulo, o apóstolo, fez recomendações de ordem prática para gente como eu, em suas várias cartas. Ele falou em governar bem sua própria casa.

Meu novo ano precisa contemplar minha casa. Para começar precisaremos definir a questão “nossa casa”. Depois a prioridade será apoiar nossos filhos na busca e concretização de suas definições de vida.

Estabelecer a fonte de sustento da família está na raiz e deverá ser o primeiro item a ser enfrentado, a partir de amanhã.

Ai bate aquele sentimento de impotência, de inadequação e até uma insuperável preguiça.

Mesmo que o Hernan não concorde, precisaremos entrar com ações bem pragmáticas: planejar, executar e avaliar. O planejamento requer detalhamento. De tal forma que, ao olhá-lo, possa ver a vitória alcançada.

E Deus? Ele caminhará ao nosso lado. Se fizermos nosso trabalho, teremos sua bênção. Se não o fizermos, teremos sua consternação.

E a fé? Fé não é um dom muito comum. Se fosse o mar estaria cheio de montes enviados a ele, de todas as partes, por gente cheia de fé. Creio que o Galileu deixou isso muito claro.

Leio a passagem do grão de mostarda como um alerta. Dificilmente haverá fé na terra. Jesus fez questão de exaltar algumas pequenas atitudes motivadas por fé no intuito de incentivar a fé.

Como no caso da mulher com corrimento há doze anos, ou aquela que se satisfaria com as migalhas que caiam da mesa, ou do centurião que buscava a cura de seu filho e outras.

Mas o preço da fé é muito alto. Custa sacrifício pessoal e não são muitos os que estão dispostos a pagá-lo. Faz tempo que eu perdi a condição de sacrificar-me pela fé. Primeiro por minhas próprias limitações e depois devido a certa canalhice crônica.

Se o evangelho depender de mim, o mínimo que seja, estamos fritos. Não sou confiável, não tenho a fé necessária, vivo enrolado com minhas próprias necessidades e já estou ficando velho para certas aventuras.

Disse ao Khalil em palavras muito claras: “Temo o ano novo.” Ele ficou em silêncio por uns instantes e depois falou: “Precisamos temer os homens sem o evangelho verdadeiro.”

O Mestre Galileu não dispõe de muitos ajudantes. Na maioria, só há gente como nós pescadores e coletores de impostos cheios de falhas, sem recursos, endividados amargurados. Não sendo avarento, já será ótimo.

É com gente assim que ele pretende ganhar a guerra. Pode parecer loucura, mas ele sabe o que faz. Foi esse tipo de gente que trouxe o evangelho até aqui, ao longo desses mais de dois mil anos.

Haja paciência. Os outros tipos estão muito mais envolvidos com eles próprios e tem muito a perder. Vide o caso do jovem rico.

Então vamos arregaçar as mangas e aprontar o plano. Amanhã começaremos a colocá-lo em prática. Para mim o viver é Cristo. O resto serão as condições para tanto.

Abração de Ano Novo a todos

1 thought on “Feliz Ano Novo, sinceramente.

  1. Amargurados,é ruim,heim?Não precisa tanto.Existe pra mim uma pergunta que não quer calar.Será que sabemos quem são “os homens sem o evangelho verdadeiro?”As vezes tomamos sustos!!
    Quanto a fé,julgo que a tenho menor que um grão de mostarda,mas tenho alguma história a contar.É vero.

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