Fábrica de Painéis, herança e tradição

Esta semana, mais especificamente no último dia 14, se meu pai não tivesse nos deixado há onze anos para viver em outro plano, ele completaria oitenta e oito anos. Não fomos muito amigos em vida, inclusive não o vi em seus últimos dez anos de vida. Ele, bom mulherengo de sempre, vivia com sua outra família em Ponta Grossa. Em sua última passagem por minha casa para visitar os netos, tomou o cuidado de aparecer em uma hora em que eu não estaria, embora nunca tenhamos brigado ou rompido relações. Tínhamos dificuldade em conviver.

Ontem à noite estive com meu amigo Daniel para discutir aspectos de minha vida financeira. Às tantas ele me disse: “Se eu tivesse que arranjar emprego agora, aos sessenta anos, estaria frito. Ainda bem que meu pai me deixou a nossa fabrica, de onde tiro o necessário para viver.” Voltando para Sorocaba, em meio à noite clara e enluarada, essa frase ficou martelando meus parcos neurônios. Lembrei da Fábrica de Painéis de meu pai que eu nunca herdei.

Funcionava na Vila Mariana, na Rua França Pinto, em sua última morada em São Paulo. O velho já estava no Paraná, quando resolveu mudar a fábrica para lá. Mandou um caminhão e me ligou pedindo para eu supervisionar a mudança. Como o caminhão veio só com o motorista, fiz mais que isso, tive que ajudar o cara a carregar as partes da fábrica no veículo imenso. Cresci ouvindo minha mãe praguejar contra meu pai, entre outras coisas, que ele não sabia negociar, que era um artista, mas péssimo negociante. Certo dia, resolvi trabalhar com ele. Levei o Lineu comigo, um cara com bons dotes artísticos e bom amigo. Em pouco tempo lá, imprimi um pouco de profissionalismo e a fábrica viveu seus melhores dias. Além de nós três, tínhamos dois funcionários trabalhando conosco. Nesse tempo, vivi do trabalho de minhas mãos e fui feliz.

Mas eu resolvera me tornar um professor de educação física e, ainda cursando a faculdade, fui convidado para assumir as aulas de uma escola e larguei a fábrica, com o tempo. O lado bom foi ter encontrado a Dedé nessa escola. Hoje, a escola não existe mais e eu não sou professor de educação física, tão pouco. Também não tive mais notícias da Fábrica de Painéis. Se meu pai tivesse a visão de deixar algo para seus filhos e eu tivesse a humildade de ser só o dono de uma Fábrica de Painéis, não estaria como estou. Teria de onde tirar sustento para viver, até com certo conforto.

Pouco tempo atrás, já em Sorocaba, comprei uma máquina de recortar letras (Plotter). O Pedro, em pouco tempo, estava dominando a geringonça, mas acabei devolvendo ela ao antigo dono a troco de um carro velho e sem documentos, pois fiquei com pena do mancebo que me vendera sua galinha dos ovos de ouro e minha idéia de reviver a Fábrica de Painéis morreu ali. Acho que a capacidade de ser péssimo negociante foi a única coisa que papai me deixou. Corro sério risco de partir sem deixar nada para meus filhos poderem sobreviver nesse mundo, cujo senhor não é nada tratável. Bom, pelo menos, eles poderão ser péssimos negociantes, algo que está virando um tradição familiar, como previu minha mãezinha.

Enfim, deixarei a Gruta e muitos textos escritos. Com grande probabilidade, partirei deixando algumas contas não pagas. Machado de Assis partiu dessa para melhor depois de fundar a Academia Brasileira de Letras, embora não tenha pago a última conta do armazém. Se eu tivesse minha Fábrica de Painéis, seria um ilustre desconhecido, mas o futuro dos frutos de minha aljava estaria garantido.

לּהּמּ

Ops : Ainda estou impossibilitado de visitar e comentar os mais de cem blogs da lista do meu bloglines. Espero por uma Graça especial do nosso desatento Deus para a reativação de minha Banda Larga para voltar a importuná-los com meus palpites bestas.

Ah! Se alguém aí tiver um palacete sobrando em São Paulo e não fizer questão de receber aluguéis em dia, me avise. Posso mudar para lá com minha tropa e bagulhos, imediatamente. Meu senhorio anda muito descontente comigo. Só não faça como meu amigo Adalberto, ele queria me mandar a Diadema para morar em uma favela, onde já vive outro infeliz amigo dele. Minha cinzas estarão espalhadas no mar antes que isso aconteça.

11 thoughts on “Fábrica de Painéis, herança e tradição

  1. Perdemos um negociante-fabricante ruim, mas temos um companheiro-escritor sem igual.

    Falando nisso …

    When in Sampa give me a call – sempre!

  2. Volney

    Se você dissesse que melhor seria eu insistir com a fábrica teria assassinado um escritor… 🙂

    Ah! Minha intenção era ligar para você, mas o tempo andou mais rápido que eu e quase não chego a tempo para o último onibus. Quem sabe não estaremos mais perto, em breve?

  3. Lou, morar numa favela em Diadema, jamais! Se eu tivesse um imóvel sobrando ele seria seu, vai ver que é por isso mesmo que eu não tenho. Mas minha casinha tá lá, se você necessitar pousada, e não ligar pra bagunça, pelo de cachorro, meus pais mal humorados, banheiro desconfortável, camas velhas e lençóis idem, essa coisa toda.

  4. Lou: Os teus palpites não são “bestas”,mas bestiais!
    Tenho sentido a falta deles, pois estão sempre carregados do teu bom humor e sabedoria, que muito aprecio.
    A ver se voltas logo!
    🙂
    DVA

  5. Eu também tive a minha chance de herdar. Meu avô materno era fazendeiro em Minas Gerais… não sobrou nada pro véio aqui.
    Você sabe muito bem: “Quem herda, herda; quem não herda fica na…”

  6. Oi Lou… eu tb não herdei nada de meu pai, nem o amor…(dele), que era frio como gelo, ou melhor é (tá vivo com seus 87 anos), mas nunca o vejo… dizem que é o sangue alemão, mas conheço alemães bem quentes rsrssss…. mas tudo bem, meu destino tb é “camelar” até virar pó….lembra aquela que diz que a gente vai comer do pó da terra, vai comer do nosso salário e do nosso suor ? pois é , …é isso aí….pior que aqui em Ubatuba tá sem chover a um tempão (ta cheio de pó)… faz um calor danado (não paramos de suar), e ainda por cima estou de regime !!!!

    Torço por você.

  7. Pingback: Lou Mello

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