A Gruta do Lou

Evidências

 

 

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Paris

 

 

Amsterdã, Bruxelas, Viena, Paris e Tirana

Suposições e indícios não podem, jamais, condenar um ser humano, tão pouco servir de apoio para a grandiosa existência de Deus. Não deve ser nada fácil a vida do Pai Celestial, tendo que provar sua existência todos os dias a todas as pessoas, até mesmo aos militantes das casas denominadas como sua morada. A esses, a tarefa é ainda mais complicada porque o magnânimo precisará adivinhar seus sentimentos e crenças, pois eles têm grande dificuldade em expressar seus temores e dúvidas. Talvez você discorde do termo “adivinhar”, afinal o barba branca é onisciente, pelo menos, foi-lhe ensinado assim. No caso dos nossos sentimentos mais bem guardados, dos nossos pensamentos mais íntimos, creia, mesmo podendo, ele não os perscruta. Questão de respeito e boa educação. Se você desejar revelar esses meandros a ele, precisará entrar em contato, via oração, altar, confissão, pastor, padre ou zero oitocentos, de livre e espontânea vontade.

Geralmente, invejo os detentores de certeza, mesmo quando o cara tem certeza da inexistência de Deus. A certeza se estabelece pela evidência e chegar a essa convicção significará ausência de evidência. Um idiota que nunca viu Deus ou qualquer sinal evidente da existência de tal ser, certamente dirá: Não existe Deus e/ou não creio nele. Não é o meu caso. Vi Deus diversas vezes e de várias formas. Muito mais em formas do que em vezes.

Antes de continuar, quero alertá-lo que esse post não figurará sob a rubrica “ficção” e sim em “confissões de Lou” por uma única razão, todas as coisas relatadas aconteceram de fato. Nessa história, além de réu sou vítima e principal testemunha, ou seja, a maior evidência na forma de prova testemunhal.

Foram muitos acontecimentos, entre eles destaca-se minha ida para a Albânia marxista leninista em 1979,  a fim de verificar a situação dos cristãos por lá. Eu era um jovem de vinte e oito anos, casado e a espera do nascimento de nosso primeiro filho, no caso, uma filha. Não tinha dinheiro sobrando, nem para ir a Pindamonhangaba catar coquinhos, quanto mais para cruzar o Atlântico, a linha do Equador e toda a Europa, com propósitos nada convencionais. Não era o que se pode chamar de preferido da igreja para essas façanhas ou outras, longe disso. Tanto é que, quando se aventou a necessidade de enviar um missionário para tal empreitada, nosso pastor requisitou ninguém menos do que o Pastor Jonathan Santos e este, sentindo-se impedido de fazer o trabalhinho, indicou o Pastor Newton Touller. Perceberam o tipo de gente preferido para essas coisas? Uma viagem missionária dessas poderia incrementar o currículo de qualquer neófito de zero aos píncaros, quanto mais o de um já renomado servo de Deus.

O Lou era, na época, o chefe dos atalaias da igreja Cristo Salva. Você perguntará, What hell is that? Pois é, a melhor resposta seria: muito pouco, muito pouco mesmo, mas um pouco mais que um nada. Acontece que o chefe da missão era o Carlos Siepiersky, outro que caiu da fé, e que estava em Viena na Áustria. Quando soube do leilão da vaga, ligou para a igreja e sentenciou: Deus me mandou convocar o Lou, se vocês não quiserem enviá-lo, podem esquecer sua participação nisso, Deus enviará o dinheiro necessário nem que seja da China, mas o Lou estará nessa missão comigo e ninguém mais. Durante aquela semana, fui chamado à casa real para parlamentar com madame Noely, primeira dama da igreja e, segundo o falecido Peter Bronsfield, quem mandava de fato. Ela me recebeu muito bem, com sua arrogância característica e me disse, categoricamente, para eu tirar meu cavalo da chuva que nessa eu não iria mesmo. Tremi na base, palavra de Noely não era brincadeira, mas não saí sem um gesto de total irreverência, dizendo à matriarca que quem subiria com aquele avião seria o papai aqui. Chegou o domingo decisivo, nosso pastor o venerável Tio Cássio nos chamou em sua sala pastoral, Jonathan, Newton e eu, fora os bicos, para declarar solenemente: “Bom, fomos proibidos de indicar alguém mais experiente para essa missão. Podemos, no máximo, apoiar a ida do Lou. Decidi fazer uma experiência com Deus, ou seja, se ele der todo o dinheiro necessário, nessa noite, durante nosso culto, entenderei como sendo essa a vontade dele. Caso contrário, sairemos dessa encrenca.”

O culto caminhou normalmente, muita música, avisos, oferta normal, pregação, apelo, conversões e, quando boa parte dos presentes já ia se retirando, o Tio Cássio começou seu discurso, curto até para seus padrões prolixos, e solicitou uma oferta extra para enviar um missionário a Albânia. Não disse mais nada e mandou passar as sacolas. Era uma grana alta, imagine: passagens múltiplas, ida e volta, translados, outros destinos e dois meses, no mínimo, de estadia, fora o risco do missionário resolver ficar permanentemente e solicitar o envio da família toda para fazer-lhe companhia. As sacolas subiram para a contagem da grana. Suspense. O Tio pediu para tocaram mais umas musiquetas e sentou em silêncio. O tesoureiro retornou com cara de boi e falou algo ao ouvido do menestrel. Ele levantou de um salto e anunciou: “Meus irmãos, Deus acaba de nos dar todo o dinheiro necessário para enviar o missionário para a Albânia!”

Caraí véi! Deus mandou a grana toda! Na bacia das almas e numa catada só! Putz! Nunca vi nada igual. A bufunfa inteirinha, um dim-dim de respeito e eu que pensava no veinho como uma lenda.

Fui. Passei dois meses viajando, para todo lado naquele ambiente inóspito europeu, vocês conhecem. Viena, Frankfurt, Munique, Bruxelas, Paris, Lins, Billy Montigny Amsterdã, e, claro, a Albânia inteira. De passagem ainda conferi a situação dos raríssimos cristãos albaneses que ousaram revelar sua crença, sob risco de prisão e pena de morte, em um mundo marxista – leninista, auto declarado ateísta e muçulmano em quase toda sua totalidade.

Sendo assim, embora tudo à minha volta, hoje, queira me convencer da inexistência, sou uma miserável testemunha da existência de Deus e além dessa história, com a qual já ganhei bom dinheiro utilizando-a para fazer meus stand-ups milagrosos e levar o povo ao delírio ou ao mijo incontrolável nas próprias calças, tenho muitas outras não menos portentosas e verdadeiras para contar-lhes, infelizmente. Deus existe véi!

morcego-12

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1 thought on “Evidências

  1. Uma vez ouvi o Touller numa pregação sobre Escatologia.

    Num dos exemplos, ele ressaltou uma oração que fez para um motoqueiro que fazia barulho durante os cultos de sua igreja, que acabou morrendo acidentado na porta da igreja semanas depois.

    Falar o que dessa galera do poder né!?

    Ainda bem que Deus existe, véi!

    Ele tem histórias piores, mas quem não tem? E Deus continua existindo.

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