Estágio da minha fé

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O Estágio da minha fé foi provocado pelo livro: “Estágios da Fé”, lançado pela Editora Sinodal, do autor James W. Fowler, com tradução de Júlio Zabatiero. Além do Júlio, eu fiquei com um exemplar e vendi outro para o Adalberto que nunca leu e só comprou para me ajudar a ganhar uns trocados.

Tenho horror, daqueles capazes de gerar náuseas e vertigens, a tudo cuja proposta inicial seja algo como: A Psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido. Entretanto, nesse caso, isso deve ser alguma jogada de marketing do editor na tentativa de garimpar consumidores dentre os loucos.

O livro é excelente e constrói, de forma acadêmica, uma interessantíssima proposta teológica para essa palavrinha tão singela quanto poderosa, denominada em bom português como fé.

Logo de início, diz *que Paul Tilich publicou, nos anos 50, um pequeno livro que veio a se tornar um clássico. Dinâmica da Fé tangeu uma nova nota de honestidade a respeito dos modos pelos quais ordenamos nossa vida e a respeito das ânsias que temos. Colocando de lado uma identificação simplista da fé com religião ou crença, Tillich desafia seus leitores a se perguntarem quais valores têm poder centralizador em suas vidas. Os “valores divinos”, em nossa vida, são aquelas coisas capazes de nos tocar incondicionalmente.

Isso me trouxe, de memória, uma frase do apóstolo fake calvinista Paulo aos filipenses: “Crescemos de fé em fé”. Esses adoráveis teólogos e seus dogmas maravilhosos, juntos ou separados, estão tentando me convencer a encarar a fé como uma prática crescente à medida de nosso envolvimento com ela. Doce ilusão, se levarmos em conta a minha relevante trajetória na senda cristã.

Quando iniciei, corri e dei um mergulho, precedido de um salto mortal, nas águas represadas do mar morto de onde o sal jamais sairá para salvar e preservar a humanidade do pecado e da morte eterna. Minha fé inicial, para alegria do Tillich, me envolveu incondicionalmente. Tudo deixei por Jesus Cristo, até minha promissora carreira vencedora de professor de Educação Física. Como todos sabem, essa profissão é incansavelmente vencedora e todos os seus habitantes transformam-se em mega stars milionários da Forbes.

Por causa dessa fé, abandonei minha esposa grávida de nossa filha, aos sete meses de gestação (me arrependi e voltei a tempo de ver nossa primogênita nascer) e parti para libertar a Albânia das mãos dos demônios marxistas leninistas, ousados o suficiente para prevalecer contra as portas da igreja de Deus, impedindo que permanecessem abertas e em liberdade. Essa foi só a primeira das grandes extravagâncias que essa fé em estágio inicial foi capaz de provocar em mim.

Em contraste a essa fé primeiro estágio, cheguei ao ponto atual de fé, onde ela perde completamente seu poder e operosidade e ao invés de contar com minha determinação em permitir que as coisas me toquem incondicionalmente, faço agora enormes exigências para dar o menor passo que seja. Larguei mão de ser trouxa, nessa etapa. Coisas adquiridas com o passar dos anos. Ela me traz pouco, agora.

Minha fé deixou-me por outro mais jovem e mais bonito, mas em estágio inicial de fé. Paulo, Tillich, Fowler e Zabatiero se equivocaram.

*: Estágios da Fé – James W. Fowler – Editora Sinodal

Capricornio PB

11 thoughts on “Estágio da minha fé

  1. Pingback: Lou Mello
  2. INCONDICIONALMENTE…não importa em que condição você esteja,
    você será tocado.Ele nos aceita como somos,em qualquer estágio,
    pois nunca “estaremos,ou seremos como deveríamos ser”

    A minha fé já esteve em estágio terminal…foi algo que ouvi
    aqui na Gruta “Você crê que Ele te ama?” que me religou nova-
    mente com Deus.

    Lou, você precisa acreditar mais no seu próprio remédio…

    Não se aborreça. Isso é só um exercício de tentar sentir as mesmas dores de muitos grutenses, desenxavidos com sua vida, sua fé ou ambos.

  3. Eu entendo a fé como um exercício de nós mesmos para nós mesmos que não tem nada a ver com o Divino, embora a gente insista em querer assim. Algo como: se eu quero uma coisa por demais, e ela acontece, eu fico me sentindo mais forte, e vou chamando isso de fortalecimento de fé. Na verdade, foi só uma sucessão de eventos favoráveis.

    Falando em Missões, quando alguém se lança num projeto missionário, penso que ele está tendo uma enorme confiança em si próprio, antes de mais nada. Creio que Deus também não tem nada a ver com isso.

    Mas quando as coisas dão errado, a gente tem o hábito de reclamar com Deus…

    Diria as mesmas palavras de certo autor bíblico: “A fé é a certeza daquilo que se espera”. No meu caso, quando me atirei no “projeto missionário” estava naquela fase em que não se acredita em mais nada a não ser em Deus. Reclamar com Deus é tarefa desnecessária, já que ele fechou a porta para reclamações há muito tempo.

  4. Como disse uma moça que já foi embora da Gruta, uma tal de Graça Serrano: aqui o povo só reclama…”ÂNIMO, TENDE BOM ÂNIMO!”
    Como disse a Raquel, Incondicionalmente…”os valores divinos nos tocam incondicionalmente”, sempre, mesmo que não estejamos vivendo a fase do primeiro amor, lembrando daquele cântico que diz, “vamos voltar ao primeiro amor, ao primeiro amor, vamos voltar a Deus”. FÉ, SEMPRE FÉ, SEMPRE ESPERANÇA… SEMPRE.
    Uns sofrem mais, outros menos, mas sim, a “fé é a certeza das coisas que se esperam e a convicção dos fatos que não se vêem”.
    Lou, espero que não se zangue comigo, mas reclamar a Deus não é tarefa desnecessária e Ele não fechou as portas para reclamações, desde sempre.Todos sabemos disso.

    Uma das minhas dificuldades, desde o início deste blog, tem sido com a relação do autor e seu personagem principal, que também faz o papel de narrador. Meu personagem é muito melhor do que eu, principalmente porque é uma espécie de Brâhmane, ou seja, não mente nunca.

    Se fosse eu, usando minha tradicional hipocrisia, diria a tudo isso: tá tudo bem, vamos em frente! Seja otimista! Mas ele não. Sua sensação sobre Deus é essa, de um deus relapso e distante, nunca presente nas horas necessárias, sempre dando preferências preconceituosas em favor dos ricos, dos brancos anglo-saxões, dos protestantes, dos perfeitos fisicamente e intelectualmente e incapaz de olhar os desvalidos, embora, sob luzes dos holofotes, conclame o povo a ações benevolentes, em favor dos pobres, necessitados e doentes.

    Não implica, necessariamente, em uma definição autêntica de Deus, apenas nas impressões de um ser fictício com a incumbência de sintetizar os sentimentos de uma parcela importante dentre as pessoas, concedida pelo autor.

  5. Lou

    Gostei da sua visitinha. Vim retribuir. E contribuir.

    Contribuo com uma frase do Carlos Hernández, de um texto que acabei de traduzir esta semana:

    “A fé é a conquista que amadurece na espera. Uma espera na qual se aprende a suportar o desespero como o momento complementar ao gozo”.

    Estou fazendo este exercício, tentando viver o Linfoma de Hodgkin do Tonho com maturidade, suportando o desespero e esperando, com otimismo e esperança, o momento de gozo que, eu sei, virá em alguns meses, com a sua cura – embora passar por esses meses esteja sendo muito duro.

    Um beijo pra você e pra toda a sua família. Sugiro experimentar a fé da maturidade, serena, sem as loucuras da juventude. É boa demais.

    Talita

    Obrigado por retribuir. O prazer em visitar seu blog foi meu e sei, muito bem, que você tem lastro suficiente para escrevê-lo como poucos. O Antônio é um amigo querido, inesquecível e ele tem minhas sinceras orações a favor de sua recuperação. Na úlitma vez que nos encontramos (em uma reunião na casa do Zenon) ele quase trancou a Tereza em algum quarto escuro para ter o privilégio de me dar carona até a estação de metrô. 🙂
    Pessoalmente, não tenho mais essas experiências juvenis de fé insana. Meu personagem é quem sofre com isso, atualmente.

    Beijos para vocês, família, que ocupam lugar de destaque em nossas lembranças e história.

  6. Lou, gosto de ouvir suas histórias dos seus tempos missionários, tem uma de uma ligação que você fez, pra casa da Valnice, muito boa aquela história.

    Então, como um bom fanfarrão que se preze, ousei acreditar ter algo a contribuir para esse tema: a fé. Ridículo!

  7. De vez em quando tenho a impressão de que a fé é o grande assunto desse negócio todo que nós chamamos vida. Parabens pelo seu texto. Faz pouco tempo que conheci seu blog e fiquei encantado com a forma como você aborda os temas teológicos: primeiro fazendo com que eles pareçam mais cotidianos (o humor ajuda muito nisso), depois essa forma que você tem de se afastar da postura ortodoxa, que para muitos quase beira uma heresia, na verdade quando te afastas de Deus é pra te aproximares de uma maneira toda especial, como só aqueles que saem de casa podem fazer (rsrsrsrsr, pareci que li isso em alguma parábola).

    Agradeço sua visita e comentário. Não poderia ser melhor. De fato, embora pequena (falo da palavra), ela é grande no negócio chamado vida. Problema é acreditar nisso.

  8. A fé tem estágios?!?!? Nossa, eu não sei em que estágio estou!!! Acho que tenho que ler o livro…
    Uma vez li que fé todos tem, resta saber fé em quê… Tem gente que tem fé nos astros… até dos da TV!!! Outros tem fé em si mesmos. Eu os invejo. Já não tenho fé em mim, menos ainda nas pessoas. Nos astros, então, nunca tive. Que fé me resta? Será que o livro me responde?
    Sei que tenho fé, porque acho que quando perdemos a fé por completo, morremos.
    Meu filho propôs “fé na vida”, numa postagem minha sobre o assunto. Sei, não…
    “Fé em quê” é o X da questão…

    Na sua integridade e fidelidade, coisa que invejo sem pudor.

  9. Quatro coisas a dizer sobre esse tema ridículo – como qualquer discussão humana, inútil – como qualquer coisa que esteja nas ânsias dos humanos, e obsedante – como qualquer coisa ridícula e inútil que nos persiga de dentro pra fora.
    1. A fé não tem nada a ver com as crenças pronunciadas, nem com um catecismo ao qual se possa aderir, depois do enfado do sermão que nos passam. A fé tem a ver com aquilo pelo qual eu continuo a fazer o que quer que eu faça, ainda que resmungando.
    2. Só pode ser, então, que a fé exista e ponto. Não há esforço que possa alcançá-la, nem valor para tanto. Ela é de graça, despudoradamente de graça. Frederico dizia que uma pessoa de verdade tinha que ter “fé na fé” (Tudo bem que nem todo mundo tem coragem pra existir de verdade, né?).
    3. A fé baseia-se num conhecimento – que não é lógico-racional – cujo breve vislumbre provoca um mal-estar intenso. Assumir uma fé é apostar nesse conhecimento terrível, parecido com uma cólica no intestino da mente.
    4. Esse conhecimento não diz respeito ao objeto da fé, que é muito nublado, nem àquilo que a está sustentando; a fé é como estar de frente à porta escancarada da gaiola, numa noite fumaçenta e fria, com um pé lhe empurrando pra sair da gaiola. Você não sabe o que há para além da porta, e obviamente tem medo, nem quem é o infeliz que está te empurrando. O que você pode chegar a saber é: “Por que diabos eu estou segurando com tanta força nas grades dessa mer…?!” (“diabos”, aí, é bem apropriado)

    Na senda da fé, estamos agarrados às grades, na maioria das vezes, se não me engano.

  10. Lou,
    Lendo a história bíblica, quando Jeremias lamentava tanto a sua situação como a do povo de Israel, algumas vezes até discutindo com Deus, pode até parecer estranho para quem está abarrotado de pregação triunfalista. Sem dúvida alguma, muitos que estão na galeria da fé de Hebreus 11, não estariam lá pelos critérios “cristãos” de hoje. Poderiam estar condenados num manicômio, na cadeia e expulso da igreja, pois seriam considerados pessoas sem ajustamento. A Gruta é um dos maiores gritos proféticos que eu conheço e um refúgio para quem não se ajusta ao “sistemão” que impera hoje em dia.

    Grande abraço.

    Esse é o tipo de apoio bem vindo. Pensei que, fora de nosso universo, ninguém mais lia o pessimista Jeremias, sem falar nos outros vizinhos dele. Alegrou meu dia. 🙂 Em tempo, sem falar que nos dias de Jeremias ainda não haviam os psicólogos.

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