A Gruta do Lou

Eram os deuses o que?

Antes de mais nada, desejo me desculpar com aqueles leitores que embarcaram em minha história ficticia sobre uma viagem de férias, durante um fim de semana, na linda praia de Toque – Toque – Pequeno.

A grande e triste verdade é que Deus não proporciona esses pequenos (e muito menos os grandes) milagres a gente como eu. Sou pecador, não frequento mais nenhuma igreja, não faço mais leitura regular da Bílbia, minhas orações são debeis e meu nome é presença crônica em todas as listas de devedores, existentes.

Sou um membro vitalício de uma ilha deserta que convencionei chamar de Gruta, querendo me assemelhar a Elias, Davi e ao próprio Cristo, pois vi neles algo de minha própria sina solitária, no mundo dos aflitos e indigentes picaretas. Jesus o fez por vontade própria, tomando em seus ombros a nossa miséria. Mas eu sou o próprio. Entrei nessa por minhas próprias errâncias e nunca me passou pela cabeça idéia absurda como essa, ou seja, fazê-lo em favor do próximo.

Para estar apto a um gesto divino dessa magnitude, a pessoa precisa acreditar em si própria, não ter pecado algum, ser positiva e andar pela fé. Certamente, ela deverá adotar crenças verdadeiras como o calvinismo ou o arminismo, embora as duas se antagonizem e cada lado julgue estar com a verdade. Gente como eu, que não consegue assimilar nenhuma das duas e ainda seja meio tomista (sic), jamais será agraciado com tal manifestação sobrenatural da parte do Criador.

Deus só libera empréstimo milagroso para quem tem potencial claro capaz de pagar a dívida. Queria ver ele emprestar um centavo que fosse a um risco como eu. Bem que Jesus (que conhece o pai dele como ninguém) avisou: que valor há em perdoar um amigo? Quero ver Ele perdoar um desgraçado como eu. Pelo menos foi assim que meus pastores me ensinaram. Deus é rigoroso. Ele colhe onde não plantou. Tem coisa mais injusta que essa. Sai p´ra lá.

Concebi esse conto de fadas em meio ao desespero de quem espera a segunda-feira para enfrentar os verdugos. Esses picaretas desalmados. Depois virão os médicos, os dentistas, os advogados do diabo e seus amigos promotores e juizes. Cada um esperando a sua vez, ou não, para encostar em minha pele o seu ferro em braza. Claro que eles virão cumprindo a justiça divina, afinal, ninguém toca em um fio de cabelo de um filho de Deus sem a permissão dele. Basta olhar a minha cabeça para entender a verdade dessa bobagem ou as outras cicatrizes da minha vida miseravel gravadas em meu corpo ou em minha alma.

Mas, confesso, me vi lá em Toque – Toque – Pequeno e mais, vi os rostos dos meus familiares e dos personagens que criei cheios de alegria e vida. Foi só um instante fugaz e não fui o primeiro a imaginar grandes momentos a partir do nada.

Agora chegou a hora de enfrentar a realidade e isso se faz com o que temos de verdade. Sonhos não pagam nossas dívidas, nem deuses ou vizinhos.

6 thoughts on “Eram os deuses o que?

  1. …. eu q ja vivi o q vc tem vivido e talvez até mesmo em escalas maiores ( fui despejada, penhorada, e todos os “adas” que a justiça da direito – e os que não dá), sei que se não fosse o otimismo(as vezes idiota) e os sonhos e delírios (sejam lá quais forem), eu não teria suportado ou sobrevivido.
    Segue em frente pq no fim , ou da certo ou a gente se acostuma.
    abraços

  2. Ah, bem que eu estava desconfiada de tanta chuva de bencao assim. Já pensei: O que será que aconteceu lá em cima? Será que o anjo da guarda do Lou resolveu adulterar os planos do Divino?

    Mas sonhar é bom Lou, refresca os nossos dias pesados. Até mesmo porque há muita gente que pensa que na vida de algumas pessoas, Deus anda fazendo milagre demais. Que nada. A coisa nao é bem assim. É como vc escreveu: Tem gente querendo colher onde nao plantou.

    Grande abraco em vocês e já recebi seu email.

    Abracos na Dedé.

  3. Afinal, Macuníma, o “herói” de Mário de Andrade, gabava-se um dia ter caçado dois veados mateiros de uma só vez, quando pegara simplesmente dois ratos chamuscados. Como sues irmãos contestassem a proeza, ele “parou assim os olhos” no interlocutor e explicou:
    – Eu menti.
    Se não fosse a observação de sue amigo P. Brabo para colocar na rúbrica ficção e quase também embarcaria nessa.
    Lou, obrigado por querer alimentar nossos modestos sonhos de férias, e los sueños sueños son.
    Abrçs,
    Roger

  4. Lou, é assim que eu viajo pra Gruta todos os dias.
    Só tem um agravante:eu ando cheia de hematomas,dos tombos
    que levo naquelas pedras escorregadias.

  5. Olha,é o seguinte.Acreditei na tua história.Fiquei alegre por terem conseguido o tão esperado fim-de-semana na praia!E tu vem dizê que aquilo é brincadeira,conto de fadas,ficção ou sei lá mais o quê?Tô triste.Primeiro por ter sido enganada e segundo É CLARO,por vocês não terem conseguido alcançar o tão sonhado sonho.Quem sabe o ano que vem…

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