A Gruta do Lou

Encantador de Anjos da Avenida Paulista

Edição revista e corrigida

Em uma coisa Cidade dos Anjos está certo, eles estão por toda parte. Onde quer que você vá, em qualquer esquina ou sala, eles estão aí. São discretos, respeitadores e, sobretudo, nunca intervem com nosso livre arbítrio. Ao contrário da cirurgiã cardiologista, personagem de Meg Ryan, no filme, eles não podem ser atraidos por nós. São observadores e cumpridores de ordens celestiais. Geralmente agem como ministradores, levando e trazendo mensagens. Dificilmente alguém os identifica ou mesmo ouve essas mensagens. Quando acontece, as pessoas imaginam terem tido alguma boa idéia, afinal elas são muito inteligentes ou pensam assim.

Mas não foi isso que aconteceu comigo. Por alguma razão que não sei como explicar, comecei a vê-los, sim enxergá-los, discerní-los. Mas eles não souberam que eu podia vê-los, no princípio. Não demonstrei minha consciência quanto à sua presença, apenas tratei de observá-los. Eram milhares. Quanto mais gente, mais anjos. Em São Paulo, andando pela Av. Paulista, na hora do almoço, eles eram muitos. Algo neles brilhava muito. Então fica fácil vê-los.

Eu andava pelas ruas em busca de emprego. Às vezes meu dinheiro acabava e voltava a pé, para casa. Às segundas-feiras, horário noturno, fazia um curso de extensão na Getulio Vargas e, sem que ninguém soubesse, saia de fininho e caminhava pela avenida. Foi quando comecei a vê-los. Percebi que sabiam minhas razões. Tratava de não encarar nenhum deles, para que não desconfiassem. Seguia meu caminho, cabisbaixo e pensativo.

Então comecei a pensar em tudo aquilo. Da janela do nosso apartamento eu os via nos telhados e nas janelas dos outros prédios. Parece que falavam entre si, mas pouco. Eles olhavam, apenas. Será que era sempre assim? Ou eles estavam preparando alguma grande ação ou o cumprimento de uma missão divina especial? Na verdade, no início não os chamei anjos. Até cheguei a pensar que poderiam ser demônios, embora seu perfil não se parecesse, em nada, com a descrição dos capetas. Eram gentis e cordatos, alem de muito bonitos e não tinham chifres ou capas vermelhas, muito menos tridentes nas mãos.

Um dia, um senhor, morador de rua e andarilho da avenida, me estendeu a mão. Nela havia um pedido, embora não estivesse escrito, entendi perfeitamente. Enfiei a mão no bolso e lembrei que ali só havia o dinheiro para a passagem do mêtro de volta. Não hesitei. Tirei o dinheiro do bolso e coloquei na mão do velho. Parece que ele sabia o que eu estava fazendo e fez um leve sinal com a cabeça, abaixando e levantando-a. Naquele instante, percebi que todos eles me olhavam. Cheguei a ficar constrangido, mas segui em frente tentando não demonstrar que sabia da presença deles.

Certo dia, alguns ladrões aproximaram-se de mim. Não os percebi. Eu levava em minha carteira o dinheiro do pagamento da mensalidade da escola. Um dos ladrões me deu um tranco e meu corpo pendeu para frente. Enquanto isso, outro enfiou a mão em meu bolso, rápido como um raio, e levou minha carteira. Fiquei zonzo. Custei a recuperar o domínio de mim mesmo e, novamente, todos eles me olhavam. Queriam me dizer alguma coisa que não podiam falar, mesmo porque, não sei como o fariam se decidissem fazê-lo.

Naquela noite, quando voltava para casa, no último quarteirão da avenida que eu tinha que percorrer, a surpresa: eles fizeram um corredor para que eu passasse entre eles. Fui passando feito a Gisele Bündchen sem o requebrado e a beleza enquanto eles me olhavam com um olhar maravilhoso. Eles estavam encantados.

13 thoughts on “Encantador de Anjos da Avenida Paulista

  1. Comentário fundamentalista: essas coisas são o demônio, não se deixe enganar…

    —-//

    Bom texto, faz-nos pensar…

  2. Eu acredito!
    Só tenho pena de não os ver como tu! 🙂
    Também sou fâ do filme cidade dos anjos.
    Abraço Lou!
    Nota: ando desaparecida, mas presente!

  3. Eeeeeeeeeeeeba, estou teclando de minha máquina própria. Lou, há coisa de uns meses atrás, você “determinou” um micro novo pra mim. Estou começando a achar que isso funciona; será que você é o meu profeta Elias e eu sua viúva de Sarepta? Manda mais!

  4. uauuuu….
    vou ler de novo… amei….
    beijos,
    alê ( nao estava conseguindo comentar, nao sei o porquê. mas estou sempre por aqui, te lendo…)

  5. Lou,

    acho que é por isso que o Stênio Marcius poetizou e o João Alexandre cantou: “Anjos pegam pela mão, fecham boca de leão. Anjos sentam à sua mesa, dormem em sua casa. Anjos trazem boas novas e em sonhos vem falar. Tantas vezes sem sabermos de mil perigos vem livrar.”

    Um forte abraço.

    Graça, paz e bem!

  6. Bete

    Vejo você, de certa forma, como a viuva de Sarepta, mas eu não serviria para engraxar as botas de Elias. Aquilo sim é que era Profeta. Mas estou muito feliz pelo computador. A penitência é um comentário diário na Gruta, pelo menos.

    Alê
    Agora você sabe do segredo. Os anjos anotaram suas palabras. 🙂

  7. Olha, eu nunca os vi, mas sei que em alguns momentos da minha vida eles estiveram presente cumprindo sua missao.

    E como ficou a mensalidade da escola?

    Bom fim de semana

    (Ah! Os ortosex e suados???? kakakak
    Melhor em alemao: Was???

  8. Georgia

    A mensalidade da escola continua em aberto. Se um dia eu precisar daquele certificado insignificante, você já sabe o que será preciso fazer. 🙂

  9. Parece mesmo,Lou, que em muitos momentos esses entes estão a nos cuidar.Comigo aconteceram tantas coisas estranhas quando trabalhava e estudava a noite em Sampa.Passava em cada lugar que só Deus,ou os anjos pra me guardar.Já fugi de ladrão,que queria levar todo meu material(caríssimo)da faculdade.Noutras vezes levaram as jóias(velhos tempos)mas ficaram pescoço e dedos.Já vivi momentos em que não tinha nada o que comer,e lá vem eles mandados como diz você, pelo Barba Branca providenciando o sustento de uma forma inesperada…momentos assim,especiais…Podemos não enxergá-los com esses olhos aqui, que a terra há de comer,mas conseguimos sentí-los.

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