A Gruta do Lou

Empurradores de moral

 

A Caverna (ou Gruta) é a antítese da igreja de nossos dias.

Antes de tudo, uma caverna não é um lugar confortável; repleto de pessoas bem vestidas com roupas de grife; que estacionam seus carrões em um estacionamento subterrâneo ou contíguo; leitoras da bíblia NVI e dos livros da moda, tais como: “Por que você não quer mais ir à igreja” ou “Viciados em mediocridade”.

Na Caverna não há um pastor efetivo, cercado de obnóxios por todos os lados, com seu diploma do mestrado, expedido na metodista, pendurando na parede do seu gabinete pastoral. Aliás, na Caverna não há gabinete pastoral. O único gabinete existente é a própria Caverna onde só se vê estalactites e estalagmites, por todos os lados.

O que mais se parece com um pastor na Caverna é um cara destruído por sua insistência compulsória em nadar contra a corrente da falsa moral. O resto é pedra e água. É bom lembrar que Jesus tinha em mente construir sua igreja em uma Caverna, ou você não lembra que ele disse: “sobre essa pedra edificarei minha igreja”.

Não precisamos de um estacionamento, pois não temos carro. Alguns andam em motos 125 cc, por aí, sob o risco de morrer na marginal. Tampouco temos espaço para armar uma grande tenda, enche-la de cadeiras de plástico desconfortáveis e um big púlpito de acrílico sobre um palco. Na Caverna, dificilmente as pessoas sentam e, quando o fazem, é no chão mesmo, em outras palavras, no pó.

Nas igrejas da moda busca-se o bem em detrimento do mal, enquanto na Caverna queremos a verdade, posto sermos um bando de pessoas cansadas dessa gente repleta de bem que nos faz tanto mal e nos privam da verdade. Nossas bíblias sem marcas estão sendo desconstruídas por nossa experiência e pelas falácias teológicas e filosóficas inconsistentes dessa gente cheirosa, sempre importadas do reino do norte.

Nós sabemos o quanto nos distanciamos deles quando falamos de nossa situação financeira a perigo, de nossa saúde capenga ou de quaisquer outras de nossas mazelas. Na Caverna não há vencedores, aliás, eles nem sabem onde estamos. Por outro lado não há perdedores, pois não temos com quem competir.

Aqui não nos envergonhamos quando nossa despensa está vazia, nem mesmo estranhamos a lágrima vertida diante da ação bondosa, representada por uma mão tremula estendida em favor de alguém caído. Nem sequer precisamos estar em algum buraco da terra para estar na Caverna. Na verdade, Caverna é nossa verdade, muito mais do que um lugar.

Talvez nós sejamos os viciados em mediocridade e, certamente, as pessoas que não querem mais ir à igreja. Afinal, se ser medíocre é não querer fazer parte do bem e do mal deles, certamente nós os somos, seus protagonistas prediletos. Qual é a moral deles? Sim porque eles querem nos fazer engoli-la. Deus está ao lado dos vencedores? Então não quero nada com Deus. Não falo por mim, mas se há um Deus, ele viria em favor dos doentes e não dos sãos, então é desses a quem me refiro.

A Igreja de nossos dias não precisa mais de um salvador. Seus pastores se bastam como tal. São emanueis montados em suas Harleys e vestidos em seus mantos La Coste. Mas os membros dessas igrejas nos visitam e até nos dão esmolas, de vez em quando, só não nos convidam para cear com eles, pois poderíamos envergonhá-los com nosso cheiro e nossa roupa desgastada.

Procuram-nos por alguma profecia ou um resquício de verdade. Tenho uma coisa liquida e certa, a verdade não é o maniqueísmo, nem o dos tempos de Agostinho e muito menos o atual. A verdade será Cristo, como sempre foi.

 

10 thoughts on “Empurradores de moral

  1. obnóxios ? tive que procurar um dicionário agora …

    São os servis, em outras palavras, puxa-sacos, embora pareçam inofensivos, melhor não dar as costas a eles. 🙂

  2. oxente… e agora tem moderador é? Então retira o que eu disse, please!

    A moderação é ativada só no primeiro comentário para cadastramento do E-mail. Desculpe o incomodo. Daqui para frente está liberado.
    Obrigado.

  3. Seu texto é bom. Ele fala.

    Eu acho que há muitas igrejas que mesmo com pastores usando La Coste sao cavernas, assim como há pretensas cavernas que caem no engano fatal do “eu tenho a verdade de Deus”. Eu prefiro uma igreja, nao importa se o templo é barroco ou garagem, que convide as pessoas a trazerem seus questionamentos, para que façam uma jornada em conjunto através do mistério de Deus, seja ele qual for”.

    Temo verdades prontas. Porque a verdade mesmo, penso ser uma pessoa, o Cristo.

    Voltarei mais vezes aqui.

    Abraço!

    Obrigado pela visita e comentário. Espero mesmo que volte mais vezes aqui. O sentido da Caverna, proposto por esse blog, é mesmo a antítese à igreja instituída de nossos dias. Nesse sentido, uma igreja pobre ou mais humilde não será uma caverna por isso. Aliás, basta ser uma instituição para se descaracterizar. É só uma tentativa tosca de ressuscitar a velha idéia de Cristo sobre sua missão, lembra? “Evangelizar os pobres, apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor”. (Luc 4:18 – 19) Abraço para você, igualmente.

  4. “Na Caverna não há vencedores nem perdedores,pois não temos com quem competir”…também, não encontramos aqui
    verdades prontas…mas é muito bom estar aqui,mesmo sentando no pó.

    A verdade é tudo que gostaríamos de encontrar, certo?

  5. O texto me lembrou de uma bela música dos Los Hermanos que os alardeadores ufanistas do evangelho do bem-estar deveriam atentar e refletir, e, claro, por que não nós também:

    O Vencedor

    Olha lá quem vem do lado oposto
    e vem sem gosto de viver
    Olha lá que os bravos são escravos
    sãos e salvos de sofrer
    Olha lá quem acha que perder
    é ser menor na vida
    Olha lá quem sempre quer vitória
    e perde a glória de chorar

    Eu que já não quero mais ser um vencedor,
    levo a vida devagar pra não faltar amor

    Olha você e diz que não
    vive a esconder o coração

    Não faz isso, amigo
    Já se sabe que você
    só procura abrigo,
    mas não deixa ninguém ver
    Por que será ?

    Eu que já não sou assim
    muito de ganhar,
    junto as mãos ao meu redor
    Faço o melhor que sou capaz
    só pra viver em paz.

    Valeu Thiago! Lindo mesmo, nem eu escreveria uma letra melhor!!!!! 🙂 Mas gostaria de ter escrito. Obrigado.

  6. Li agorinha mesmo, antes de entrar na internet: “o que faz uma igreja, minha filha, é o sossego que mora lá dentro” (Mia Couto em “O outro pé da sereia”)
    Que tal?

    Muito boa! Obrigado. Se bem que, a Caverna precisa melhorar muito nesse quesito. De vez em quando, tem cada trovoada por aqui…

  7. E na caverna se pode entrar sem o constrangimento de tentar sem bom, sem o peso de prestar contas das obrigações e sem nenhum condicionamento a não ser o de querer vir aqui. E principalmente, o bom humor exorciza a pieguice de ter que gritar nomes com louvores e aplausos… Pelo menos, acho. Foi aqui que se casaram o riso e o choro.

    Olha só p’ro cê vê, sei que é meio insano rir quando todo tipo de diabruras está à sua porta. Mas, o aforisma é: Rir é o melhor remédio. Quem pode com ele? Temos praticado e, se não cura, tira a dor. Certos deuses, nem isso andam fazendo.

  8. Ao ver a música dos Los Hermanos percebo que cheguei muito atrasado. Belo texto de reflexão. Apesar de que creio que Deus vem para consolação assim como para arrependimento. Ou seja, incluamos aí também os corruptos.

    Sim sem dúvida, inclusive já mandei o contrato de redenção para o Estevam e esposa assinarem. Aproveitei para lembrar-lhes que também precisei assinar o meu. Vamos ver se eles assinam. 🙂

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