A Gruta do Lou

Educação familiar e tecnologia

monalisa

Vamos deixar Deus dormir tranqüilo enquanto nosso planeta se aquece graças às experiências com armas devastadoras e não com o seu desodorante spray e sua geladeira a gás e tão pouco com as queimadas, como querem os caras da esquerda sob os aplausos incessantes e efusivos dos caras da direita. Meu tema, neste post não é ecológico e tão pouco teológico, para alívio das minhas vítimas prediletas.

Quero dar uns palpites relacionados à educação, sobretudo na questão inclusão, embora o expert nesse assunto seja o Fábio Adiron e seu excelente blog dedicado, sem dúvida. Acontece que nossa experiência com o Thomas, nessa área, talvez seja interessante e deva ser compartilhada.

Nosso filho mais novo veio a esse mundo com uma cardiopatia congênita complexa, como é do conhecimento da maioria dos leitores (Se desejar mais detalhes sobre isso, clique no Anjinho Tom, ao lado). Esse fator acarretou consequências à educação dele. Sua experiência escolar completa resume-se em dois anos e meio de pré-escola (Colégio Batista Brasileiro – SP) e um ano e meio de ensino fundamental (Colégio Benjamin Constant – SP) e fim. Devido a fatores como o tratamento dispensado pelos colegas, professores, orientadores e funcionários das escolas citadas, chegamos à conclusão que o Thomas estaria melhor sem as agressões e dissabores vivenciados nesses locais reservados às ervilhas sem máculas. Deixarei a discussão sobre as causas desse fenômeno para o Adiron.

Meu propósito aqui é menos ambicioso. Depois de assumirmos a responsabilidade de educar nosso filho completamente, algo estranho aos padrões atuais, pensei em uma série de possibilidades em termos de métodos para empregar nessa tarefa. Embora minha área específica tenha sido a Educação Física e não me venha com piadinhas, fui capaz de imaginar a dimensão da tarefa colocada à nossa frente. Na verdade, no caso dele, a Educação Física era a matéria com menos a doar-lhe. Como ficariam a alfabetização, esse horror ocidental, a aritmética, geografia, história, … e o relacionamento? De saída, havia um grande ganho, a parte emocional receberia um alto e inigualável acréscimo com o apoio e presença familiar. Mas as outras necessidades me assustavam.

Depois de muito pensar, resolvi descansar e deixar o barco correr. Naquela época, década de noventa, estava empenhadíssimo em absorver tudo sobre o novo brinquedo alienígena que invadira a Terra, o Computador Pessoal. Vendemos umas ações da Telesp (éramos felizes e não sabíamos) e compramos o nosso, um bendito 286. A princípio, eu passei muitas noites em claro, dias e dias sentado feito um idiota na frente daquela coisa ridícula e horas a fio descobrindo todas as possibilidades daqueles softwares retardados. Pouco tempo depois, o Pedro começou a se interessar e como um raio assimilou tudo que eu descobrira e muito mais em menos tempo. Descobrimos a Internet e começamos a navegar. Aliás, o meu primeiro acesso na rede foi em Lisboa com a ajuda de um gajo chamado Rato. Nosso primeiro provedor chamava-se Mandic e a conexão era discada. Tomamos um baita susto quando veio a conta. O Pedro ficava a noite toda internetando e você pode imaginar quanto isso doeu no meu bolso. Mas ele não fez por mal, apenas não tinha noção desse detalhe. Minha culpa.

Assim nos ocorreu que esse poderia ser o caminho ideal para o Thomas: Educação familiar (uma ideia ultrapassada há séculos) com tecnologia. Começamos a incentivá-lo. Naquele tempo, sentadinho na cadeira do PC os pés ficavam balançando a meia altura. Na mesma velocidade do Pedro, ele assimilou a máquina e suas possibilidades em termos de conteúdo e relacionamento. Hoje ele está completamente alfabetizado (se tiver dúvidas veja aqui), sabe fazer conta de mais (tudo que alguém precisa nessa vida em termos matemáticos, como ensinou Tiãozinho Malta, o cara mais rico do Brasil) e tem conhecimento geral acima da média dos meninos de sua idade. Sem falar em sua capacidade de pensar. De quebra, edita vídeos como poucos. Acho que não há muitos professores escolares no mundo dispostos a enfrentar uma fera como essa em suas salas de aula ridículas. Em minhas divagações educacionais de um ridículo professor de educação física e teologia com viés para a consultoria em propaganda, adotei conceitos socráticos ultrapassados e tratei de ensinar meus filhos e alunos a pensar, somando a isso: tecnologia. Ninguém para rir de sua cianose intensa ou de seu corpo magro e alto. Sem a turma da caçoada porque ele não podia andar muito e cansava para subir escadas e nem aquela orientadora idiota que ficava dizendo a todo mudo que aquilo tudo era fita dele. Sem falar nas reclamações devido a liderança que ele exercia sobre uma parte dos alunos de sua classe.

Não cabe me alongar agora. Essa experiência tem sido muito rica para o Thomas e para nós. Claro que os entendidos dominadores dos espaços educacionais não estão nem um pouco dispostos a ouvir falar desse horror contrário aos seus métodos protocolares e voltados exclusivamente às necessidades e desejos do mercado. Mas estou sonhando em detalhar isso tudo de alguma forma para deixar à posteridade ou a quem interessar possa.

לּהּמּ

Ops: O poster do filme O Sorriso de Monalisa, acima, é uma homenagem por sua ênfase ao método de ensinar a pensar.

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7 thoughts on “Educação familiar e tecnologia

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Lou

    Nem precisa de muita explicação, isso tem um nome, chama-se falta de respeito. Eu costumo dizer que essa é a maior deficiência dos nossos filhos.

    Sabendo das agruras do sec XXI imagino as suas há quase 20 anos atrás.

    Os americanos tem um modelo oficial de homeschooling que alguns pais brasileiros querem copiar.

    Eu tenho sérias dúvidas a respeito, acho que o modelo só solidifica a exclusão. Pode resolver a questão individual, mas para a sociedade como um todo é péssimo, além de facilitar a vida dos exclusores (e eu adoro dar trabalho para essa gente).

    Um abraço

    Fábio Adiron

    Esse tema é muito interessante, sobretudo para você e para mim. Vale conversar muito mais a respeito. Certo?

  3. Lou, duas coisas: primeiro, na época de decidir sobre a escola do meu filho, eu fui atrás da pedagogia Waldorf, mas acabei desistindo porque a única escola aqui em S.Paulo era na zona sul, extremamente longe.

    Outra: adoraria que meu filho te ouvisse: o caminho dele é comunicação, audio, midia, ele é fera em audio, mas insiste em se frustrar porque não está fazendo curso superior, porque tem amigos trabalhando de terno e gravata em bancos.

    Fase dura. Não sei se vou ou me deixo levar. Mas é bom dar tempo a ele. As coisas mudam rápido. O mais importante é ele estar certo de haver alguém que acredita nele.

  4. Gostaria de parabenzá-lo pela decisão de livrar seu filho da pena imposta pelo Estado a qual chamam escola. Há 3 anos educamos nossos filhos fora dos bancos escolares e a única coisa que lamentamos é não termos tomado esta decisão antes. Gostaria de conversar mais a respeito.

    cleber@andradenunes.org

    Nessa altura do campeonato, estou completamente convencido de que a educação formal é desnecessária, sem falar no fato de ser perigosa em muitos sentidos, inclusive em relação à integridade física de nossos filhos. Pena não ter aplicado o mesmo método com os outros dois. Mas o Thomas, por qualquer tipo de avaliação, está acima da média dos meninos de sua idade em termos de educação. Talvez fique um pouco abaixo se confrontado em matemática com algum descendente de chineses, mas na média, ele dá de dez nos filhotes da educação formal.Parabéns por sua decisão.

  5. Minha filha também sofreu de “Bullying” na escola,devido a um problema físico,também causado por uma patologia congênita,mas deu continuidade a seus estudos em escolas públicas.Hoje, é uma moça e práticamente superou tudo.Achei muito interessante o que fizeram com o Thomas.Parabéns!!Poderia me tirar uma dúvida?Ele presta provas nas escolas para pegar o certificado de conclusão de curso?

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