A Gruta do Lou

Edificador de Cidades

Edificador de Cidades – Brasília

 

“Quem pensa por si mesmo só chega a conhecer as autoridades que comprovam suas opiniões caso elas sirvam apenas para fortalecer seu pensamento próprio, enquanto o filósofo que tira suas ideias dos livros, por sua vez, tem essas autoridades como ponto de partida. Com o conjunto das opiniões alheias que leu, ele constrói um todo, que se assemelha então a um autômato constituído com matéria alheia. A construção de quem pensa por si mesmo é, em contrapartida, como a criação de um ser humano vivo. Pois ela foi gerada à medida que o mundo exterior fecundava o espírito pensante, que depois procriou, dando a luz o pensamento.”

Arthur Shopenhauer em A arte de escrever, antologia de ensaios recolhidos de Parerga e Paralipomena

Em todas as classes de teologia onde lecionei, procurei concentrar meus esforços no livre pensar e no confronto. Meus mestres nessas matérias foram os professores do SEV (Serviço de Ensino Vocacional), posteriormente reforçados por gente como meu professor de Metodologia Científica no Curso Básico de Humanas, o saudoso Idemy, na PUC- SP. Nos livros consegui as informações técnicas necessárias para aplicação dos métodos, particularmente em Arthur Schopenhauer em Pensar por Si Mesmo e em Jean Piaget em Níveis de Aprendizagem. Aos poucos, meus alunos iam crescendo a olhos vistos pensando por si próprios, desenvolvendo suas próprias ideias, enquanto incentivava essa prática como linha mestra, ia confrontando-os a fim de causar o impacto necessário para eles galgarem os níveis de aprendizagem necessários.

Muito se tem dito sobre possíveis soluções para os problemas atuais da humanidade e a vida no planeta Terra. Do meu ponto de vista, carecemos de seres pensantes, pois a mediocridade das propostas apresentadas como solução aos graves entraves e obstáculos presentes assusta. Mudanças políticas estão mais do que provadas como sendo ineficazes e inócuas, fora o custo em vidas perdidas que elas ocasionam. Quase a totalidade dessas propostas não possui estofo para serem classificadas como nada além de medidas paliativas.

O pessoal quer acabar com a violência nos morros enfavelados cariocas com violência, apesar de a chamarem de UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora). Isso é um paradoxo definitivo. Querem diminuir ou acabar com as favelas, em todos os lugares do mundo onde elas estão presentes e elas seguem crescendo assustadoramente, com a tal urbanização das favelas, como se isso fosse algo minimamente coerente. Outro paradoxo, em minha opinião. Querem conseguir a paz entre os povos, como os do Oriente Médio, da Europa do Leste (Rússia, Ucrânia, etc.) através da guerra. Imaginam resolver os problemas habitacionais, de falta de emprego e renda familiar mudando o sistema político das nações mais pobres. Propõem soluções pífias para o uso e convivência com o planeta.

De um lado nos pedem para não usar desodorante spray ou geladeiras a gás, enquanto retiram do solo milhões de barris de petróleo diariamente, fragilizado o solo sustentável e causando catástrofes climáticas inimagináveis e imprevisíveis. Poderia ficar semanas relacionando incoerências, paradoxos e absurdos do ser humano incapaz de pensar e encontrar soluções realmente eficazes.

Para exemplificar, cito o caso de Cuba, situado em uma ilha entre as Américas. Eles viveram, até aqui, apostando na lavoura como fonte de sustento para seu povo de 60 milhões de pessoas. Resultado: pobreza, povo mal alimentado e reduzido à servidão de um sistema totalitário sem qualquer projeto de mudança para melhorar as condições atuais. Penso que o modelo ideal para Cuba seria o japonês, com o desenvolvimento de um grande polo industrial na Ilha, levando para lá grandes indústrias produtoras de bens e serviços para os povos das Américas. Tenho certeza que se o Steve Jobs estivesse vivo, montaria uma filial da Apple na Ilha cubana com prazer e ainda afirmaria que essa seria a melhor unidade de sua empresa.

Ah! Mas eles são comunistas e preferem manter o povo passando fome a implantar soluções capitalistas. Exatamente o que fizeram os comunistas chineses e assim conseguiram reverter a situação de total miséria do povo.

Bom, mas a questão econômica não é meu foco nesse post, quero lhes falar sobre outro assunto, antes disso.

Cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México e tantas outras em todos os continentes, absolutamente ultrapassadas no limite de habitantes suportável em seus domínios, não serão recuperadas à custa de projetos paliativos, do tipo reurbanização de favelas ou migração ou imigração para os polos mais desenvolvidos. Acredito que essas soluções além do prazo de validade curtíssimo, ainda serão causadoras de consequências muito piores em futuro próximo.

Creio, firmemente, que a saída para essas cidades é uma só, a construção de tantas novas cidades quantas forem necessárias para acomodar as populações excedentes, dando-lhes a oportunidade de viver em paz, com dignidade e conforto.

A ideia surgiu em meu pensamento. Não me lembro de haver lido algo parecido em lugar nenhum, em termos de proposta. Sei que parece meio louco, mas existem alguns indícios que certamente me ajudaram. O primeiro deles foi a construção de Brasília. Neste mês, comemoramos mais um aniversário dessa cidade, uma dentre as mais novas do mundo, mas seguramente a melhor e mais linda delas. Sem dúvida, foi a construção de um sonho. Brasília foi imaginada por Juscelino Kubitschek para mudar a capital brasileira do Rio de Janeiro para a nova cidade.

Entre as razões da mudança, que passava por reivindicações militares estratégicas, mas também porque na década de cinquenta o Rio de Janeiro já possuía consideráveis indícios de saturação populacional e suas consequências.

Juscelino conseguiu imaginar, a meu ver, que uma nova cidade mudaria contingentes populacionais importantes. Não apenas do Rio, mas de todos os outros centros com sinais de esgotamento evidentes, como São Paulo, Belo Horizonte, etc,. sem falar nas populações do norte e nordeste que para escapar de sua situação de miserabilidade buscavam na migração uma saída para o problema. Brasília virou a opção, durante todo o tempo de construção, bem como nos primeiros anos seguintes.

Brasília foi construída em cinco anos. Hoje, para usarmos essa solução, que a meu ver não solucionaria apenas as questões habitacionais, mas todas as suas consequências, como os problemas de segurança, principalmente com o desalojamento do tráfico que poderia ser então exposto e barrado, a questão da saúde com novos e suficientes centros de tratamento, o educacional, com novas e infinitas possibilidades de difusão de conhecimento, a questão da distribuição de alimentos, uso do solo, dos recursos, de transportes urbanos, de trânsito e toda a gama de problemas para os quais não conseguimos ver saídas quando só podem ser vistos através de alternativas dentro das cidades totalmente saturadas em todos os quesitos.

Evidentemente, a demanda atual seria de pelos menos dez até doze novas cidades, imagino. Uau! Mas pense bem, em 1950 o Brasil inaugurou seu primeiro grande estádio de futebol, uma obra inimaginável, até então. Dez anos depois, Juscelino entregou ao Brasil uma cidade inteira, com todos os itens necessários a uma cidade ultra moderna de tirar o fôlego.

Neste ano, 2014, o Brasil está acabando de construir doze estádios moderníssimos para a Copa do Mundo e depois continuarão sendo utilizados para os campeonatos e jogos locais. Por que não podemos imaginar a construção de dez ou doze novas cidades para desafogar e melhor planejar as condições habitacionais e geopolíticas de nossa nação?

Um dos primeiros problemas levantados, suponho, seria como conseguiríamos recursos para tanto? Um das grandes surpresas advindas da construção de Brasília foi a constatação que ela conseguiu gerar rendas incalculáveis, para os padrões da época. Você pode imaginar o que e quanto, dez ou doze novas cidades em construção, poderiam gerar durante e depois da construção delas? Não tenho dúvidas que as populações hoje vivendo em situação de extremo desconforto por todos os cantos do país, em grande parte, buscariam as novas cidades de livre e espontânea vontade.

Para um projeto desses, hoje, ainda não haveria tantos problemas para encontrar os locais para tanto. Temos bastante espaço, ainda, sobretudo no centro, norte e nordeste. Mas quando isso mudar e os espaços diminuírem, poderíamos inaugurar uma nova forma de solucionar o problema de assentamento das populações, ou seja, a reconstrução total das cidades já existentes.

Para o sociólogo norte americano Jacques Fresco defende que é possível reconstruir todas as cidades do planeta em apenas quinze anos, preservadas as condições por ele apontadas. No começo, riram dele, mas hoje ele é muitíssimo respeitado.

Brasília já se extinguiu, também. Atualmente ela já está super populosa, com os mesmos problemas das outras cidades mais antigas, há populações vivendo em situação de desconforto, como as das cidades satélites, trânsito, violência, falta de emprego, transportes, etc. Isso nos ensina o quanto é importante nunca deixarmos de construir.

O planeta agradecerá se o usarmos com inteligência e cidades velhas abusam muito mais dele, pois requerem muito mais para serem mantidos. Cidades novas, podem ser construídas com modernas técnicas de utilização dos recursos naturais, tornando a utilização muito mais inteligente e racional.

O Projeto do Fresco aborda em detalhes esses aspectos. Mas apresenta extenso e detalhado projeto para todo o planeta, no futuro.

O capitalismo que vivemos é cada vez mais especulativo e gerador de graves problemas. Projetos inovadores dessa magnitude mudariam o capitalismo atual, outra virtude, obrigando-o a nos servir segundo nossas diretrizes, invertendo o funcionamento atual, sob risco para a maioria dos especuladores, grandes ou pequenos. Traficantes e outros delinquentes passariam a viver com grande dificuldade, se tanto. Saúde, educação, transportes, lazer ganhariam novos e vigorosos impulsos, talvez voltando ao controle do povo de forma unificada, como todos nós gostaríamos de ver.

Evidentemente, em um pequeno e despretensioso artigo, não seria possível fazer muito melhor, a não ser suprir as limitações do autor. Trata-se de um pequeno ensaio contendo uma proposta inovadora: A construção de dez a doze cidades distribuídas pelo nosso país. Longe de ter esgotado todas as possibilidades, claro. Mas já deixando aberto o caminho para a discussão e o desenvolvimento da ideia. Espero que cole.

morcego-12

 

 

 

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