A Gruta do Lou

É proibido dançar

dançar

É proibido dançar em todas as igrejas protestantes brasileiras. Quem disse que elas discordam em tudo?

Passei uma grande parte de minha vida dançando.

Nos anos 60, dancei muito nos famosos bailes de formatura sob a música competente de Waldomiro Lenke, Edgar e os tais e Cia. No Vocacional, dançamos “O pezinho”, “Balaio” e outras danças folclóricas. Evidentemente, nessa época eu deveria ter -20 (menos vinte) anos de idade. Dancei, também,  nos inesquecíveis Mingaus do Clube Pinheiros, Circulo Militar e Banespa com o Kompha, Memphis, Folhas, Watt 69 e tantas bandas espetaculares. E de quebra, era sócio do Indiano onde dancei durante muito tempo, em todos os tipos de eventos dançantes.

Na faculdade de Educação Física fiz parte do grupo de dança folclórica Lituana. Além de tudo isso, frequentava os incontáveis bailinhos domésticos onde Beatles, Jonny Rivers, Bee Gees, James Taylor, Carole King e outros davam o tom para dançarmos, sem falar das boas casas de dança espalhadas pela cidade de São Paulo. Tudo isso aconteceu até meados de minha conversão ao protestantismo evangélico.

Dançava porque a dança representava a alegria. Com ela comemorávamos os melhores momentos de nossas vidas. O aniversário, a formatura, o casamento, o nascimento, o sábado de aleluia e todos os momentos felizes de nossas vidas.

Já convertido, minha esposa e eu começamos a namorar dançando no Wiskadão, boate lá na Ilha Pochat. Depois disso, só dançamos em festas de aniversário da família e raramente.

Assim, graças ao cristianismo niilista, a dança saiu de minha vida. Não dançar era melhor do que o sentimento de culpa, depois.

Na verdade, nunca entendi o porquê dessa proibição, nas Igrejas. Suspeito de algo relacionado ao contato físico e seus desdobramentos entre os dançantes, mas ai, como os casais fariam para encomendar seus bebes, inclusive o casal pastoral? Não deve ser essa a razão.

A relação do casal na intimidade de seu quarto não é uma dança? Ah, mais ninguém está vendo. Sei lá.

Segundo me disseram, o Frei Rosário, lá da Igreja do Jardim Prudência, gostava de dançar, se bem que com os meninos, preferencialmente. Os Rabinos costumam dançar. Em Israel, dança-se até não poder mais. Em Igrejas norte americanas a realização de bailes para os jovens é comum. Em Portugal, pasmem, dançam por todos os lugares.

O pior é ficar vendo dança em tudo e em todo lugar. Vejo os pássaros em sua dança diária, os animais dançando por pura diversão, os trabalhadores da fábrica dançando, os negros na África do Sul, cristãos na maioria, dançando na alegria e na tristeza, na época do Apartheid. Até os cristãos dançam, só não vale homem com mulher juntinho. Lembra sexo? Não, deve ser outra coisa.

Dizem os mais entendidos, em vários textos onde se lê: “Vamos cantar e adorar” suprimiram o “vamos dançar”. Mas, eu não acredito nisso.

Talvez, Davi tenha cometido um grande desatino ao dançar em plena rua e sob o olhar de reprovação de sua esposa. Não sei se a proibição é em relação à dança ou condena-se a alegria.

Fico imaginando o Pastor niilista chegando no céu. Eu sou o Pastor Jon… dos… Eu nunca dancei na vida. Nunca permiti às minhas ovelhas e meus filhos dançarem. Aí Pedro lhe responde: é mas, você dançará agora!

No entanto, apesar de meu sentimento de frustração, para a Igreja é proibido dançar.

# posted by Lou @ 11:54 AM

Capricornio PB

7 thoughts on “É proibido dançar

  1. A dança é uma parte essencial no jogo da aproximação, do relacionamento e do amor.

    É uma briga antiga. Conspirar contra o belo valendo-se dos dogmas, mas, desejando-se esconder a culpa produzida pelo prazer sentido nas formas sinuosas de uma bela mulher ou sob um rítmo sensual como um tango, um bolero ou um fox.
    # posted by Luiz Henrique Mello : 1/17/2006 10:29 AM

  2. Li seu post há alguns dias e venho tentado juntar as palavras para dizer alguma coisa. É evidente que sinto como você. O cristianismo parece não ter resistido a mais esta tentação histórica: abraçamos, com outras religiões e filosofias, a curiosa noção de que para defender o que é virtuoso é preciso suprimir o que é belo.

    Também quero dançar.

    Creio que as recentes coreografias litúrgicas em nada corrigem a pobreza dessa nossa condição; pelo contrário, ajudam a sustentar a monstruosa impressão que nenhuma manifestação de alegria é legítima, além daquela exercida no confinamento do edifício da igreja; a noção de que nenhuma manifestação de celebração ou de louvor é legítima, além das devidamente assexuadas e estéreis. Os judeus, cujo formalismo oficialmente condenamos, nunca creram ou agiram em conformidade com tal negação.

    Nenhum pássaro pode estar louvando a Deus, concluimos, se está ao mesmo tempo cantando para encontrar uma companheira.
    # posted by Paulo Brabo : 1/17/2006 9:32 AM

  3. Culpa? Porque? Se sentimos, Deus nos fez assim e se fez, graças a Ele, porque se enchergamos prazer ao dançar e se alcançamos o prazer do Senhor nisso, vamos dançar!
    O importante é sempre alcançar a idéia de louvor. Se podemos louvar a Deus com nossas vozes , com nosso trabalho, porque não dançando?
    E se a alegria é para ser manifestada apenas dentro da igreja, que se abram as portas para que a dança seja ensinada ali mesmo, afastem as cadeiras, tirem os bancos do lugar, e dêem lugar aos dançarinos que, em qualquer rítmo louvam ao Senhor e se regozijam, sentindo toda a alegria e a culpa de dançarem para Deus.

    *minha igreja tem grupos de street dance, abre as portas para campeonatos e tem aulas de dança de salão duas vezes por mês.
    # posted by Camila : 1/17/2006 2:37 PM

  4. Otimo seu texto..otimo seu blog meu amigo
    # posted by Danilo : 1/18/2006 10:30 AM

    AH sim…eu vou publicar esse texto de dança no boletim da igreja e dar o credito a voce, claro, se nao se importar

    Lou Resp: Obrigado Danilo. Pode publicar, sim. Será uma honra.

  5. Nasci na igreja e aí já viu.A culpa era uma constante nos “bailinhos” dos anos setenta.Eu dançava,mas era escondido de pai e de mãe.De pastor e dos irmãos nem se fala.Depois de grandinha,quando Deus abriu cabeça e coração,fui fazer aulas de dança de salão,mas aí,certos tipos de dança como o tango ficaram meio difíceis.Travava tudo,faltava coordenação,mas não deixava de ser uma alegria.Hoje quem não dança perde,como disse você:
    -“Dança”,já começando por aqui.

  6. Folhas, Memphis,Círculo Militar,Banespa….
    Eu também estive por lá.

    A placa “É proibido dançar” foi a primeira que eu derrubei…

  7. Crescemos com esse sentimento de culpa a partir do momento que nossos pais ensinam dessa forma. Desde pequena a vontade de dançar era imensa e escutava um não bem redondo da minha mãe porque era errado. Eu perguntava porque era errado e ela simplesmente dizia porque era, que crente não dança…Cresci frustrada. Hoje, ensino aos meus filhos que não é pecado, que não é errado. Claro que entendo que existem danças pra lá de sensuais mas daí dizer que é proibido e errado nem pensar.

    Fizeste bem em não respeitar as idéias sectárias de sua mãe. Obrigado por sua visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *