A Gruta do Lou

E o Natal chegou de novo

Nunca será demais lembrar, a Gruta nasceu em 25 de dezembro de 2005. Imagino que todo mundo entendeu, você inclusive, a relação entre Gruta, 25 de dezembro, Natal, nascimento de Jesus Cristo, etc. Não foi planejado, aconteceu. Falo do blog, claro. Portanto, existimos A Gruta – o blog e eu no papel de escritor há nove anos, se não errei na conta. Se interessar, veja as estatísticas abaixo.

O blog não andou muito esse ano, arrastou-se. Mas falaremos disso antes do fim do ano, tendo o ano novo em perspectiva. E o Natal chegou de novo, apesar dos pesares, e não podemos ficar fora dessa, pelo menos isso.

20141225_185939Tenho em mãos o livro “O Primeiro Natal” de Marcus J. Borg & John Dominic Crossan. O primeiro a mencioná-lo para mim foi o Zenon Lotufo Jr. Depois o Paulo Brabo da Bacia das Almas fez menção acentuada no último livro dele “As Divinas Gerações“, sobretudo ao capítulo II (Parábolas como aberturas), que levou-o a escrever um capítulo inteirinho em seu próprio livro, só sobre a tese de Borg e Crossan, nessa porção.

Há uma imensa diferença entre a forma de “crer” iniciada a partir do iluminismo até os nossos dias e como as pessoas criam antes disso. Vou deixar Borg e Crossan nos falar mais sobre isso:

Com o iluminismo, surgiu uma visão de mundo muito diferente das visões pré-modernas, uma nova ontologia. Na moderna visão do mundo, o que é indubitavelmente real é o universo espaço-temporal feito de matéria e energia que opera de acordo com leis naturais de causa e efeito.

Esta visão de mundo do que é real e possível moldou os que vivem no mundo moderno, inclusive os que a rejeitam. Nós a internalizamos pelo simples fato de vivermos nesse mundo moderno; é nela que nos socializamos. E ela afeta igual: crentes e descrentes…”

Em palavras mais usuais, nós pertencemos às gerações que acreditam no factual, no que é concreto e podemos ver e tocar, com muita facilidade, e temos enorme dificuldade em lidar com o que não vemos, com as coisas abstratas, que requerem de nós fé para crer. Quando dizemos a palavra fé, a maioria das pessoas já relaciona às coisas religiosas, entretanto, o significado vai além e é bem mais abrangente.

Acho que já narrei aqui a história acontecida quando estive na Albânia em 1979, país que estava sob severo regime totalitarista de cunho marxista-leninista, como os déspotas líderes do regime gostavam de auto definir-se. Estávamos em dois brasileiros e como nosso grupo era muito pequeno, eles nos puseram no grupo dos ingleses, com cerca de trinta pessoas. Certo dia, começou uma discussão entre alguns membros do nosso grupo com os guias albaneses que estavam nos monitorando em nossas andanças por lá. O cara disse que Deus não existia e um dos ingleses rebateu dizendo que existia sim.

“Prove”, pediu o albanês.

O inglês disse: “isso está escrito na Bíblia”.

O albanês replicou: “E só porque está escrito na Bíblia, um livro escrito por homens, você acredita no que está escrito nela?”.

O inglês, coçou a barba e perguntou ao albanês: “Qual é a capital da França?”

“Paris, é claro”.

“Você já esteve na França alguma vez”?

O albanês balançou o rosto indicando que não.

“Então você também não viu Paris, certo”?

“Certo”.

“Como sabe, então que Paris existe”?

“Ora, porque está escrito nos livros de geografia do mundo inteiro”.

Então o Inglês matou a pau, perguntando: “E só porque está escrito nos livros de geografia escritos por homens que a capital da França é Paris você acredita neles”?

Nos últimos dias, vi várias manifestações nas redes sociais, alguns negando a existência de Deus, outros afirmando que Jesus era só um homem como qualquer outro, desqualificando sua ascendência divina, outros que ele nem existiu de fato, mas essa história de seu nascimento foi inventada muitos anos depois pelos evangelistas Mateus e Lucas. Bom, o livro citado acima dá boas explicações sobre tudo isso. Compre o livro e leia, para saber mais a respeito. Hoje mesmo, quando abri a página do UOL notícias, havia um link para um texto dando conta de um novo livro cujo título é: Como Jesus se tornou Deus? de Bart Ehrrman que fala exatamente do mesmo assunto tratado até aqui. Não o li, mas pela resenha percebo as muitas semelhanças.

Até na educação podemos registrar a dificuldade das pessoas em lidar com o abstrato. Vale citar Jean Piaget aqui e sua teoria de aprendizagem baseada no que ele chamou de “estágios de aprendizagem”. Adivinhe! O estágio onde o indivíduo conseguirá abstrair é o último. Lecionei em várias escolas teológicas e senti na pele a dificuldade dos alunos em abstrair. A maioria dos conceitos bíblicos são abstratos e, praticamente, a única interpretação possível dos textos bíblicos é a metafísica.

Os tais textos inventados por Mateus e Lucas sobre o nascimento de Jesus, conforme descrevem Borg e Crossan, seriam parábolas, utilizadas didaticamente para representar um conceito teológico abstrato. A ideia foi dada pelo próprio Jesus que usou desse recurso inúmeras vezes em seus discursos e/ou ensinamentos para se fazer entendido, independente delas serem factuais ou não. Evidentemente, as pessoas de nossos tempos modernos tendem a ter grande dificuldade em lidar com temas que exigem abstração. São todos “Tomés” querendo ver para crer. “Só acredito no que vejo”, vociferam. Acho que eles só acreditam no amanhã quando já é hoje, nunca antes. Provavelmente estão todos destituídos do passado, afinal não podem tocar nele. Mas é preciso misericórdia para lidar com gente assim e não é fácil.

Como ensinou o autor da carta aos Hebreus 11:01: “A fé é o firme fundamento (concreto) das coisas (abstratas) que esperamos”.

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