A Gruta do Lou

Domingo de Ramos na Gruta

Domingo de Ramos

Não sei quantos lembram, mas no último dia 03 de março passado, iniciei uma série de posts sob o Título: “Quaresma”. Em princípio a ideia era escrever sobre o período de quarenta dias sucessor ao carnaval e antecessor à dita Semana Santa, onde celebra-se a famosa “Paixão de Cristo“.

Bom, após o primeiro post, aparentemente, não aconteceu mais nada. A série pretendia conter quarenta posts, relativos a cada dia da Quaresma, tomando por base o texto bíblico do evangelho de Marcos.

Mas esse plano foi para a gaveta do arquivo onde são guardados os planos não implementados antes de seu destino final, o cesto do lixo.

Aconteceu, ao consultar a agenda, perceber a incrível coincidência das datas. Todo mundo sabe que a cada ano, a Semana Santa cai em um período diferente entre março e abril. Mas esse ano as datas da Paixão de Cristo batem exatamente com as datas da Paixão do Thomas.

Calma, antes de pensar que pirei de vez ou assumi ser de fato um herege, deixe-me tomar emprestado um dado do livro “A Última Semana” do

English: Marcus Borg speaking in Mansfield Col...
English: Marcus Borg speaking in Mansfield College chapel. (Photo credit: Wikipedia)

Marcus Borg, aliás esse livro deverá nos acompanhar ao longo dos próximos sete dias e/ou sete posts; é o seguinte: “Paixão vem da palavra latina ‘passio’ que significa Sofrimento.

Sendo assim, você já deve ter percebido porque a quatro dias venho insistindo em relatar a saga vivida por meu filho no ano passado e, como todo mundo já sabe, culminou com seu falecimento, na madrugada do dia 20 de abril.

Muitas vezes, enquanto lia e/ou estudava a bíblia, pai que sou, me pegava preocupado com Deus pai. É verdade, sim, especialmente durante a tragédia e sofrimento da chamada Semana Santa. Afinal, o alvo daquela saga foi o Filho de Deus. Certo?

Ficava imaginando como o velhinho de barbas branquinhas devia ter sofrido e, embora pudesse parar aquilo, poder não lhe faltava, precisava deixar tudo acontecer sem intervir.

O futuro da raça humana e de todo o projeto divino estava incluso naqueles acontecimentos, segundo os melhores e principais teólogos da história da igreja cristã. Entretanto, por mais que me esforçasse em sentir o que aquele Pai sentiu, sabia o óbvio, não estava chegando nem perto.

Na noite em que orei ao lado daquela cama no hotel e tive uma crise de choro, pela primeira vez senti algo inusitado para mim, uma dor no coração, não na carne, mas no espírito, que jamais poderia imaginar existir.

Naquela hora não soube identificar, mas hoje sei que Deus me permitiu sentir o que ele sentiu na Semana Santa da Paixão do Filho Dele, durante a semana da Paixão do meu próprio filho.

O Thomas não morreu para isso, mas na inevitabilidade da morte dele, Deus me deu essa graça. Agora cabe-me viver por ela, pois ela salvou a minha vida, embora tenha que vive-la sem meu filho.

De novo, estou sentindo as dores de Deus e será assim enquanto viver, como acontece com Deus, obviamente. Certamente, estou sentindo essas dores em muitos megatons abaixo da experiência divina, apenas o suficiente para entender o que é preciso.

Quando o Thomas viajou para aquele hospital, no dia 9 de abril, ele estava seguindo Jesus em sua última viagem a Jerusalém. Jesus entrou pelo portão da cidade no chamado Domingo de Ramos.

Hoje, dia 13 de abril faz um ano que ao entrarmos na UTI Cardiológica do Hospital Beneficência em São Paulo, no horário da primeira visita daquele dia, fomos informados que haviam retirado os tubos de respiração mecânica dele, mas devido a agitação ocorrida nele após esse procedimento, eles haviam decidido entubá-lo novamente. Essa foi a última tentativa. Depois disso os tubos só foram retirados após o óbito.

Durante a segunda cirurgia, realizada no Hospital São Paulo, no período de recuperação na UTI, alguns dos profissionais que mais trabalharam com o Thomas foram os fisioterapeutas.

Quando me informaram da extubação mal sucedida, lembrei-me na hora do Dr. Barbero, do INCOR. Para esses procedimentos é preciso competência somada a muita coragem.

Durante todo o período na UTI da Beneficência, nunca vimos um único fisioterapeuta trabalhando com nosso filho, sobretudo no procedimento da extubação, quando é preciso ajudar muito o paciente a expulsar toda a secreção represada pela presença dos tubos nas vias respiratórias do paciente, se não me engano.

Disse mais o Dr. Barbero, os fisioterapeutas do INCOR também representavam grande parte do sucesso nas recuperações por lá.

O Domingo de Ramos do Thomas aconteceu no dia 13 de abril de 2013, pois ali teve início a Paixão dele. Até ali, ele havia chegado a Jerusalém, apenas, mas agora tinha início seu calvário, exatamente como aconteceu a Jesus, Filho de Deus, guardadas todas as devidas proporções.

O Borg nos lembra ainda do texto de Zacarias, profecia sobre a entrada do rei em Jerusalém: “Ele cortará a carruagem de Efraim e o cavalo de Jerusalém, e o arco de guerra será cortado e ele anunciará a Paz entre as nações. (9:10).

O Thomas não era rei e nós nunca tivemos essa pretensão, no máximo ele foi um príncipe para nós, seus familiares e amigos, pois nobreza não lhe faltava.

Ele não veio anunciar a Paz entre as nações, mas nos lembrar que essa era e é a grande missão de Jesus de Nazaré. Você não pode imaginar como me sinto depois dessa identificação.

No livro “Zelota” de Reza Aslan, o autor argumenta com muita propriedade sobre uma provável postura guerrilheira de Jesus. Mas não creio nisso dessa forma, apesar da excelência do livro e do texto do Reza.

Penso com todas as minhas forças em não embarcar na onda de violência que se aproxima em nosso planeta. Decifro a metáfora duramente representada por meu filho como uma tremenda e contundente mensagem de Deus para todos nós.

Falo da natureza pacifica da missão do Cristo: Ele veio anunciar a Paz entre as nações e a nós não cabe outra missão, se não seguir a cruz dele. Deus não faria um anuncio tão dramático se o momento não o requeresse.

Ao contrário do que possam dizer as religiões e seus sacerdotes, a Quaresma não deveria ser um tempo para nos flagelar provocando nossa própria penitência em jejuns e orações intermináveis.

Talvez um abstenção respeitosa possa ser feita por ocasião do dia em que Jesus teria morrido na cruz do calvário, somente.

Pelo menos para mim, que estava disposto a experimentar uma Quaresma religiosa, cheia de sacrifícios auto impostos, para observar meus sentimentos diante dela, o que aconteceu, na verdade, foi que o conjunto das lembranças dos acontecimentos ocorridos há um ano com meu filho está sendo a penitência e será enquanto eu viver, pois ele se foi exatamente na Semana Santa e em consequência de uma enorme Paixão.

Após a visita da noite, sem outras alterações importante no quadro, naquele dia 13, rumamos para a casa da minha mãe, bem distante do hospital, na Vila Mascote, aliás, perto de onde estamos morando agora, onde passamos aquela noite.

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