A Gruta do Lou

Dissidência

Em um mundo de competição, a maior parte dos homens não gosta de rivais, de não conformistas, de dissidentes e de opositores.

M. Gandhi

Quinhentos anos antes de Cristo, Sócrates foi obrigado a beber sicuta por ter ousado discordar. Jesus encantou muitos, era consistente e, sobretudo, se opunha ao status quó. Difícil dizer qual dessas razões o levou para a cruz. Mas os homens da época o temiam e concordavam (romanos, sacerdotes judeus, comerciantes, seguidores e povo em geral) em um ponto, era melhor eliminá-lo.

Não sei quando comecei a minha senda dissidente. Não me lembro de ter pensado a respeito e ter tomado a decisão: serei um rebelde. Simplesmente, me via do lado contrário a cada situação. Aos poucos, descobri a verdadeira intenção na maioria das demandas: manter o curso, afastar as ameaçadoras presenças capazes de revelar a insegurança ou inconsistência dos mandantes. Rapidamente, perdi o medo das autoridades de minha vida. A violência, a tortura, a prisão e até mesmo a morte, pouco representam para alguém que não tem muito a perder.

Minha dificuldade nos tempos de terapia começava com o padrão de normalidade. Sempre que surgia a palavra normal, eu questionava. O que é normal? Quem disse isso? Quando foi decidido esse padrão e por quem? Fiz terapia por mais de dez anos e nunca tive alta. Meu terapeuta desistiu de mim. Provavelmente me considerou um caso perdido. Um dissidente irrecuperável. Seria necessário sucumbir à “normalidade” para ser considerado apto.

Sinto-me na obrigação de alertar a todos. Não façam o que eu fiz com a minha vida. Eu não gostaria de vivê-la outra vez. Não sou como a maioria dos meus amigos e irmãos. Arrependo-me de quase tudo que fiz. Se me fosse dada a oportunidade de viver outra vez, faria tudo diferente.

Se você é jovem leia com atenção e se não é também. O que segue foi resultado da experiência de uma vida desperdiçada.

Para inicio de conversa, os filhos devem acatar todas as palavras e decisões de seus pais sem discutir ou contestar. Caso algo pareça estranho, por exemplo, uma atitude violenta do papai ou uma escapadinha da mamãe com o dono do posto de gasolina (ou vice-versa) não se deixe enganar por vozes diabólicas que surjam em sua mente. Seu dever é aceitar e nunca rebelar-se. Pais sempre têm razão. Encarem seus pais como santos que Deus dispôs em sua vida para orientá-lo em direção à vitória, como eles mesmos.

Cumpra seu programa escolar sendo um aluno diligente e bonzinho. Faça todos os deveres de casa, mesmo que eles lhe tirem a oportunidade de divertir-se, brincar ou namorar. Receba tudo o que seus professores disserem como a mais elevada sapiência, mesmo quando algo lhe soar estranho. Professores não mentem e jamais erram. Faça todas as provas e não aceite menos que a nota máxima. Lembre continuadamente que seu lugar é ao lado dos vencedores e eles são formados pelos alunos de nota maior. Esse tempo passa rápido. Em apenas quinze ou vinte anos você já terá o seu diploma de faculdade ou, se preferir sua graduação. Se quiser fazer pós, mestrado e doutorado precisará mais uns dez anos, apenas. Mas não titubeie. Faça tudo que puder. Quando terminar já terá seus quarenta anos e muito tempo e vigor de vida pela frente para desfrutar de tudo o que aprendeu.

No trabalho, a regra é dedicação, sangue de barata e muito jogo de cintura. Qualquer pessoa em cargo superior merece ser adulada e nunca contestada. Entre mudo e sai calado. Só abra a boca para falar o indispensável. Não existem colegas de trabalho. Estão todos envolvidos em uma grande competição. A pessoa a seu lado é seu maior rival e, por tanto, inimiga. Ah! A idéia de partir para a iniciativa privada é de procedência maligna. Só existem os empregados, deles é o reino da terra. Aceite, concorde e alinhe-se. Faça dessas palavras a sua filosofia de vida.

Recorde todas as manhãs o que a bíblia ensina sobre as autoridades: Elas foram constituídas por Deus. Não existem ditadores maus ou governantes equivocados e mal intencionados. Isso é intriga da dissidência. Sempre há os descontentes. Na verdade eles formam o grupo dos perdedores. Nosso lugar é ao lado da situação, sempre. A esses devemos dar nosso voto e apoio irrestrito.

Preferencialmente, não case. Se casar não tenha filhos. Divorcie sempre. Apareceu uma nova oportunidade, ária. Se você é mulher, não aceite, em hipótese alguma, o ridículo papel de esposa mãe. Não abra mão de trabalhar e fazer sexo com seu chefe ou colega de trabalho, quando tiver vontade. Se seu marido quiser filhos, ele que os tenha com a vizinha. Comida em casa, só se for congelada e cada um esquentando a sua. Para isso servem os fornos microndas. Quem lava roupa é a 5asec. Faça muitas cirurgias plásticas. Gordas, feias e velhas não são aceitas como esposas. Se você é homem, nunca fique em casa durante o dia, mesmo nos fins de semana. Uma ou mais amantes é imprescindível para um casamento feliz. Se perder seu emprego, volte para casa e peça o divórcio, sem apelações. Mantenha uma conta secreta em algum banco de um paraíso fiscal. Você nunca deve suspeitar da fidelidade de sua esposa, mesmo quando ela for infiel. Se você ficar careca e engordar, divorcie-se. Baixinhos, feios e com aquilo pequeno não devem casar em hipótese nenhuma, nem com outro homem. Siga o exemplo de Nietzche, Fernando Pessoa e o John Stott, para não citar o Mestre.

Eu fiz tudo errado. Casei, tive filhos, não divorciei, trabalhei por conta própria, me formei, sem nunca ter sido bom aluno, contestei, rebelei-me e discordei. Enfim, sou um grande perdedor.

Já fiz minha fama de dissidente incorrigível. Não tenho trabalho e quem queira trabalhar comigo. E não caia na tentação de tentar trabalhar comigo. A encrenca é inevitável.

Anote as palavras de Gandhi, ai no começo. Não tente ser diferente. Seja uma ovelha do rebanho, sempre com o rebanho. Siga seu pastor, onde quer que ele as leve. Ele sempre procura pastos verdejantes para você, confie.

Quanto a mim, só me resta continuar contestando e fazendo jus à minha fama. Duro, incompreendido, sempre com o nome nas listas dos devedores e sem coragem de ser mais rebelde, do tipo que foge para uma praia distante e não volta nunca mais, pelo menos, não vivo.

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