A Gruta do Lou

Disponibilidade

 

O que aprendi durante a vida? Sinto que não consegui assumir o comando.Não tinha disponibilidade.

Fui levado. Os ventos me jogaram para lá, depois para cá e assim eu vivi. Estava onde não queria estar. Não fazia o que gostaria de fazer, mas tudo o que não queria, isso fazia . Minhas escolhas foram aceitações, conformações ao inevitável. Sempre havia alguém me dizendo o que era melhor fazer.

Sidarta deixou tudo e achou a árvore. A sombra era boa, grande, refrescante e havia o rio. Ficou ali, dias e dias, observando. Depois conheceu uma mulher que lhe deu algo para comer e, finalmente, conheceu um barqueiro. Através dessas experiências, a vida o ensinou a meditar, jejuar e esperar. O que a vida ensinou-me?

A Bíblia diz muitas coisas, mas não sei o que ela diz. Pior ainda, são os interpretes do livro que não sabem o que quer dizer. Olhei as estrelas, ainda criança. Na praia, esperei o sol nascer e observei-o enquanto punha-se acima da linha do horizonte. Tudo era belo, mas não aprendi nada.

Observei as pessoas. Algumas trabalharam muito, durante toda a vida e, um belo dia, a vida acabou. Outras viveram sonhando com outra vida, enquanto a vida real esmagava-lhes sem piedade. Não vi nisso, nada que valesse a pena absorver da vida.

Se alguém me perguntar o que é melhor fazer, direi: silêncio. Não saí em busca de aprender. Em meu caminho não há a árvore de Sidarta.

Jesus disse: Vejam como crescem os lírios do campo.

Havia umas roseiras de rosas brancas no jardim da casa onde morávamos, antes da atual. Uma delas estava morrendo. Fazia muito calor naqueles dias. Observava-a, todas as noites. Reguei-a com água da torneira e senti ela me agradecer, sem euforia. Na noite seguinte, o calor continuava e senti sua secura.

Tive uma ideia. Pequei a garrafa de água gelada na geladeira e derramei um pouco sobre ela. Sorriu e estremeceu. Senti-a pedindo mais. Derramei sobre ela todo o líquido gelado da garrafa. Ela agradeceu, eufórica. Repeti o gesto mais três ou quatro noites. Ela reagiu e viveu. Sua flor foi a mais linda que já vi. O que aprendi?

Quando a roseira precisou, eu estava lá, disponível.

 

 

10 thoughts on “Disponibilidade

  1. gostei…
    sabe, acho que muitas vezes, muitas mesmo, a “presença” faz toda a diferença.
    se importar, se envolver.
    isso é o que marca!
    beijos,
    alê

  2. ” Quando os nazistas vieram caçar os comunistas, eu fiquei calado; eu não era comunista. Quando prenderam os cocial-democratas, permaneci em silêncio; eu não era social-democrata. Quando vieram em busca dos sindicalistas eu não disse nada; eu não era sindicalista. Quando vieram buscar os judeus, não pronunciei palavra; eu não era judeu. Quando vieram à minha procura, não restava ningém pra dizer nada.” (Pastor Martin Niemöller)

    Abraço

  3. Pingback: Lou Mello
  4. Para aprender, é preciso se envolver…
    Quando nos envolvemos, cativamos…
    Quando cativamos,nos tornamos responsáveis…
    Mas,ficar responsável,também é um aprendizado…

    Você é responsável pelo que cativas… Conheci um certo pequeno príncipe que vivia repetindo essa frase. 🙂

  5. Sabe Lou, lendo o seu Post chorei. Fui tão disponível pra tantas coisas, pra tantas roseiras, mas houve um tempo em minha vida, quando algumas roseiras muito queridas precisaram de mim, eu não estava lá… então elas não deram flores. Hoje o tempo se encarregou de mudar as coisas, e devagar os botões estão se abrindo…

    Sempre, também será tempo.

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