A Gruta do Lou

Descobri onde está Deus, o amor e eu mesmo

Muito se fala do amor, nos dias atuais. No Twitter, há um cem números de pessoas twitando pequenas mensagens sobre o amor e Deus, o dia todo e, até eu, ando postando as minhas mensagens de amor e sobre o divino, por lá. Acho que toda essa parafernália tecnológica à nossa volta, essas milhares de vidas sendo ceifadas todos os dias, arrastadas por impetuosas águas buscando desesperadas seu caminho rumo ao mar, em todos os cantos do planeta; ou pelas revoltas de povos insatisfeitos com seus governantes e com consigo mesmos; as guerras sempre presentes; a violência urbana; essa pressão incontrolável e sabotadora de nossas mentes buscando nos convencer de alguma futura e próxima catástrofe com nosso planeta, alardeando o aquecimento global, um tal buraco na camada de ozônio, a derrubada da última grande floresta, que por sinal está no mapa brasileiro e o significativo mal causado pelo uso de desodorantes em spray, tudo isso nos remete de volta ao amor e, consequentemente, a Deus.

Quando empreendi viagem pelo oriente distante, onde um de nossos alvos era o Tibete, não o falso que está na Índia e abriga (ou esconde) o Dalai Lama, mas o verdadeiro, proibido pela China, na verdade, viajei em busca de mim mesmo e descobri que havia perdido o amor e a Deus, ou talvez nunca os tivesse conhecido. Estávamos na Índia, nosso grupo, embora pequeno, era formado de pessoas de vários continentes, América do Sul e do Norte, Austrália, Europa, Oriente Médio e Ásia. Um de nossos guias era um dos chamados mestres e seu nome era Jost, só para exemplificar, diziam que o cara tinha mais de trezentos anos de vida. Durante o tempo que estivemos juntos, fora os grandes papos, certos sumiços e aparições dele me incomodavam, como se ele tivesse algum poder transcendental.

Não conseguimos autorização, que equivaleriam a vistos de entrada, para viajar para Lhasa de avião. O representante chinês na índia, encarregado de fornecer esses documentos, era conhecido por sua rigidez nisso e não abriu exceção para nós. Isso nos desanimou muito, pessoalmente, senti o gosto indicativo de que nossa viagem ao Tibet, gorara. Mas Jost tratou de nos motivar, preparou um jantar especial, tipo banquete, à luz de lampiões e tudo, para comunicar que não deveríamos desanimar pois haviam outras opções (desconhecidas de todos nós) e isso era só o começo das lutas, mas vencê-las faria muito bem para cada um de nós. O evento se estendeu, depois de tomarmos um pouco mais vinho do que seria o normal, cantamos, dançamos e nos divertimos muito. Acho que cheguei a esquecer, por aqueles instantes, a frustração por não ter conseguido as autorizações.

Não sei direito a que horas cai na cama, certo é que dormi o sono dos justos, sem acordar, dormi direto, pesado e com um grande sonho, que só terminou quando acordei sendo sacudido por Jost.

– Acorde, acorde, vamos, tenho grandes notícias. Disse com um sorriso maroto no canto do lábio superior.

Custei um pouco a recuperar a consciência, mas lembro que a primeira coisa que pensei foi em como aquele homem teria entrado no meu quarto. Mas ele não me deu tempo para aprofundar minha desconfiança e foi logo explicando a razão de seu bom humor, aliás, em mais de três meses juntos eu nunca o vi com outro humor.

– Consegui um meio de levá-los até Potala em segurança, mas precisamos andar rápido, disse com sua voz grave e firme.

Saltei da cama e corri para tomar meu banho e me preparar, enquanto ele me explicava o plano.

– Há um grupo tibetano na cidade, vieram buscar suprimentos, eles viajam a pé pelas montanhas, daqui até Potala serão vinte e um dias de viagem a pé pelas montanhas, andando durante o dia todo e descansando à noite. Mas eles são únicos nisso, nem os chineses conseguem acompanhá-los e preferem fazer vistas grossas aos movimentos desses grupos, portanto, a viagem será dura, mas muito segura, enquanto estiverem com eles. Suspeito que vocês acabarão gostando de ter viajado assim.

Fiquei bestificado, cheio de perguntas rondando a mente, mas o guia sumiu com a desculpa de que precisava preparar tudo para partirmos logo e não causarmos preocupações extras aos nossos condutores, enquanto terminava meu banho e me deixou falando sozinho. Antes de deixar meu quarto, constatei que a porta não fora aberta e continuava trancada, então como aquele homem entrara e saíra do meu quarto?

Nos reunimos no restaurante do hotel onde Jost nos deu quinze minutos para nosso café da manhã, recomendando que nos alimentássemos bem, pois iríamos precisar muito disso para enfrentarmos a viagem que teríamos pela frente. Encontramos os tibetanos próximo à uma das saídas da cidade, eles estavam abaixados, todos ultra vestidos com casacos de pele de animal, tipo feito em casa, mas muito robustos aparentemente. De longe, pareciam mais uma manda de búfalos deitados. Quando chegamos perto deles, não consegui deixar de reparar que todos estavam sorrindo e percebi que aquilo era um gesto de boas vindas. Fiquei feliz e me senti amado, naquele momento.

A primeira coisa que o grupo fez foi cuidar de nossa vestimenta, fornecendo-nos casacos de pele de Lhama pesados, mas não a ponto de serem insuportáveis, chapéus e calçados mais adequados para o nosso percurso gelado e cheio de inesperados obstáculos, não para eles, mas para nós. Confesso que trocar minha bota de alpinista (embora nunca tenha praticado alpinismo) toda planejada para não escorregar e suportar as mais baixas temperaturas, não foi muito fácil, mas cedi a bem do clima geral, pensando comigo que, na primeira oportunidade ou necessidade, minhas botas voltariam aos meus lindo pezinhos. Só que isso nunca aconteceu e nem cheguei a me lembrar delas durante nossa viagem, pois o calçado que eles me forneceram mostrou-se, incrivelmente, apropriado. Durante todo o nosso percurso, nenhuma vez notei neles qualquer reação de descontrole, desanimo ou preguiça. A obstinação pacifica e tranqüila deles era provocante e intrigante. Por mais que nos esforçássemos com nossas diferenças culturais, em momento algum, conseguimos alterar o humos daquelas pessoas, nem das mulheres e adolescentes que faziam parte daquele grupo, para surpresa nossa.

Foi nessa viagem que aprendi uma das mais importantes lições da minha vida. Sempre que terminávamos a jornada diária da viagem, parávamos em lugares estratégicos, não aleatórios, pois os sinais de que esses pontos eram usados constantemente estavam por toda parte. Ao longo de todo percurso, eles sabiam exatamente onde parar, conheciam aquilo tudo como a palma de suas mãos. Não duvido que até os adolescentes eram capazes de empreender aquela viagem sozinhos. Numa dessas paradas, sentei-me com uma família, pai, mãe e filho, um rapaz de quatorze anos. Eles me serviram uma caneca de chá de manteiga derretida estupidamente quente e começamos uma conversa em inglês, o pai falava muito bem, a mãe tinha mais dificuldade e o filho só sabia algumas palavras.

– Por que você está indo ao Tibete? Perguntaram.

Respondi que buscava a conhecer melhor a Deus, ao amor e a mim mesmo e esperava aprender com eles mais sobre essas coisas, afinal tinham boa reputação nessas questões. Embora fosse a resposta mais honesta à aquela pergunta, meu objetivo secreto era agradá-los, afinal não tinha nenhuma chance de desagradá-los naquela altura do campeonato. Então veio a resposta bombástica e foi a mãe quem falou:

– Ficamos felizes que vocês venham nos visitar no Tibete, isso nos faz muito bem, principalmente depois que os chineses resolveram nos governar e proibir nossas saídas e a entrada de estrangeiros em nosso país, mas para você alcançar esses objetivos você não precisava vir tão longe, arriscar-se tanto e, certamente, gastar uma quantia grande de dinheiro. Nunca fui à América, muito menos ao Brasil, mas posso imaginar quão distante você está de lá.

– Desculpe, mas por que você está me dizendo que não precisava vir ao Tibete para alcançar esses meus objetivos? Perguntei, já meio ressabiado.

– Por que Deus, o amor e conhecer-se estão e sempre estiveram com você, onde quer que você esteve. Acredito que você tenha dúvidas e desconheça alguns aspectos disso tudo, mas isso só precisa de alguns pequenos empurrões para você resolver. Falou depois de sorrirem, quase rir, entre eles, e continuou.

– Para os tibetanos, amar é ajudar as pessoas a descobrirem Deus, o amor e elas próprias em si mesmas. Completou.

Nesse momento ela estava olhando profundamente nos meus olhos e acho que estava vendo a minha alma.

Lembro que pensei uma coisa engraçada, pois aquela frase me lembrou Galileu. Eu estava com vinte e seis anos e acabara de formar em Educação Física. Havia decidido utilizar uma máxima socrática que o cientista excomungado costumava recitar, como principio e base de meu trabalho como professor que dizia: “Não posso ensinar nada a ninguém, posso no máximo, ajudar as pessoas a descobrir as coisas dentro delas próprias.”

Fiquei um pouco chateado, mais uma vez, com a minha burrice, por não ter aplicado as palavras de Galileu de maneira mais ampla. Estava na cara e não me dei conta, foi preciso andar tanto, literalmente falando, gastar tanto para descobrir algo tão evidente. Embora aquela viagem valeu cada minuto, cada centavo e cada metro dela, como nenhuma outra que tenha feito na vida. E foi assim que me certifiquei que Galileu passou pelo Tibete, em algum momento de sua vida, também. Acho que ele tinha um lado burrinho, também.

Se puder, vá conhecer o Tibete, você não se arrependerá, mas se seu problema for descobrir a Deus, o amor e a você próprio, não precisará dessa viagem nem do Twitter e os twiteiros que sobre o que falam não fazem a menor idéia, basta olhar para dentro de você mesmo e achará todas as suas respostas, como tenho encontrado as minhas.

Ah, quando chegamos em Potala, sabe quem foi a primeira pessoa a nos receber? Sim, ele mesmo, o Jost, nosso guia.



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4 thoughts on “Descobri onde está Deus, o amor e eu mesmo

  1. Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, e foi justamente num sonho, Ele me falou.

    Lou, talvez essa tenha cido uma mensagem do Tibete que o Raul tentou transmitir, quando compos à música Gita, com Paulo Coelho.

  2. É interessante como esse pessoal do oriente está anos-luz na nossa frente no quesito espiritualidade. Admiro como a sabedoria deles é algo do cotidiano, está ali, na vivência.
    Valeu Lou, mais uma vez por nos iluminar com suas histórias do campo.

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