A Gruta do Lou

Descalçados

descalços
descalços


“Calçados com estes sapatos, fazemos nossa caminhada pela vida. O criador terá de nos dizer de tanto em tanto: ‘Descalça teus sapatos porque o chão que pisas é sagrado'”.

Nilton Bonder em Tirando os Sapatos

Não sei se o Paulo Brabo resolveu tirar os sapatos e andar por aí descalço ou só de sandálias, por se dar conta que estava pisando em solo sagrado, para todo lado. O fato é que os editores do livro dele “Em Seis Passos o que faria Jesus”, em castelhano, sacaram esse detalhe, aliás, tão evidente, mas os editores em língua portuguesa não perceberam, para azar nosso. Suspeito que sim, ou seja, o Brabo teria plena consciência da missão profética dele e, para melhor cumpri-la, precisa despojar-se para ser capaz de ouvir a Deus e às outras pessoas. Só há uma forma de escutar, é quando nos descalçamos e o fazemos incondicionalmente, sem reservas ou preconceitos e concentramos 100% de atenção em nosso interlocutor.

Isso torna-se engraçado quando pensamos no Brabo e toda essa sua fidelidade em relação à missão, literalmente descalço para deixar claro sua disposição de considerar todos como em solo sagrado, provavelmente, e de outro lado os caras que se arvoraram em criticá-lo, ao invés de ouvi-lo incondicionalmente ou de se descalçarem. Pior é que os opositores não conseguem perceber quão desproporcional é a atitude deles, nesse caso.

Para mim, a beleza da convivência é o respeito mutuo apesar das diferenças, sem isso vem a magoa, o confronto e no fim separação. Quem recebe o crachá de profeta fica compulsoriamente alijado da possibilidade de pisar o solo sagrado calçado. Quando entramos em solo habitado por Deus, não podemos trazer nada conosco, nem nosso Iphonezinho querido e muito menos nossas crenças e valores infelizes.

A questão é: Como tolerar diferenças entre semelhantes? Ouvir incondicionalmente é uma das opções. Essa solicitação de Deus a Moisés para ele tirar as sandálias, a meu ver, reveste-se de extrema importância, tanto no nosso relacionamento com Deus, quanto com as outras pessoas. A ideia é descalçar-se em todas as ocasiões de contato.

Faça um breve exercício de pensamento, imagine, ainda que só por um instante, que todas as pessoas seriam criaturas de Deus, independente da cor da pele, das opções religiosas, do extrato social, do gênero, mesmo os opcionais, etc. Sendo assim, o solo que elas pisam, logicamente, é sagrado e isso sempre requereria descalçar-se, despojando-se do mundo material, ao adentrá-lo. Já imaginou se todos tratassem os outros como deuses e o chão que pisam como solo sagrado? Ou seria exatamente essa a ideia de Deus para nossos relacionamentos? Sem falar que viver implica em relacionar-se. Se não houver ninguém por perto, ainda sobrará nosso relacionamento com o Criador.

Só para não ser incoerente, estou escrevendo esse texto descalço. Não sei se teria a mesma coragem e despojamento do Brabo em voltar a andar sem calçados, em todas as situações. Quando era adolescente, andei tanto descalço que acabei ferindo muito meus pés e isso requereu socorro médico. Depois do susto, recebi ordem expressa de nunca mais andar descalço. Meus pais não liam a bíblia e meu pai, particularmente, tinha um grande trauma em relação a isso. Nos tempos de menino, ele só calçou seus pés quando foi para a escola e, naquela época, andar calçado era sinônimo de status. Talvez ainda seja. Esses costumes preconizados pelos interesses de mercado só servem para nos afastar dessas verdades tão necessárias e importantes para nossa sobrevivência, como se elas não existissem.

Ouvir incondicionalmente, considerar a todos como deuses e o solo que pisam como sagrado. Isso tudo implica em tirar os nossos sapatos e esse será o nosso melhor legado.

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Reparem nos pés de todos eles.


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