Denúncias da consciência

014_Gary-Grant_W Gary Grant

“Eis o que seria melhor mesmo: que eu próprio acreditasse, um pouco que fosse, no que acabo de escrever. Juro-vos, meus senhores, que não creio numa só palavrinha de tudo quanto rabisquei aqui! Isto é, talvez eu creia, mas, ao mesmo tempo, sem saber por que, sinto e suspeito estar mentindo como um desalmado.”

Cópia e adaptação de F. Dostoievski em Memórias do Subsolo.

Esse senhor publicou essa obra em 1864 e não sei como fez para clonar minhas idéias, posto que vivo quase um século e meio depois dele. Ele mudou nomes, apenas. O que ele chama de subsolo eu chamo de gruta.

 Às vezes, quando leio meus textos, tenho a sensação de nunca tê-los lido anteriormente, ou serem obra de algum outro autor. Inclusive chego a fazer severas críticas às bobagens lidas ou a perguntar-me por que não as vivo, isso quando não aparece um comentarista mais imprudente para me importunar com essa questão.

A questão está relacionada às impossibilidades. Não posso me dar ao luxo de não escrever nada. Alguém perguntará: Você não consegue solucionar sua vida e escreve soluções complicadas para as questões existenciais, usando de teologia e lógica? Sem falar como são inadequadas as suas propostas, quando não são heréticas. E por cima, fica esperando os apupos dos leitores. Menciona suas desventuras com um humor meio impróprio, mas engraçado com o objetivo de nos fazer acreditar estar seguro de si. Até pode estar sofrendo de verdade, mas dá a impressão de não respeitar seu sofrimento. No senhor há verdade, mas não há pureza; motivado pela pior das vaidades, traz sua verdade à luz, colocando-a aos olhos de todos, indiscriminadamente. Deve estar querendo dizer algo, mas por temor esconde sua verdade, pois, embora seu cérebro funcione, o seu coração está obscurecido pela perversão e sem coração puro não pode haver consciência plena. Sem falar em como és chato.

Claro que inventei essas suas palavras agora. Isso vem da Gruta, também. Claro que alguns mais crédulos pensam que chegarei a publicar e permitir-lhes ler tudo isso. E eis mais um problema para mim: para que me dirijo a vocês como leitores de verdade? Confissões como as que pretendo começar a expor não se imprimem e não se dão a ler.

O próprio Nietzsche, ao lê-lo pela primeira vez, escreveu a um amigo: “ A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

lousign

Author: Lou

1 thought on “Denúncias da consciência

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *