A Gruta do Lou

De fé em fé


“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego, visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá pela fé.” Romanos 1:16 e 17

Dia desses, um pastor amigo encomendou um livro sobre a fé e, embora ele tenha me passado (verbalmente) seu roteiro, comecei a pensar no assunto, mais demoradamente. De saída, lembrei desses versículos e fui conferir na minha bíblia NVI e, pasmem, não estavam mais lá, quero dizer, estão, mas não do jeito que deviam estar. Sabe, tenho um segredo e revelarei para você agora: Tenho mania de checar o texto bíblico vertido para português com o texto original, não importa a versão. Estou falando do Novo Testamento, pois não tenho originais do AT, nem mesmo uma reles septuaginta. No caso citado o texto original diz: de fé em fé (sse isso faz muita diferença.

Aprendi, logo no inicio da caminhada bíblica (Volney, isso te lembra algo?) que viver pela fé é um exercício. Em outras palavras, a fé carece de ser exercitada. Sei que a maioria já ouviu isso, mas tenho a sensação de que o verdadeiro significado ficou para trás, em alguma Lan House da vida. Esses dias, lembrei o significado orignal da Páscoa; contido lá em Êxodo 12, em um texto espetacular que, considerando o volume de manifestações via comentários, só o Rubinho, Juber e eu tivemos o privilégio de verificar, enquanto o resto do pessoal se fartava em chocolates; e de como o povo foi violentamente retirado de um sistema capitalista neoliberal e introduzido em uma nova proposta econômica, a saber: a economia da fé. Nesse ponto, voltamos à questão do exercício da fé, que a NVI tentou subtrair-nos.

No deserto, o povo não foi aconselhado a arranjar um emprego, como meus irmãos em cristo, conspirados aos meus parentes idólatras, vivem me aconselhando. Irresponsavelmente, contrariando os maiores psicopedagogos da paróquia e os chineses com a história da varinha com anzol, Deus informou a todos que iria suprir suas necessidades, começando pela comida. Ao povo caberia viver pela fé, no caso, esperar que chovesse maná e codornizes a cada novo dia e, depois da chuva estranha, apanhar aqueles alimentos sem cair na tentação (falta de fé) de guardar qualquer resto para o dia seguinte. Quem não gostou nadica dessa ultima parte foram os fabricantes de freezers e geladeiras, da época.

Eu não teria problemas para exercitar minha fé, afinal faço isso há anos,  mas segundo o modelo econômico de Deus, o maná só choverá amanhã, nem mais nem menos. Agora, a minha vizinha, com certeza, trataria de juntar maná e codornizes, não apenas para o dia seguinte, mas para o resto do ano, argumentando que Maria (a mulher de Deus) viria com aquela conversa mole e manipulativa, no recôndito do lar divino, que o povo não presta, vive construindo ídolos de barro e ouro, vituperando o templo, etc., e, no dia seguinte, não haveria “niente pio” para comer, ainda mais, com todos os maridos da rua desempregados, graças as insanidades de Moisés, Arão e o chefe deles.

Olha, Deus estava começando a ensinar o povo a exercitar sua fé, certamente, depois da comida, o Divino incluiria novos itens na história, de tempos em tempos. Penso que assim devem fazer todos os que tiverem coragem suficiente para andar segundo a Palavra de Deus. Incluir novos exercícios de fé, a cada novo dia.

Em minhas andanças recentes em busca de subsídios para o livro do Pastor amigo que escreverei, resolvi dormir mais tarde ainda, e fiquei assistindo ao programa do Malafaya, na noite em que o pregador era o Murdock, que figura! Não viraria as costas para esse cara, nem por reza brava. Mas a conversa me interessou muitíssimo, o pregador estava tentando convencer os incautos assistentes, como eu no caso, a dar uma oferta especial de R$ 1.000,00, cada , para o coitadinho do Malafaya cumprir a missão evangelística dele  Eles pretendiam convencer mil pessoas a dar essa ofertazinha, em uma primeira estocada. Olha, por pouco o cara não me convence, só não conseguiu porque não tinha o dinheiro, nem cartões que me possibilitassem fazer a oferta e, pior, sou macaco velho. Aliás, a Madonna é muito melhor que o Murdock, não só cantando e dançando, mas em captar recursos, pois ela esteve no Brasil dois dias e levantou doze milhões (de dólares), doados por três ou quatro empresários apenas. Sei que é tudo para o mal, mas eles usam a economia da fé ensinada por Deus, inegavelmente, só que em proveito próprio e devidamente deturpada.

Isso tudo levou-me a pensar, pô! Porque não posso fazer a mesma coisa, com a ligeira diferença que meus propósitos (sempre eles) são muito melhores do que os do Malafaya e seu amigo gringo com cara de mafioso russo, pelo menos é o que dizem batistas e presbiterianos. No meu caso, ofertas são utilizadas para pagar as contas da casa (aluguel, carro, luz, água, telefone, banda larga, comida, saúde, vestir, lazer, guardadas as devidas prioridades) e, se sobrar alguma coisa, tocar o Projeto Coração Valente. Pensei, se uns três ou quatro contribuintes desses de mil, que o Murdock queria fisgar, desviassem a ofertinha deles para o papai aqui, talvez até fossem mesmo abençoados por Deus. Todo mundo que me ajuda a viver segundo a economia da fé costuma experimentar isso, segundo os próprios. Sei que os leitores da Gruta não costumam ouvir ou muito menos ver Malafaya e Murdock e, dificilmente teriam o perfil esperado por eles, mas fica aí a idéia.

Voltando à questão de exercitar a fé, vivendo de fé em fé, creio que exigiria dos seus optantes, não deixar passar um dia sem exercício e, a cada nova experiência de fé, elas iriam tornando-se cada vez mais intensas e crescentes em importância e significado, até chegar ao ponto máximo, conforme o texto citado, ser justificado pelo evangelho, nessa prática de fé em fé, da fidelidade à fé. Então entrar no nível sonhado pelo imprudente e quase incrédulo apóstolo, ou seja, no patamar em que: “O Justo viverá pela fé”, exercício ensinado originalmente pelo profeta Habacuque, outro maluco irresponsável. Então, queremos ou não estabelecer um mundo mais justo, ou definitivamente justo? A receita é divina: De fé em fé.

9 thoughts on “De fé em fé

  1. O problema de se arrumar um emprego é o perigo de se perder a fé.

    Só há uma coisa a dizer: Não perca a fé!

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  4. A minha dúvida é: fé demais não cheira mal? O que, afinal é fé?

    Que eu saiba, o melhor filme do Steve Martin foi ridicularizado no Brasil por causa desse nome. Melhor seria “Salto de Fé”. Nos EUA e em muitos lugares, virou modelo para pregadores mal intencionados, mas a proposta do filme era boa e pretendia dar uma mostra da soberania de Deus, apesar desses caras e sua idéias pouco éticas. Salvo engano, claro.
    Quanto a definição de fé é fácil: fé é aquilo que todas as pessoas curadas por Jesus tinham. A tua fé te salvou.
    .
    🙂

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