A Gruta do Lou

Cristãos covardes ou comprometidos?


Saí da igreja, não sou mais evangélico e agora prometo seguir a Jesus Cristo, incondicionalmente.

Faz sentido isso para você? Para mim não faz, tampouco. Mas está na moda e com isso não se brinca. Desde a adolescência faço o possível e o impossível para ser estereotipado. Você não sabe quanto isso me custa. Ganhei minha primeira calça Lee, norte americana legítima, aos quinze anos.

Em termos, na verdade, consegui o dinheiro imprimindo milhares de faixas na oficina de meu pai. Quando completei o total necessário, viajei até a Rua Augusta para comprar a danada. Tinha que ser legítima e não dei chances para sair errado. Depois disso foi uma sequência interminável de objetos necessários para me garantir minimamente dentro. Dentro do Status Quo e fora da rale.

No caso da militância evangélica pode ser mais complicado, embora os princípios da moda estejam presentes e latentes. Não está mais na moda ser evangélico, pastor e essas coisas ultrapassadas. Então preciso sair, sem sair. Mudar os nomes, vestir outras roupas, adotar nomes e apelidos, falar mais solto, voltar a beber, pelo menos cerveja e vinho, fumar, começando pelos charutos cubanos. Só não dá para mudar a fonte dos meus desejos supridos. Ah, isso não, nem pensar.

Fui um dos que largaram na frente. Sem declarações bombásticas via blog ou púlpito, deixei a Igreja. Mas não deixei assim, radicalmente. Continuei amigo de vários pastores, alguns que estudaram teologia comigo, outros que me ajudam a segurar a barra quando é preciso, até hoje, cheguei até a cuidar de uma congregação por alguns meses, em Tatuí, para ajudar o Pr. Eliseu, um desses evangélicos incômodos.

Incomodo para os outros, mas muito propício para nós. Muitos dos meus amigos são bons cristãos de igreja, igualmente e temos intensa comunhão, inclusive espiritual. Alguns pastores, poucos é verdade, ainda cultivam o hábito de se aconselharem comigo, não apenas sobre marketing ético e bíblico, mas sobre tudo que tange um ministério. Mas isso não me colocou de volta como membro ou participante da igreja.

Também deixei de me considerar evangélico, embora faça de tudo para continuar propagando o evangelho e a Gruta é um bom subterfúgio nesse sentido. Não me incomodo se alguém me vê como evangélico, tampouco sinto vergonha.

Sinto meu coração apertar quando vejo pessoas metidas nessa nossa política suja usando o pseudônimo de pastor, missionário e essas designações. Fariam um grande bem se mantivessem suas crenças, se é que as têm, bem camufladas. Melhor ainda, se deixassem essa vida pregressa. Por outro lado, meu coração também se aperta quando ouço injustiças, calunias e difamações contra os evangélicos em geral, como se fôssemos uma espécie suja e inóspita.

Certa vez, quando voltava da missão à Albânia, depois de passar uns dias confinado em uma missão evangélica em algum lugar menos cult da França, passei um tempinho na casa do pastor Peter Brosfield, na Holanda, antes de pegar o avião que me traria de volta à amada São Paulo.

Quando cheguei lá, ele não estava e fui recebido pela mãe dele, que não me conhecia anteriormente. Junto comigo estava um amigo, descendente de poloneses. Conversamos, enquanto tomávamos chá e a pobre senhora não tirava os olhos de mim, a ponto de me constranger. Ela concluiu que eu não falava inglês, pois não disse nenhuma palavra desde que cheguei ali.

O inglês dela não era nada bom, também, e preferi não forçar. Na hora em que ela não aguentou mais de curiosidade, conseguiu perguntar ao meu amigo se eu era crente. Bom, a razão é meio obvia, deve-se a essa minha cara metade muçulmana e metade judaica. Quando estou mais queimado do sol, mais africano, quando estou clarinho, mais israelita.

De qualquer forma, em nenhum momento me considerou cristão, ao mesmo tempo que recebeu meu amigo como cristão, sem a necessidade de qualquer credencial. Afinal ele era bem branquinho, louro, cabelo liso e feio pra danar. Além do mais, se eu fosse um bom muçulmano, certamente o filho dela, um cristão excelente, teria me recebido da mesma forma.

Convivo muito bem com igrejeiros ou sem igreja, cristãos ou não. Um de meus melhores amigos é judeu, embora tenha passado por uma conversão ao cristianismo católico, numa direção meio Simone Weil. Ele também nasceu na França e é um intelectual um tanto anárquico, com a diferença que adora bons restaurantes. Entretanto sinto ter dado exemplo a algo não muito louvável. Acredito que a Igreja deveria ser forte.

Tenho minhas reservas filosóficas contrárias às hierarquias e organizações empresariais. Detesto tiranias e tiranos e sempre tive enorme dificuldade em me manter em algum lugar onde houvesse chefes e índios, lideres e liderados, pastores e ovelhas, governantes e governados, seja lá qual for o nome que deem à prática autoritária.

Quando tinha minha empresa com um punhado de funcionários, minha mãe que morava por perto, nos visitava com segundas intenções e vivia me dizendo para não tratar o pessoal como iguais. Ela não se conformava que eu era apenas o Luiz ou o Lou para eles. Só não sou hipócrita a ponto de almejar cargos e depois sair por aí gravando vídeos com declarações contrárias ao autoritarismo. Sai pra lá meu.

Creio que esses meus amigos, que talvez tenham mirado em mim, ou em alguém que fez como eu, saindo covardemente pela tangente, deveriam repensar. O séquito cristão precisa de gente comprometida até a morte, como ele fez e deu a receita. Se puder ser com menos hierarquia e organismos empresariais, tanto melhor. Mas se não der, paciência. Só não arrisquem a missão.

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2 thoughts on “Cristãos covardes ou comprometidos?

  1. Olá Lou, recebi um convite para curtir sua página no Face e fui ver do que você falava. Cai no texto “Cristãos covardes e comprometidos” e adorei a forma deliciosa como você escreve. Imediatamente me identifiquei com você quando fala de tiranias e tiranos e de como tem dificuldade em se manter em algum lugar onde há chefes e índios, lideres e liderados, pastores e ovelhas….
    Que agradável surpresa. Partindo para o próximo texto. ☺

    1. Que bom Vera! Fique a vontade, temos mais de dois mil e duzentos textos, mais ou menos organizados em categorias. Isso ainda não está pronto e vários ainda não estão no lugar certo. Bom vê-la por aqui. Obrigado.

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