A Gruta do Lou

Copo de Wisky

Acordei no meio da noite, mas não abri os olhos de imediato, ouvi a respiração de alguém que deve ter corrido do céu até meu quarto, tal era a dificuldade. No primeiro momento, só pude pensar que era a Dedé, mas logo me indaguei sobre inverosimilhança dessa possibilidade, pois mesmo que ela subisse a escada correndo e em um pé só não se cansaria tanto assim. Pensando bem, isso não era respiração de quem acabou de fazer um grande exercício, mas de alguém que não faz exercícios há muito tempo e, ao invés disso, fuma muito, bebe, está obeso, etc. Putz! Só pode ser o Raniel!

Batata! Abri os olhos e vi a figura paradoxal ao meu lado, roupa de anjo e aparência de Vinícius de Moraes perto do fim, só faltava o copo de wisky em uma mão e o cigarrinho na outra. Então ele foi logo falando:

– Pô! Custou a acordar meu! Faz um tempão que estou aqui assistindo seu lindo roncar. Parece mais um filme de horror. Falou com cara de sacana.

Além de todas as suas evidentes incoerências e indisciplinas, Raniel é um baita anjo gozador, para completar o quadro.

– Acho que tudo o que não desejava hoje, era acordar. Respondi.

– Já sei, pelo cheiro da brilhantina, a coisa está feia por aqui. Tive que vir às pressas, estava há vinte e um dias numa cartada de poker daquelas, rapelando três diabos infernais, e meu celular não parava de tocar. Então fui obrigado a atender e ouvir o maior sermão de meu chefe, com toda aquela ladainha de sempre, me lembrando quão errado sou, etc. Por fim, passou todos os recados deixados por seu filho, parece que ele anda reclamando como nunca, não só da doença, mas de você., também. Disse com cara de maroto.

-Pois é, os caras me dão um baita pé na bunda e o vilão sou eu. Resmunguei.

– Já sei, outro inferno astral. Vocês tem cada definição imprecisa para as coisas. Observou.

– Bom, se disser para as pessoas que estou sendo alvo de alguma perseguição demoníaca, desagrado os batistas e presbiterianos, se digo que estou em meio a um período adverso, desagrado os pentecostais e se chamo tudo isso de incompetências geradas por meu script perdedor, desagrado as psicólogas. Melhor chamar de inferno astral e não chatear ninguém. Expliquei.

– Pior é que não tenho boas notícias, na verdade, não tenho qualquer notícia. Você sabe, no céu as informações desaparecem quando certos indivíduos querem. No seu caso e como você está careca de saber, aliás esse cabelo não para mais cair (caçoou) os caras não dão maiores nem menores atenções. Lá, eles só falam de Gondim pra cá e Ed pra lá, em termos de Brasil, claro. O tal do Elienai anda subindo no conceito geral, também. Mas você continua um senhor ninguém, por lá. Ele sempre me diz a verdade nua e crua.

– Agora sim, se já estava ruim, ouvir um anjo com asas e tudo, apesar do estilo… digamos …. exótico (devolvi a caçoada), dizer isso, acabou com o resto de esperança que poderia estar alimentando. Considerei.

– Bom, sempre resta a fila do INNS celeste. Aquilo está uma decadência só. Seu processo deve estar em andamento. Com muita paciência, eles devem dar uma daquelas soluções burocráticas costumeiras e paliativas para o seu caso. Se chegar alguma esmola dessas que só dá para comprar a mistura do fim de semana, você já sabe de onde veio. Me tirou.

E continuou: – Pelo menos, posso dizer que seu filho, apesar das aparências, está firme. Vou arranjar um dentista decente para tratar os dentes dele, um dos demônios que estou arrasando na mesa de poker tem um nas mãos e posso apostar o infeliz e quanto ao INCOR, sossegue, eles não perdem por esperar. Farei uma limpeza naquelas legiões de demônios safadas, logo, logo. Incrível como os chifrudos adoram hospitais e gente com aquelas roupinhas ridículas. Sem falar em médicos e enfermeiras (os), com quem eles têm a maior intimidade de influenciar.  Esses só perdem para os advogados, sem esquecer os psicólogos, lógico. Informou.

– Enquanto isso, fico aqui, sem saber o que fazer e nem ao menos poder fazer qualquer coisa, fora o enchimento de saco de todo mundo, me olhando e me considerando o próprio Judas. Reportei.

– Quanto ao seu sustento, só poderia dar palpites, como disse, não tenho nenhuma informação só as minhas ideias mesmo,, mas não o farei porque você não compartilha dos meus “princípios financeiros,” apesar de parecer muito comigo.  Em uma mesa de poker, você deve ser desastroso. Brincou. Mas você sabe, melhor do que eu, porque de toda essa “falta de sorte”, principalmente quando o tema é:  “finanças pessoais”. As pessoas não sabem o que estão perdendo não participando dos seus seminários sobre isso. Se você se compenetrasse e aceitasse sua vocação ministerial, parasse de querer mudar o mundo, tivesse mais jogo de cintura e engolisse os sapos necessários, as coisas seriam bem diferente, imagino. Falou com ar de sábio e da própria experiência.

– Você sabe quanto já pensei nisso, por toda a minha vida. Mesmo quando tentei ser assim, inclusive nessa minha última experiência, nunca deu certo. Aguento uma ou duas provocações e depois acabo chutando o pau da barraca. Dessa vez nem precisei disso. Só o meu semblante descaído, deve ter sido suficiente. Expliquei.

– Bom, preciso ir. Quanto ao Thomas, se não conseguirmos nada no INCOR, mesmo com minha santa interferência, angelical, preparem-se para uma solução mais distante, quem sabe América do Norte ou Europa. Nós anjos, temos mais recursos por lá, onde os demônios são mais babacas. Os daqui são ferozes e nem sempre conseguimos submetê-los. Até para chegar aqui preciso usar todo o meu charme ou umas boas porradas.

Disse isso, fez sinal com a mão me mandando um beijo e sumiu, me deixando com minhas misérias. Na prática, continua tudo na mesma. Imagine a minha situação, se nem o anjo com asas e tudo pode dar jeito. Não sei porque as coisas tem que enrolar sempre próximo dessa época de natal. Não entendo o prazer do diabo com essas atitudes heterodoxas.

Pior é o Projeto Coração Valente, que fica completamente inoperante. Acredita que ninguém deu a mínima para o monte de apelos que tenho feito. Nem unzinho sequer. Fique tranqüilo, você não foi o único a dar de ombros Pessoal prefere fazer suas doações onde há promessas de indulgências pós morte. Acho que subestimo a pecaminosidade dos irmãos. Deve ser muito pior do que possa imaginar. Melhor pular fora desse barco, também, pois comigo dentro isso nunca irá adiante.

Acabo de falar com uns três ou quatro dos meus credores e devedores, os primeiros estão prometendo me tirar até as calças e os outros, bem, eles mandaram dizer que só voltam o ano que vem, depois do carnaval, claro.

Nem meu wisky tenho mais, alguém acabou com ele. Um copo de wisky na mão, agora, ajudaria bem.

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