Construtor de Pontes

john stottJohn Stott

Em pouco tempo, vi o império Google crescer e tornar-se majoritário na Internet. No começo, tínhamos o charmoso Alta Vista e o pouco simpático Yahoo, internacionais e o Cadê nacional (devidamente engolfado pelo Yahoo a preço de bananas) para nos auxiliar em nossas pesquisas pela web e agora, lutam para permanecer ou já sumiram.

No inicio, o obstinado Google me ajudou, embora não saiba disso, porque fez minha pagina ser vista por muitos e daí consegui fazer alguns bons negócios. Entre eles, duas semanas que passei com o pessoal da APAE em São João Del Rei, com direito a incursões a Bandeirantes e um encontro não programado com uma trupe da Rede Globo, em trabalho de elaboração de mini-série, com destaque para a atriz Ana Paula Arósio, uma experiência muito agradável, além de positiva profissionalmente.

Mas logo o Google começou a mostrar a que veio e tratou de vender os primeiros espaços de cada pesquisa e meu site maneiro foi sumindo das paradas. Há dois anos, tentei comprar o serviço e nem assim funcionou, praticamente, recebendo umas poucas consultas que não redundaram em nenhum negócio.

Tempos atrás, ainda solteiro, na verdade não ouvira falar da mulher que se tornou minha esposa e mãe dos nossos três filhos, além de companheira inigualável, até aquele instante, passei por uma pequena crise existencial. No epicentro desse pequeno tufão assumi o texto do salmo 128 como resposta de oração, pois passei um bom tempo orando, naqueles dias. Para ser franco, acho que Deus em pessoa ou em espírito mesmo, veio ao meu quarto da época, ou quem sabe, enviou um daqueles seus anjos mensageiros exóticos para soprar esse salmo desconcertante em meus ouvidos. Se ainda não sou grande coisa na arte de memorizar textos bíblicos, naquela época era quase zero. Enquanto orava uma noite, ouvi claramente: Salmo 128. Puxei minha bíblia e fui ao texto, para minha surpresa, ele respondia a todas as minhas dúvidas e ansiedades, de então.

Falecido há poucos dias, John Stott me ensinou algo extremamente importante e de utilidade imensurável, ou seja, construir pontes. Não ria ainda. Era assim que ele via o ministério da palavra, o pregador, em sua mais importante missão, precisava se tornar um construtor de pontes entre a palavra dita nos tempos do Antigo e Novo testamentos e seus significados em nossos dias.

Durante muito tempo, escondi essa experiência fugaz com o Salmo 128. No fundo, tinha medo de não ter recebido permissão divina para compartilhar o fato pitoresco. Mas isso passou e pretendo, inclusive, expor esse salmo para a primeira vítima (ou vitimas) que me convidarem para pregar a palavra. Se bem que esses convites escassearam ultimamente. Não sei se sou o melhor, mas de tanto refletir, orar e depositar minhas esperanças nesse texto, imagino que tornei-me expertise nele. Engraçado essa possibilidade nunca ter me ocorrido, antes, nem quando era convidado para pregar mais constantemente.

Todos os versos desse salmo falam profundamente até a divisa entre a minha alma e o meu espirito, afinal trata-se de um salmo muito profundo em seu alcance e significado. Mas o verso dois tem reverberado em meus ouvidos como se fosse a batida do bumbo em um rock da pesada. Comendo pãezinhos produzidos no forno do inferno, em termos de trabalho, confesso que apesar de toda essa experiência com esse salmo portentoso, por razões que não seria capaz de explicar, até hoje não apliquei essa parte do texto em minha vida. Pelo menos não da forma radical, o que seria esperado nesse caso.

Constantemente me perguntei o significado de trabalho de minhas mãos. Muitas respostas surgiram, como algum trabalho manual, ou uma rota de saída para algum dom excepcional. Meu pai tinha uma habilidade única com o pincel e a pintura. Quem sabe eu teria esse talento em alguma das minhas prateleiras internas aguardando ansiosamente para vir à luz? Poderia ser a surpresa desejadíssima de exercer um dom musical, quem sabe. E por aí surgiram inúmeras possibilidades, todas descartadas em seu devido momento. Sem saber como responder a essa questão, acho que resolvi pular esse verso e ficar só com o resto, inconscientemente, claro.

Nosso Deus implacável, ciumento e determinado discordou e tratou de alinhar minha vida no sentido de ouvir e entender o texto desprezado, pelo tapado aqui. Claro que o maioral faz essas ações nada democráticas e totalmente manipuladoras, sem tocar em nenhum milímetro de nosso livre arbítrio e não me pergunte como. São coisas do Criador.

Hoje, eu diria, sem medo de ser infeliz, que o significado dessas palavras do verso dois é claramente uma orientação para eu viver do meu trabalho, o mais independente, até onde isso seja possível. Simples assim. Claro que os significados dos textos sagrados possuem grande poder de mutação, dependendo de cada pessoa e levando em conta o tempo, a cultura e o grau de fé delas.

Tenho tentado vencer, ou melhor, sobreviver do trabalho de minhas mãos como um consultor. Para isso construí meu site e ofereci meus conhecimentos quase inéditos na área do desenvolvimento, cujo significado para mim, é o trabalho de relações publicas e captação de recursos em entidades sem fins lucrativos, que vai desde igrejas até sindicatos, passando por organizações missionárias, associações com finalidades filantrópicas, clubes esportivos, escolas, hospitais, etc.. Em certo momento, cheguei a pensar que estava no caminho certo, mas daí, o inesperado Google frustrou meus planos.

Evidentemente, paira no ar acima de minha cabeça a dúvida de que o Magnânimo tenha mexido no meu site de buscas a fim de dirigir-me segundo sua vontade predestinaria. Apesar de não ser nada calvinista, essa coisa da predestinação tornou-se uma obsessão em mim também.

Nessa altura do campeonato, não sei se teria tempo para deixar escorrer de minhas mãos outro tipo de serviço, capaz de agradar a baianada toda, ou pelo menos a maioria ou alguns capazes de fazer o salmo funcionar nessa área de minha vida. Nunca é demais lembrar que ele sugere prosperidade abundante, pois teria sido inspirado por ninguém menos do que o Deus de Davi em pessoa. Dizem que a palavra dele pode fazer coisas inimagináveis e se ele se deu a todo esse trabalho, não deve ter sido com a visão tacanha lulistica.

Talvez a razão dessa parte do salmo ainda não ter dado certo comigo seja porque existe uma certa incompatibilidade entre o que me proponho a fazer (no que sou quase inigualável) e as minhas crenças a respeito de organismos, hierarquias, obediências, democracia, etc. Nesse caso, precisaria funcionar mais como um construtor de pontes capaz de ajudar a galera a desconstruir suas arapucas mercantilistas e mono centralizadas.

Bom, espero ter construído uma boa ponte para meus leitores. Se ainda não funcionou comigo, e espero que ainda venha a acontecer, que comece já com cada predestinado leitor dessas mal traçadas linhas, meu amor.lousign

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