A Gruta do Lou

Como melhorar a qualidade dos estudantes


A melhora da qualidade dos estudantes às custas de sua quantidade já exagerada, deveria ser determinada por lei:

  1. Nenhum deles teria permissão para frequentar a universidade antes de completar vinte anos, idade em que passaria por um “examen rigorosum” nas duas línguas antigas (uma delas o latim e a outra, suponho seja o grego antigo – n.b.) antes de fazer a matricula. Com isso, todavia, o estudante seria liberado do serviço militar e obteria suas primeiras doctarum praemia frontium (recompensas das frentes doutas). Um estudante tem muita coisa para aprender, por isso não pode estragar um ano ou mais de sua vida com o manuseio de armas, um trabalho tão heterogêneo em relação ao seu. Sem contar que essa atividade arruína o respeito que todo iletrado, seja ele quem for, do primeiro ao último, deve ao erudito. É exatamente essa barbaridade que Raupach apresentou em sua comédia Cem anos atrás, na qual mostra a brutalidade astuta do “velho Dessauer” contra um candidato*. Por meio da isenção natural do serviço militar para a classe erudita, os exércitos não seriam prejudicados; diminuiria apenas o número de maus médicos, maus advogados e juízes, professores escolares ignorantes e charlatões de todo tipo. Pois é certo que cada momento da vida de soldado exerce efeito sobre o futuro erudito.
  2. Deveria ser determinado por lei que todos os estudantes universitários, no primeiro ano, fizessem exclusivamente os cursos da faculdade de filosofia, e antes do segundo ano não tivessem permissão para assistir aos das três faculdade superiores (Teologia, Direito e Medicina). Em seguida, os teólogos teriam de dedicar dois anos a esses cursos, os juristas três e os médicos quatro. Em contrapartida, nos ginásios (na Alemanhã, o Gymnasium abrange, nos termos do sistema escolar brasileiro, desde a primeira série do ensino fundamental até a terceira do ensino médio) o ensino poderia ser limitado a línguas antigas, história, matemática e alemão, com um estudo especialmente aprofundado das línguas antigas. Em todo caso, como o talento para a matemática é algo muito especial e próprio, que não corre paralelamente às outras capacidades mentais, nem tem nada em comum com elas, deveria valer para a aula de matemática uma classificação especifica dos alunos. Desse modo, alguém que frequentasse nas outras matérias a primeira turma poderia fazer parte da terceira no curso de matemática, sem nenhum prejuízo para seu orgulho. Só assim cada um poderia aprender essa matéria de maneira proveitosa, segundo à medida de suas capacidades.

Como os professores se preocupam mais com a quantidade dos estudantes do que com sua capacidade, é certo que eles não apoiarão tais propostas, e o mesmo vale para o seguinte: as promoções a professor (Promotionen) deveriam ser feitas gratuitamente, para que a dignidade de doutor, desacreditada pelo afã de lucro dos professores, voltasse a ser uma honra. Para isso os doutores deveriam ser dispensados dos exames estatais.

Arthur Schopenhauer em Arte de Escrever (ensaios recolhidos de Parerga e Paralipomena – 1851)

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