Coerência

Coerência

Vim da Igreja Católica, embora sem grande militância, com destaque para uma participação minúscula em um movimento renovador na década de setenta chamado “De Colores”, apenas. Fora ter estudado meus primeiros anos escolares em escolas católicas, migrando depois para a escola pública, no meu caso o Vocacional, de viés reconhecidamente de esquerda, se bem que, não oficialmente. Então, devido à uma conjunção de movimentos dos planetas em nosso sistema solar, acabei me convertendo em um cristão protestante, através de uma igreja pentecostal.

Cheguei lá com alguma bagagem bíblica, filosófica e teológica. Na época, cursava o básico de humanas na PUC, obrigatório a todos os alunos da área, naquela escola, e a atividade em torno dessas matérias era intensa, tanto em aulas e debates quanto em leituras. Desde a morte do Papa Paulo VI vinha questionando a hierarquia católica, a horrenda história dos papas ao longo dos séculos cristãos e a evidente tendência dos padres por desvios sexuais de toda ordem. Embora não tenha tido nenhuma experiência pessoal, com isso, além de pegar um dos padres da escola onde estudei em flagrante delito.

Em uma igreja protestante sem laços denominacionais, me senti seguro, a princípio. Decidi me aprofundar mais na questão teológica e fui estudar na Faculdade Batista. Não foi necessário muito tempo para me tornar um incômodo naquela igreja, sendo a questão hierárquica meu maior problema por lá. Assim migrei para uma Igreja Batista que se iniciava prometendo uma revisão, exatamente nessa questão. Eles juravam que lá não haveria um papa e se pautariam por um sistema colegiado de pastores. Com o tempo, o que se viu, foi uma igreja igualmente autoritária, que ao invés de ser mono-centrada, era policentrada. Então tratei de deixá-la na primeira oportunidade, no caso, um barco em direção à uma congregação de outra igreja batista onde eu viria a pastorear.

O problema dessas hierarquias eclesiásticas era, para mim, o fato de Jesus Cristo não ocupar a primazia naquelas igrejas. Claro, tudo era meio sutil, falava-se muito no Filho do Homem, mas na hora das decisões importantes, quem decidia eram os filhos dos outros homens, aqueles bem humanos pastores, ávidos por confortos seculares, salvo exceções. Antes de vir para Sorocaba, solicitei minha carta de desligamento do rol de membros da Igreja e nunca mais me filiei a igreja nenhuma.

Paralelo a isso, dei aulas em alguns seminários em São Paulo e trabalhei em várias ONGs tocadas por irmãos protestantes. Fui despedido de um seminário dirigido por uma família protestante por ter sido considerado herege, muito liberal segundo me alegaram. No meu caso, aconteceu por telefone, mesmo. Uma famosa organização missionária também me despediu sob alegações nunca confessadas diretamente a mim, de que eu seria um elemento de tendências esquerdistas. Justamente o alvo contra o qual eles lutavam, em busca de liberdade religiosa nos países de esquerda da chamada Cortina de Ferro. Em Sorocaba, fui despedido de mais umas duas ou três dessas instituições, sempre por problemas ligados à hierarquia, principalmente.

Vejo nessa minha história, pelo menos um ponto positivo, a coerência. A chamada comunidade evangélica não gosta de dissidentes, de não alinhados, rebeldes, insubmissos, contestadores, gente ávida por colocar tudo em discussão e não conformista. Sendo assim, ela trata de extirpar de seu meio essas “maçãs podres”, como eu. Agora, há uma tolerância muito maior, por mais incrível que pareça, o cara precisa ser adepto do Teísmo aberto, da teologia relacional, ressuscitar a fraternidade evangélica e a Teologia da Libertação com nome trocado para Missão Integral ou na Íntegra para conseguir um honrosa demissão de seus cargos eclesiásticos. Se tudo isso falhar, um caso com a organista da igreja ou com a secretária da missão poderá resolver. Em minha opinião, a comunidade evangélica age coerentemente, com seus conceitos, óbvio, quando assim o faz. Portanto não os condeno por isso.

Depois de um tempo, percebi que precisava ser mais coerente e tratar de me assumir como um dissidente. Se desejo um Cristo bíblico, do tipo que lava os pés dos discípulos e, apesar de traído por eles na hora “H”, ainda clama ao Pai que os perdoe, então meu lugar não é em Igreja alguma, onde esse Cristo não tem lugar. Pelo menos não que se saiba.

Sendo assim, acho que há gente por aí que deveria se tocar e cair fora antes de alguma visita surpresa dos patrões chegando com o bilhete azul inevitável. Seria mais honroso. Mas há, por parte de todos nós, o apego financeiro que nos impede de bancar machos. Se você for procurar os nomes de dissidentes famosos, encontrará o Rubem Alves, o Leonardo Boff, Brennam Manning, Henry Nowen e muitos e muitos outros, sem falar no próprio Cristo, o maior de todos. Todos eles comendo as sobras que caem das mesas mais ricas. Quem sou eu para me queixar?

Mas ainda há um detalhe que considero muito importante nessa questão, talvez o mais importante de todos. A própria bíblia reza que as coisas do espírito se discernem espiritualmente. Para mim, o maior desvio da Igreja foi ter perdido o lúdico, não importa se a prostituta usada era a teologia da prosperidade ou o teísmo aberto, se é que elas foram as armas satânicas, mesmo.

Em outras palavras, não somos mais capazes de ouvir a voz de Deus. Alguns chegam mesmo a crer que Ele nem mesmo esteja por aqui, nem nunca esteve. Deixou-nos aqui para concorrer uns com os outros em uma espécie de movimento darwinista, onde os melhores e mais sagazes vencem. Quem não consegue é creditado em alguma conta de perdas e danos, ou varrido por um Tsunami qualquer ou soterrado em algum terremoto haitiano da vida. Que o diga a família Arns, que tanto contribuiu para os movimentos dissidentes, com suas idiossincrasias da esquerda católica. Do outro lado, estariam os que esperam tudo cair do céu e convivem com o sofrimento como se ele não existisse, ou o sublimam como consequência natural ao pecado humano.

Se não está bom para mim, tenho e sempre terei a opção de largar o osso. Sei que não é fácil, e o que nos espera do outro lado, será insuportável e sou uma testemunha flagrante dessa verdade, pois não tem sido nada confortável viver no ostracismo e na penúria consequente, depois que abandonei minha promissora carreira pastoral junto à igreja organizada e não fui capaz de fundar minha própria seita. Mas foi apenas por uma questão de coerência.

Capricornio PB


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8 respostas para “Coerência”

  1. Se viver é perigoso, como diria Riobaldo, quanto mais viver discordando. Só o perigo é saudável! : D

  2. Rondinelly
    Como diria o principezinho astronauta, cada um é responsável pelo que cativa. Se essa é sua escolha, então assuma e não se assuste com os contrários.

  3. Roger
    Como tudo que faço, a GrutaNet (que, espero, nunca passará disso) vai indo bem devagar. A começar que não consegui pagar a anuidade para a Ning, ainda. Mas, você sabe, sou muito persistente. 🙂

  4. E se eu, antes de fazer parte de qualquer denominação, pelo que ouço de várias testemunhas, já sei que sou dissidente? Não seria coerente me manter fora delas em vez de passar pelas mesmas situações?

    1. Andrea
      Obrigado pela visita e comentário.
      Coerente até seria, mas não posso deixar de observar que há um certo prazer, talvez meio mórbido, em frequentar esses lugares sob olhares curiosos e reprovadores. Sabe aquela história de se divertir no trem fantasma, montanha russa, etc.? Faz parte da natureza humana encontrar prazer nessas coisas exóticas. 🙂

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