A Gruta do Lou

Certo trapezista

Domingo, Agosto 20, 2006


Meu filme predileto, durante certo tempo de minha vida.

Lendo um post da Rosana Hermann de hoje, sobre o Cirque du Soleil inevitáveis lembranças vieram a minha mente, especialmente com esse vídeo que ela nos brindou.

Desde menino, convivi com os sonhos e magias do mundo da arte da representação e do impacto visual. A história começa com meu avo juiz e comerciante, fugindo de casa para fazer mágicas e tocar violino nos circos que passavam pela cidade. Daí, meu pai foi mordido pela mosca circense e acabou, aos quatorze anos, fugindo com um circo e transformado em um de seus números. Durante esse tempo, experimentou todas as possibilidades do circo, de palhaço a trapezista, de vendedor de pipocas a armador de tenda. Era uma norma, circo montado todo mundo era artista, terminado o último espetáculo todo mundo virava operário.

Infelizmente, tudo isso ocorreu em uma época em que havia muitos circos, nenhum como o Cirque du Soleil, óbvio e o povo foi enjoando e, com falta de dinheiro e o abandono da maioria dos bons números, os circos foram se transformando em teatros itinerantes e meu pai foi levado do circo ao rádio, para nunca mais voltar. Mas ficaram os laços.

Ai pelos meus doze anos, meu pai me levou a um circo onde estavam vários de seus antigos pares circenses. Como sempre, fui inocentemente e lá me maravilhei, pois era impossível não maravilhar-se. Meu pai convenceu os trapezistas a me levarem para a plataforma ( uns 15 a 20 metros do chão) e dar uma voltinha comigo no trapézio. Talvez isso já estivesse previamente combinado, não sei.

Foi muito difícil subir. Os trapezistas subiam por uma corda, durante os ensaios. Tiveram que por a escada (feita de cordas e que só era usada em dias de espetáculo) para eu subir. Todos os exercícios prévios eu já fazia, há anos, sem saber. Primeiro fiz um passeio sozinho, um balanço no trapézio. Depois, vários balanços com dois irmãos (um rapaz e uma moça) e o grande momento, a troca de trapézios. Fui levado, seguro só pelos pulsos e antes que pudesse fazer qualquer coisa, fui seguro pelos pés, pelo trapezista do outro trapézio. Alguns balanços assim e consegui agarrar o trapézio que me enviaram da plataforma. Ai errei e não consegui chegar lá. Foi preciso usar uma corda para me puxar de volta.

Empolguei-me e não queria mais ir embora. Só sai de lá quando todo mundo saiu e via rede, o que não foi nada agradável. Aquilo doeu e me deixou todo ralado. Nunca mais vivi êxtase igual, bom talvez sim, deixa isso pra lá.

Todos me elogiaram e disseram que eu já era um trapezista, pois,nascera com o talento. Os treinamentos e ensaios só poliam o talento. Convidaram-me a fazer parte do número. Seria sensacional ter um menino de doze anos na trupe. Meu pai não me impediria, jamais. Só que eu tinha uma mãe e nunca mais voltei ao circo, a não ser para assistir.

Não consegui ser trapezista no circo para ser trapezista na gruta. Graças a esse talento tenho sobrevivido. Perdi a conta das vezes em que dei piruetas no ar do dia a dia, a grande altitude, para continuar vivendo e mantendo minha família. O espetáculo ainda não terminou e muitas passagens altaneiras ainda me esperam. Tomara que a corda esteja lá quando eu errar ou, pelo menos, a rede mesmo que doa e rale na queda.
# posted by Lou @ 12:39 PM

lousign

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3 thoughts on “Certo trapezista

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