A Gruta do Lou

Carta aos meus filhos

A todos os meus filhos, naturais e adotivos.

Minha grande angústia como pai é sofrer a dor de saber o que vocês precisam e não poder dar-lhes. Claro, as coisas materiais estão inclusas, mas privilegiamos as necessidades emocionais em dias sagrados, como hoje.

Talvez e naturalmente, vocês pensem que minha motivação aqui esteja relacionada a essa longa estada no deserto, sem trabalho digno e muito menos alguma perspectiva de mudar a situação. Não tenho informações, garra e capital para mudar isso.

Jesus não tem ideia do meu sofrimento, ele não tinha filhos naturais, só os adotivos e passou quarenta dias entre o sol e a areia, somente. Sem falar do último dia, quando um monte de anjos serviu-lhe o banquete dos deuses.

Comigo não tem essa, é só o Raniel e ele nem é meu anjo, faz o que pode, coitado. Ao longo da vida, orei muito por cada um de vocês. Pedi paz, proteção, amor verdadeiro, saúde, futuro, suprimentos, companheiros e companheiras, sabedoria, formação e vida longa.

Como vocês podem ver, fui muito mais longe do que Salomão, por exemplo, um bocó capaz de acreditar que sabedoria era o suficiente. Buda acreditava em Jejuar, meditar e esperar, outro tolo.

Para Jesus de Nazaré, era aquela coisa de arrependimento e Reino de Deus e Paulo preferia aconselhar seus filhos a não casar, a menos que fosse inevitável. Ele devia ter horror a chegar um domingo, dia consagrado aos pais, como eu estou.

Dias dos Pais nunca foram muito felizes para mim, talvez por ser no mês de agosto. Evidentemente, sou seu pai todos os dias do ano e, provavelmente, nunca houve um dia em que não tenha me preocupado com vocês, com ou sem motivo.

Mas nesse dia, a angústia chega a ser insuportável, mormente, quando não posso oferecer-lhes um almoço ou um post decente. Isso tudo contrasta com a grande e maior alegria de todas que senti no dia em vocês nasceram e/ou os conheci.

Há um cara, meio pancada, me enviando mensagens diárias como se fosse o Universo. Já faz uns anos. Basicamente, ele acredita naquela tolice cujo teor é: O Universo conspira a nosso favor. Se Deus não o faz, imagine a sua criação maior.

Nada conspira a nosso favor e, provavelmente, tudo conspira contra, se permitirmos. Não quero usar essa mensagem para me lamentar, não sou nenhum Jeremias. Afinal, tudo que se passou comigo dever ser consequência de minha incompetência ou de algum pecado cabeludo que devo ter cometido em sonho, ou enquanto perambulava sonâmbulo pelas ruas, pois não consigo me lembrar do que possa ter feito capaz de justificar essa minha vida. Isso em uma visão mais, digamos, pagã.

Se considerarmos toda essa história de Graça contida nos evangelhos como verdadeira, daí só me restaria pirar. Então só sobra assumir tudo e dizer: Sou o único responsável por essa existência cretina.

Assim me sobra a obrigação de lhes pedir perdão, por minha incompetência e falta de sorte. Se eu fosse incompetente, mas tivesse alguma sorte, quem sabe vocês nem notariam minha falta de saber, como acontece com muitos pais que conheço. Hoje estão sentados às mesas fartas de suas casas, com seus filhos como brotos da oliveira à sua volta e suas esposas com sorrisos ridículos de um canto ao outro da boca, enquanto suas contas bancárias engordam por si só.

A culpa pode ser do Lula que não foi macho, o suficiente, para criar uma Bolsa Família Classe Média. Inocente como sou, certamente daria meu voto a ele, ao invés de anular. Será que foi esse meu pecado? Não, isso foi depois. Bom, pode ter piorado, mais ainda, as coisas.

Não sei se pai incompetente pode dar conselhos, mas hoje eu lhes diria, abandonem tudo que não seja capaz de enriquecer vosso saber, inclusive certos deuses. Cuidado com o cristianismo que anda por aí, ele pode levar-lhes ao suicídio. O Islã é fria, também. O Budismo pode dar-lhes alguma paz, mas só nessa vida. As baladas são diabólicas e as outras não valem a pena em gastar tempo para considerar. Sejam generosos entre si, para com os outros e com Deus.

Ele não tem culpa do cristianismo que trouxemos até vocês. Acima de tudo, pensem muito bem se terão competência para colocar filhos nesse mundo. Eles precisarão de vocês, como vocês precisam de mim e se forem como eu, eles estarão roubados. Fiquem com Deus, quem sabe ele olhe por vocês mais bondosamente do que tem feito por mim, embora ainda espere algo dele. Não é a esperança a última a morrer?

 

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6 thoughts on “Carta aos meus filhos

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Meio dramático, não? Pelo jeito, foi daí que saiu meu jeito melodramático mexicano de ser. =)
    Esquenta não, o problema que mais me frusta no momento não tem nada a ver contigo, e eu não ter grana, e ter problemas derivados disso hoje, é 99% culpa minha mesmo.

    Os pais precisam abrir caminho para os filhos a fim de evitar que eles precisem começar do zero.

  3. Snif, snif, snif… Já parou pra pensar que esse negócio de aderir a igrejas dos “homis”, aos seus projetos sociais que só beneficiam eles mesmos, no mínimo anestesiando as suas consciências e escondendo suas intenções, e acreditar que está trabalhando para honra e glória do nome de Deus só tem acarretado esse desmantelamento do mundo? Não é só vc meu irmão que passa por isso, são milhões de pessoas em todas nações. Esse cristianismo fabricado e faccioso tá é provocando a ira do Todo Poderoso e o resultado é esse aí…o princípio das dores…as pedras começam a clamar (tá esquentando!)…
    Ter um feliz dia dos pais com o Pai maior tão irado nos diz que há qq coisa de errado no ar… E não são só turbulências!
    Senhor tem misericórdia, eles não sabem o que fazem.

    Amém!

  4. Eu adorei.
    Não é fácil ser pai, Lou, é bem difícil, muito difícil e, você, sendo pai de tantos, quanto mais difícil. Alguns levantam armados com pistolas, para defender o sutento de sua prole, outros precisam esquecer os filhos para que eles lembrem que têm um pai e por aí vai. Tenho certeza de que você é um ótimo pai.
    e se eu podesse fazer um pedido a ser realizado nesse instante, pediria para que minha familia esteja sempre bem, com saúde e felicidade e a sua idem.

    Seu pedido foi aceito, em breve enviaremos e-mail para confirmação do seu cadastro.

  5. Lou…com a quantidade de “filhos cavernosos” que você tem, matematicamente, o seu tempo fica restrito à orações
    em prol dessa turma toda…não é à toa que você fica desamparado e sem rumo, sem falar que o barba branca já deve estar até a tampa com tantos pedidos Via Lou.

    Abração,feliz dia dos pais,e não se preocupe tanto com
    a “filharada”

    É verdade, mas tenho um software aqui que replica minhas orações. Foi um cara fissurado em Twtter quem fez para mim. Em segundo tenho milhares de orações realizadas. 🙂

  6. LH, tua tranquilidade no meio da angústia me comove mais que o drama da paternidade. Acho que essa onda de comprar presentes pré-fabricados e padronizados, de perfumes a carros, é uma forma de escapar da vertigem dolorosa do nosso tempo: a confusão de nossas mentes, a ausência de uma paixão fulminante em nossas almas, a fuga de não-se-sabe-o-quê para não-se-sabe-onde. Todos estamos no desejo de voltar a brincar no colo do papai, e na missão de ser esse colo para os nossos. Abraço de um amigo como-se-fosse-filho.

    Meu filho, essa tranqüilidade tem feito grandes estragos na minha vida. Pessoa não acredita quando digo que estou sofrendo, afinal sofrimento e tanquilidade não combinam. A última foi o completo abandono do Projeto Coração Valente, pela maioria dos doadores. Maioria mesmo!

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