A Gruta do Lou

Cada dia será como Deus quiser



Por Luiz Henrique Mello

Em termos da experiência envolvendo nosso filho caçula, o Thomas, um cardiopata congênito, há muito a ser dito. Não consigo imaginar, quando vou parar de descobrir novos ângulos relacionados a essa questão.

Creio que, em termos teológicos, o Fábio Adiron foi muito feliz em seu excelente artigo, publicado nesse mesmo blog. Meu acréscimo já foi mencionado em artigo intitulado “Uma Nova Teologia”, publicado em meu Blog. Todo esse acontecimento nos fez repensar nosso sistema de crenças e tratar de alargar as estacas das nossas tendas.

Tentarei abordar esse tema, um pouco mais, pela ótica das sensações, dos sentimentos, do relacionamento e com algumas consequências mais práticas.

A primeira pergunta que veio a minha cabeça quando me comunicaram o veredicto: “Seu filho tem um mal congênito, de natureza grave e complexa no sistema circulatório, principalmente no coração”, foi: “Espera ai, como isso pode estar acontecendo comigo?” Na verdade, estava acontecendo com o Thomas. Eu, minha esposa e os irmãos dele éramos as outras vítimas, atingidos indiretamente.

O primeiro acontecimento interessante foi a reação do pastor de nossa Igreja. Segundo a teologia dele, na época, essas coisas seriam conseqüência de pecado. Então, procurou-nos em nosso momento de dor, para convencer-nos a pedir perdão por algum pecado nosso oculto, capaz de ocasionar a cardiopatia no Thomas. Sem comentários.

Segundo os médicos, que o atenderam logo de início, o problema poderia ser minimizado com procedimentos cirúrgicos, mas não havia garantias. Se ele superasse as primeiras horas ou dias, as chances de sobrevivência aumentariam. Isso criou, em mim, um sentimento de gratidão jamais experimentado ou imaginado. Cada novo dia ao lado do Thomas é uma dádiva nova de Deus, certamente. Ele nasceu no dia 11 de maio de 1988.

Minha esposa desenvolveu um sistema de crenças mais elaborado e surpreendente, a partir dai. Certa vez, logo depois do nascimento de nosso filho, estávamos na porta do Colégio Batista para resgatar os dois mais velhos, quando uma mãe se aproximou dela e, com os olhos cheios de lágrimas, perguntou: “Como você está conseguindo suportar isso?” A resposta encheu os meus olhos de lágrimas, quando ela disse: “Eu li em um livro da Corrie Ten Boon que quando ela era pequena e estava assustada por não saber se Deus a livraria de um grande problema, se isso viesse a acontecer, seu pai lhe perguntou: Quando vamos para a capital a que horas compramos a passagem para embarcar no trem? Ao que a menina respondeu: Um pouco antes de entrarmos no trem. Então, continuou o sábio pai, quando e se esse problema chegar, um pouquinho antes, Deus te dará o necessário para enfrentá-lo.” Assim, concluiu minha esposa, eu nunca tinha imaginado a possibilidade de ser mãe de um filho com esse problema ou outro qualquer, mas, um pouquinho antes dele nascer, Deus me deu os recursos necessários para enfrentar essa situação.

Os primeiros cinco dias do Thomas se passaram dentro da UTI do hospital. A equipes de médicos e enfermagem revezavam-se em turnos e criamos um bom relacionamento com eles. Entretanto, uma noite, quando entrei para visitar o Thomas, fui expulso da UTI pela enfermeira chefe que assumira o plantão noturno. Minha primeira reação foi uma mistura de ódio e abandono, de raiva e impotência ou algo assim, mas surgiu em minha mente um pensamento estranho, consolador de certa forma: Pensei, “ela não sabe o que faz”. Só faltou pedir a Deus para perdoá-la, por isso.

Nesses dezoito anos, foram duas cirurgias de tórax, inúmeros procedimentos invasivos com cateteres (cateterismos), centenas de exames chatos ou doloridos, mas isso parece ter sido, sempre, o menos importante. Para o Thomas, surgiram limitações de ordem sociais muito importantes. Ele e todos nós descobrimos que a sociedade não está preparada para conviver com pessoas cujo aspecto fuja demais aos padrões aceitos. Começamos a reparar, como nunca, que há toda uma cultura determinadora dos biótipos aceitáveis ou inaceitáveis. Através da propaganda, principalmente, essa cultura é construída. No mundo da propaganda, das novelas, cinema, revistas, etc, essas pessoas só aparecem para pedir esmolas ou perpetuar seus dramas. Eles não fazem parte da vida cotidiana de ninguém. Parece não haver esse “tipo” de pessoas no ideário dos meios de comunicação. Esse fato, acaba determinando o comportamento da maioria das pessoas em todos os lugares. A primeira instituição que o Thomas teve que abandonar foi a escola. Depois, percebemos não haver lugar para ele e para nós na Igreja, também. Até encontrar trabalho ficou mais difícil. As pessoas, por diversas razões de ordem emocional, não querem contratar o pai, a mãe ou o irmão de alguém com esse problema.

A Internet passou a ser o mundo do Thomas. A imagem que as pessoas têm dele é aquela que ele escolhe divulgar. Então, ai o relacionamento torna-se igual e democrático para ele.

Não sabemos muita coisa, ou não temos muito a dizer sobre o futuro do Thomas. Muito antes de ele vir ao mundo fui preparado para ele através de um filme cujo título era: “Cada dia será como Deus quiser.”. Assim tem sido a vida do Thomas e a nossa. Cada dia pertence ao Senhor. Então, cabe a Ele determinar tudo.

OPS: Esse post foi publicado originalmente no blog Kerigma Proclamação.

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